1.7.13
a brasileirinha ataca novamente
Acostumada a ver a Seleção patinar entre o medíocre e o vexame, parece que a cabeça da brasileirinha, que já não é lá muito boa, desandou de vez com o olé de 3x0 em cima da Espanha. Ainda entontecida com o triunfo, saiu de casa uma hora antes do horário sem nem perceber. Chegou cedo demais na Justiça, mas até que foi bom, que toda hora sentava gente ao lado da brasileirinha, falando só de futebol. A brasileirinha adora. Sente sempre, em jogo bom ou jogo ruim, uma emoção que só o futebol, só ele, desperta. É do tipo que não perde a chance de discutir a partida da véspera, ainda mais quando a Seleção faz bonito. Aliás, sempre que a Seleção está sob o comando do Felipão, que pra brasileirinha é rei absoluto e o melhor técnico que nosso time já teve ou terá. Aproveitando o tempo livre, a brasileirinha engrenou numa análise minuto a minuto com o senhorzinho do banco ao lado. Quando já iam lá pelos 45 do 2° tempo e o jogo já estava mesmo ganho, a brasileirinha de repente lembrou que estava ali a trabalho e ainda não tinha visto seu cliente. Estas situações, a brasileirinha, como qualquer advogado, resolve ficando de pé e gritando o nome da empresa. A brasileirinha se levantou, encheu o peito de ar e, embalada pela vitória, gritou pro corredor inteiro ouvir: Brasiiiil!!! Depois, cavou um buraco bem grande, se enfiou inteira lá dentro e ficou encolhidinha esperando a vergonha passar.
4.5.12
não adianta negar
Sem maiores explicações, terminou o namoro de mais de dez anos, que já era tido por noivado e, por alguns, até casamento. Foi um rebuliço geral, não se falava em outra coisa. Gerou revolta e admiração na mesma medida. Onde já se viu deixar um rapaz tão bom, ele não merecia isso. Quanta coragem, terminar um namoro já com essa idade não é pra qualquer uma, não! As especulações sobre o motivo do rompimento duraram meses. Arranjou outro, tá na cara. Flagrou ele com outra, isso sim. Pra mim, namoro longo, viraram amigos, só isso. Cada um tinha uma opinião, até aposta em dinheiro se fez. Palpitou-se bastante também sobre o comportamento da nova solteira. Vai cair na noite no dia seguinte. Vai nada, nunca foi disso. Nunca foi disso antes, quando tava com ele, espera pra ver agora. Quando saiu pela primeira vez, parecia até estrela de cinema, todos os olhares em cima dela. E quando apareceu, meses depois, de mãos dadas com outro, as fofocas dispararam de vez. É ele, é o outro, finalmente assumiu. Fui eu que apresentei os dois, não é coisa antiga, não. Que nada, olha a intimidade, isso já tem tempo. Foi assim passo a passo, moço a moço, por anos e anos. Até que o ex se casou. Passaram a olhar a moça com pena. Tadinha, é duro ver o noivo casar com outra. Pior que pra ela até agora nada, arrisca de morrer solteira. Ah, mas ele não podia ter feito isso com ela. Depois de tantos anos, tinha que ter casado. Não se deixa uma noiva assim, à beira do altar. Ela só faltou morrer de paixão. Passou meses sem sair da cama e volta e meia ainda chora por ele. E agora casou com outra, o safado. Deve estar com essa desde aquela época, sabia que ali tinha rabo de saia. A noiva se divertia com o burburinho. Tão com pena de mim por quê? Fui eu que terminei, quero mais é que seja feliz. Os votos sinceros não convenceram. O povo ficou foi alarmado. A notícia foi muito forte, coitada, a cabecinha não aguentou. Deu pra negar que foi abandonada, vê se pode. Tem que levar ao médico, vai que enlouquece de vez. Melhor deixar pra lá, é até bom ela se enganar. A noiva cansou da brincadeira e resolveu interferir. Ficaram doidos, é? Fui eu que terminei, esqueceram? De nada adiantou. Não precisa se envergonhar, querida, acontece com qualquer uma. Mas fui eu que quis! Não tem por que se enganar, todo mundo sabe que a abandonada foi você. E noiva lá encerra namoro depois de dez anos? Foi o noivo, tá na cara. Não adianta negar.
31.3.12
foi o gonzalez quem fez
Tem quem ache que roupa de grife é que é bom. Vovó, não. Quer dizer, não é que não, que pra Vovó certamente o Gonzalez é uma grife. Aliás, a melhor do mundo. Pra Vovó, não tem quem bata o Gonzalez. Nem Chanel, nem Dior, nem ninguém. Há quanto tempo o Gonzalez existe na vida da Vovó não se sabe. De onde veio, também é mistério. O paradeiro quase nunca é sabido. Entre idas e vindas da Europa, Gonzalez quase mata a Vovó de paixão. É, agora é definitivo, ela diz desconsolada. Vendeu tudo, voltou pra Pontevedra. Agora, só comprando em loja mesmo. Mas o Gonzalez, com saudade da praia, das moças, ou vai ver que da Vovó, sempre volta. Aí, é uma alegria. Vovó corre pra renovar o guarda-roupa. Não me entendam mal, Vovó não é perdulária. Tem o armário recheado de criações do Gonzalez, mas também só veste Gonzalez. Usa até hoje, e com frequência, vestidos de vinte, trinta anos atrás. Esse usei nas minhas bodas de prata, fala com orgulho. Esse foi o do casamento do seu pai. Ainda cabe, se gaba. A Vovó adora provar que mantém a silhueta. Mas o que dá realmente prazer à Vovó, o que ela não deixa nunca de dizer quando alguém elogia o figurino, porque pra ela vale até mais do que o elogio em si, é: foi o Gonzalez quem fez!
23.3.12
encomenda
Tia Esmeralda, casamenteira que só ela, entra no quarto toda assanhada: quem é esse que tá na sala? É o Vitor, Tia Esmeralda, meu fisioterapeuta. O Vitor? Mas como ele é alinhado, bem-apessoado! Anda, menina, não deixa ele lá esperando. Chego na sala e Tia Esmeralda, claro, já tá sondando o fisio. Quando me vê, dá uma piscadela e sai de mansinho. Passa a sessão atrás da porta, apontando pro Vitor e desenhando coraçõezinhos no ar. Mal espera ele ir embora e já volta à carga. Simpático ele, né? Simpático, bonitão e, principalmente, sem aliança! Muita sorte ter virado seu fisioterapeuta! Sabia que ele perdeu a irmã? Tia Esmeralda, você é impossível! Fez o Vitor te contar isso em dois minutos de conversa? Ele não me contou, não, eu vi na tv. Você viu o Vitor na tv, quando? Toda hora, ué, e não é só pra falar da irmã, não. Ele vive aparecendo naquelas lutas que você gosta de ver. Não, Tia Esmeralda, aquele é o Vitor Belfort! Eu sei, menina, eu sei o nome dele. Peraí, o Vitor não é o Vitor Belfort? Claro que não, Tia Esmeralda, de onde você tirou isso? Você me disse, esqueceu? Eu perguntei quem estava na sala e você respondeu que era o Vitor Belfort. Não, Tia Esmeralda, eu não disse que ele era o Vitor Belfort. Primeiro, porque o Belfort tá preocupado com o pé dele, não com o meu. Segundo, porque o meu fisio é a cara do Zé Aldo. A cara e o corpo, aliás. Peso pena, no máximo. Você não viu o Belfort na tv? Claro que vi. Acho essa luta um horror, mas não sou boba. Esse aí é a cara dele. A cara e o corpo, né, Tia Esmeralda? A cara e o corpo, eu reparei bem. Essa tá boa, Tia Esmeralda, a lenda viva do MMA cuidando dos meus pés... Aliás, essa tá ótima! Traz o Belfort, Tia Esmeralda, traz o Belfort!
21.3.12
dindinha
Ela fumava sem parar, cigarros Malboro. Sentava na frente da tv com os malboros e ia madrugada adentro, só dormia de manhã. Ela roncava muito, quando calhava de dormir com ela era um horror. Ela era brava e mandava na casa e na gente. Me obrigava a comer até o fim, querendo ou não. Ela era gorda e no dia em que caiu da escada quase matou todo mundo de susto porque ficou lá estirada sem conseguir se mexer. Eu nem tinha nascido, mas sei porque ninguém esqueceu. Eu também sei, de ouvir falar, que no dia do assalto o ladrão mandou ela deitar na banheira e depois foi um sufoco pra tirar ela de lá. Num dia de bagunça, ela me trancou no quarto dela e eu revirei tudo lá dentro. Ela quase morreu e nunca mais me trancou. Ela falava largatixa e eu morria de vontade de corrigir, mas não corrigia. Ela um dia chamou um fulano de manda-chuva e eu achei graça porque ela queria dizer o contrário, mas também não corrigi. Ela depois me chamou de saliente e eu fiquei pensando o que que ela queria dizer com aquilo. Ainda não descobri. Ela foi embora, mas vinha de visita às vezes e deu pra ver quando começou a perder a voz e os movimentos. Eu que passei a ir de visita e cada vez ela tava pior, mas com a doença, ou a idade, ou a saudade, ou tudo junto, foi perdendo a rabugice e ficando cada vez mais alegre e animada. Pra ela eu acendi, e acendo, as velas de todas as igrejas que visito. Só porque eu sei que ela gostaria. Sempre que alguém falava que ela não ia aguentar muito tempo, eu nem ligava porque tinha certeza de que ia, sim. Quando me disseram que a coisa era séria e ela já tava perdendo a consciência, eu fui minuto a minuto na estrada pedindo pra ela me esperar. E um dos momentos mais bonitos da minha vida vai ser sempre aquele em que ela me olhou e encheu os olhos d'água e eu vi que tinha conseguido. Deu pra dizer tudo que eu tinha guardado a viagem e a vida toda pra ela, tudo que eu queria que ela levasse com ela. Depois, eu parei de falar e a gente ficou muito tempo conversando só com os olhos e ela me disse coisas lindas que eu é que vou levar comigo. Eu não tenho mais tantas lembranças dela, mas eu sinto a presença, o jeito de andar, a textura da pele, a estridência que a voz dela às vezes tinha quando ela ainda tinha voz, essas coisas que ficam na gente. Ela ficou em mim.
4.2.12
na cadeira do pensamento
Eu chamei a Alice de chata bisonha e a tia me mandou pra Cadeira do Pensamento pra aprender a não falar as coisas sem pensar. Eu pensei bem e vi que ela tinha razão, eu não devia ter chamado a Alice de chata bisonha, eu nem sei o que bisonha quer dizer. Aí, no outro dia, quando a tia me perguntou se eu tinha pensado bem, eu falei que sim e que a Alice era chata só. A Alice começou a chorar e a tia me mandou de novo pra Cadeira do Pensamento e disse que era pra eu ter só pensamentos bons. Eu tive dois pensamentos muito bons, mas quando eu entrei na sala no dia seguinte e a tia quis saber, achei melhor só gastar um e falei que apostava meu lanche que se a gente fizesse uma votação de quem era a menina mais feia da sala ia ganhar a Gabi disparado. Todo mundo começou a votar e e a tia me mandou pra Cadeira do Pensamento outra vez. Nesse dia, os meus pensamentos foram horríveis, que eu tava muito nervoso com a prova de História e fiquei só repassando a matéria. Aí, quando eu cheguei de manhã e a tia me perguntou no que que eu tinha pensado, preferi usar o pensamento bom do outro dia e disse que a aula de Português andava insuportável. Tudo bem que foi uma risadaria, mas ela também não precisava ter ficado tão brava e deixado a turma toda de castigo na aula de Geografia. Só eu que fui pra Cadeira do Pensamento. Passei a tarde toda lá, aí lembrei de quando eu tive catapora e a minha mãe jogou aquele remédio na banheira que deixa a água rosa e tive o pensamento genial de jogar o remédio na piscina da escola também. Já pensou na hora do recreio, todo mundo descendo pro pátio e vendo a piscina toda colorida? Vai ser bisonho! Quando eu cheguei hoje e a tia quis saber no que que eu tinha pensado, achei melhor falar que fiquei pensando na matéria de Ciências, que esse ano tá muito legal. Tá chata pra caramba, sorte que ela acreditou e ainda ficou toda contente. Eu gosto da tia, não quero que ela perca a surpresa. Eu ainda não sei como é que eu vou levar tanto remédio escondido pra escola e jogar na piscina sem ninguém ver, mas acho que com mais uns dois dias na Cadeira do Pensamento eu resolvo tudo. Pena que hoje não teve.
2.11.11
risco de vida
O tripé dos sonhos de qualquer fotógrafo, levíssimo, dobrável e de excelente desempenho. A cronista sai de casa toda contente com a maravilha, mas, no que põe o pé na rua, descobre que ela é perfeita pra carregar na mão, mas na bolsa vira um trambolho. A cronista pára pra descarregar, encostada no capô do carro em frente. Mal começa a puxar o tripé, vê, pelo vidro quase preto, alguma coisa se movendo lá dentro. Forçando a vista, a cronista descobre um homem deitado no banco do motorista. A cronista morre de vergonha de ter sido flagrada usando o carro alheio como se fosse a mesa da sala e se aproxima pra se desculpar. Vê o homem rindo, tremendo, segurando o peito como se fosse infartar. O homem aponta desesperado pro tripé e a cronista se dá conta de que o objeto inofensivo, em sua capinha preta e dura, mais parece uma metralhadora, um fuzil ou outra arma qualquer. A cronista percebe que o homem, acordado no susto, se viu vítima de um assaltante, um sequestrador ou um simples bandido entediado que, na falta de coisa melhor, se preparava pra brincar de tiro ao alvo. Ao ver a cronista, moça formosa e delicada, saibam, leitores, relaxou, mas o ataque de nervos foi inevitável. A cronista começa a rir e gesticular em sinal de desculpas e é quando se dá conta do perigo. É a vez de a cronista tremer e segurar o peito, quase morrendo do coração. E se o bandido fosse ele? A cronista correu sério risco de vida! Mas tudo acabou bem. Nenhum dos dois estava armado, nenhum dos dois era bandido. Tiveram sorte. Numa cidade como esta, podiam ter levado um tiro.
23.6.11
vovó e a cerveja
Lidando com uma penca de enfermeiras que se revezam num ritmo infernal, Vovó, que já gosta de trocar os nomes dos filhos com os dos netos, aprendeu a se defender. Sentindo a chegada da moça do dia, vira-se de costas e pergunta quem vem lá. Sou eu, Doutora, a Fulana. Aí é só associar o nome a alguma coisa bem fácil de lembrar e não se preocupar mais com o assunto. Tem a de nome igual ao da presidente (Vovó não diz presidenta nem sob tortura). Tem a mulher do Príncipe Charles (Vovó ainda se lembra do Príncipe Charles...). Tem até a namorada do Roberto Carlos (Vovó jura que o Rei e a Ternurinha quase casaram). Só Vanessa que não teve jeito. Vanessa é Vanessa, Vovó passa a noite repetindo pra não errar. Vanessa quieta na copa e Vovó na sala, baixinho: Vanessa, Vanessa. Na hora de chamar é só aumentar a voz: Vaneeessa! Vem a novela, Vovó: Vanessa, Vanessa, vem o comercial, Vovó: Vanessa, Vanessa, vem a Sandy, bem loura, bem desinibida, bem gostosa, Vovó: Devaaassa! E vem a enfermeira, morena acanhada, um poço de inibição. Vovó na hora cai em si. Ai, minha filha, desculpe, foi essa cerveja indecente! Você não é nada disso, bem se vê que é moça direita. E a devassa Vanessa: Não tem problema, não, Doutora. Faz um mês que a senhora me chama assim. Já me acostumei.
1.4.11
não pode ter nada melhor
Quem já fez spinning sabe como é. Posição um, posição dois, senta, levanta, subindo ladeira, mais rápido, mais rápido. E vc vai entrando num delírio, vc não é uma aluna numa academia, vc tá no meio da selva, lá vem a onça, mais rápido, vc tá no mar, olha o tubarão, mais rápido, vc tá cansada, mas é vida ou morte, mais rápido, mais rápido. Tem hora que vc se sente a tal, pedala feita louca, deixa a bicharada toda pra trás. Aí o cansaço vai apertando, vc não vê mais bicho nenhum, vc tá no fundo do poço. Nisso, o pedal escorrega e vc percebe que não, vc não tava no fundo do poço. No fundo do poço vc tá agora, espatifada no meio da sala, todo mundo em volta segurando o riso. Aí é um corre-corre danado, o professor em estado de choque, o pé violentamente torcido, a vergonha, a vergonha, a vergonha. E vc tenta se convencer de que não foi nada, quem sabe ninguém nem viu, mas por dentro urra, de ódio e de dor. E no meio daquela coisa toda, de repente vem a luz, e não tem mais vergonha, nem ódio, nem nada. Pé imobilizado, quinze dias sem malhação, não pode ter nada melhor.
2.3.11
vovó e o fim do mundo
Não saia daí, minha filha. Jogaram um avião, as torres caíram, é a Terceira Guerra Mundial! Mas foi lá nos Estados Unidos, Vovó, tá tudo tranquilo por aqui. Tranquilo, como? Os Estados Unidos podem destruir o mundo vinte e três vezes! Vinte e três vezes, nunca entendi, basta uma, basta uma! Não vão explodir, não, Vovó, os russos não deixam. Não deixam? Os russos é que estão por trás de tudo! Querem explodir os Estados Unidos vinte e três vezes também! Já começaram com as torres, agora vai ser bomba pra todo lado. Não saia, minha filha, não saia, com russo ninguém pode! Ué, Vovó, mas não foi coisa do Afeganistão? Quem disse, aquela mocinha da televisão? Sempre achei esquisita, tá do lado dos russos, tá na cara. Muda de canal, rápido, vai que já inventaram míssil pela tevê. Cadê seus pais? Liga pra eles, liga pros seus irmãos. Diz que é pra não sair de casa. Mas, Vovó, se o mundo explodir, a casa vai junto, né? Não me contrarie, minha filha, não me contrarie. Manda todo mundo voltar pra casa já. Agora vou desligar, tenho que ir. Pra onde, Vovó? Pra rua, ora. Vou pichar parede, jogar no bicho, quem sabe me tatuar. O mundo vai acabar, tenho que aproveitar. Não saia daí, ouviu bem, não saia daí.
17.2.11
o japa dos meus sonhos
É famosa a queda da cronista por japoneses, chineses, coreanos, tailandeses, japas de todos os gêneros, olhinhos puxados de modo geral. Japa é japa, e a cronista há de ter um pra chamar de seu. A busca não é fácil, mas a cronista não desiste. Cansada de procurar por estas bandas, vem planejando uma investida in loco. Começou a estudar japonês, faz aulas de origami, taekwondo e shiatsu. Em casa, só anda com uns tamanquinhos de madeira, já se vendo nas ruas de Tóquio toda vestida de gueixa. Dá voltas e voltas na Lagoa, pra tirar de letra a Grande Muralha. Cuida de um bonsai, coitado, e toma chá todos os dias, mesmo odiando, pra não fazer feio na hora do ritual. A cronista está disposta a tudo e todos. Tem intenções tão sérias que considera até um lutador de sumô. Mas fique claro que não serve qualquer japa. A cronista sabe que só um é o dela. Às vezes, cansa da espera, xinga o destino, mas não desanima. Examina em detalhes todo japa que encontra, não perde o clima de agora vai. E nisso a cronista entra num boteco e pede uma coca. Tlês reais. O coração da cronista bate fraco, arrisca parar. O japa dos meus sonhos existe. Não é um samurai, nem veio montado num dragão chinês. Trabalha no pé-muito-sujo ali do lado e nunca vai me levar pra Xangai. Mas finalmente chegou.
19.7.10
não ponham o zico na minha frente
Muito pequena, o primo dizendo que bom mesmo era o Flamengo e eu dizendo da boca pra fora que bom era o Botafogo do meu pai. Aí o primo me levando pra ver um jogo e pra ver que não tem nada maior do que o futebol, o Flamengo e o Zico. Eu entendo os mais novos, mas os da minha idade, os que viram o Zico jogar, torcendo pra outro time, nunca entendi. Sem provocação, nunca entendi. Muito pequena, o Brasil perdendo o jogo e a tia gritando Ziiiiico, sei lá se o Zico tinha ido ou não, mas a tia gritava. Ainda muito pequena, o juiz dizendo que tinha dado só mais um minuto pro Zico fazer o gol e não é que ele fez mesmo? Muito pequena e depois mais crescida, a certeza de que no último instante o Zico ia salvar a pátria. E salvava. E trazia aquela alegria que só o futebol, só quem ama o Pelé, o Romário e o Ronaldo sabe o que é, e quem ama o Zico sabe muito mais. O Zico avançando pelo meio do campo e toda vez, e até hoje, eu pensando que é assim que se faz. Aquela bicicleta que eu nem sei em que jogo foi, nem se foi, mas eu me lembro dela e foi tão linda. O Zico pulando pra comemorar o gol. O Zico indo jogar fora e fazendo aquele gol esquisito que ele diz que é o mais bonito, sem saber que todos são. O prazer de ir ao Maracanã e ver a bola, o batuque e as bandeiras com o rosto do Zico. Ainda hoje. E quando o time vai mal tem sempre alguém que grite Ziiiiico. E sempre tem também quem diga que o Zico na Copa não foi nada, que o Zico só foi o Zico no Flamengo. E me dá uma baita vontade de rir desse só. Agora, o Zico está de volta e há perigo à vista. O Zico ronda a Lagoa, arrisca da gente se esbarrar. Não quero, nem pensar. Não ponham o Zico na minha frente. Detesto me descontrolar.
11.11.09
mais uma da vovó
Vovó exibe orgulhosa o quadro grande e antiquado, perguntando se não é um bom presente de batizado para os gêmeos. A inadequação é tamanha que não ouso dizer nem que sim, nem não. Vovó, talvez desconfiada do meu silêncio, explica que aquela é a igreja em que eles vão ser batizados. Ah, claro, respiro, ótimo presente. Vovó triunfa. Vovó, registre-se, adora triunfar. Vira-se para a tela e suspira: ai, tomara que essa árvore ainda esteja lá. Olho de novo o quadro: nada além de terra batida e uma igrejinha absolutamente rústica, com um grande flamboyant florido na fente. Tento me conter, mas não consigo. Vovó, se essa é a Igreja de São Conrado, ela teve que ser posta no chão e levantada de novo. Mas Vovó, que, como disse, adora triunfar, insiste: é ela, sim, filhinha, tenho esse quadro há muitos anos. Tá escrito aqui atrás, pode ler. Leio: Igreja da Penha, Itaparica, Bahia. Ou seja, muito provavelmente, Vovó tem é o quadro da igrejinha em que o grande João Ubaldo foi batizado. Pois não deixa de ser um excelente presente, pelo menos pra ele, Vovó diz. Vovó nunca se rende.
24.10.09
da imensa ternura que eu sinto por ele
O B era quem guiava a charrete. O B ia cantando, e as músicas que ele cantava até hoje eu sei de cor. O B ainda tem a mesma cara, mesmo com as rugas e a barba meio branca. Não é com frequência que a gente se vê, mas quando acontece é sempre igual. O B traz a charrete e a gente sai sacolejando pelos caminhos mais esburacados, por ladeiras tão íngremes que olhando lá de cima parece até que vai todo mundo capotar. E eu sinto o fascínio de sempre, e penso como é que pode, que só o B mesmo, que ele é o tal. E engulo o medo e finjo que tá tudo bem, que não tem susto nenhum. Mas o B vai guiando seguro, e vai falando, contando da vida, feito amigo assim de todo dia. E eu não vou dizer que é como se fosse, que aí também já é dar muita bola pro B. Mas eu digo, e eu sempre sinto, que o que me faz falta mesmo daquele lugar, além da charrete, e da festa junina, e do lustre do quarto da vovó, e de tirar lama da sola da galocha com palitinho, e de brincar de caçada à noite, e de acampar no jardim, e de nadar na lagoa, e de dormir todo mundo junto no quarto grande, o que me faz falta mesmo daquele lugar é o B. E, entre as alegrias de voltar lá, além de saber que a viagem enorme tá terminando, e de virar na placa, e de passar pelo bambuzal, e de entrar em casa e ver tudo do mesmo jeito, entre essas alegrias todas, está saber que logo, logo o B vai aparecer. E ele vem sempre sorrindo - não tem barba, nem ruga, nem coisa nenhuma que mude o sorriso do B - e me cumprimenta e vai buscar a charrete. O B, que bom, é sempre igual. Pena só que ele não canta mais.
16.11.08
poxa, woody
De todos os rapazes do baile, o que mais encanta a moça já não é mais rapaz. É um senhor velhinho, que pelos óculos enormes, o formato do rosto, a altura e um jeito meio desengonçado de andar, ganhou logo de um dos amigos dela o apelido de Woody Allen. Woody foi o primeiro, no primeiro dia, a tirar a moça pra dançar. Zanzou de um lado pro outro, aproximou-se da mesa, abriu um sorrisinho tímido, esticou a mão em convite e puxou a moça pra pista. No fim da dança, levou-a de volta pra mesa, à moda antiga. Disse um muito obrigado tão sentido, franzindo um pouco os olhinhos por trás dos óculos, que conquistou a moça de vez. Toda semana, ela já chega no baile procurando por Woody. Observa como ele abre a pista, sempre com parceiras diferentes. Sempre uma parceira por dança, sempre levadas de volta a suas mesas, sempre os olhinhos franzidos. Como dança bem o Woody! Como é elegante, até quando alguma moça, que não entende nada da etiqueta do salão, recusa a dança. Nessas horas, a moça se aproxima como quem não quer nada, fica bem à vista e faz cara de surpresa quando ele a tira pra dançar. Outras vezes, flerta com ele. Sabe que Woody não vem assim de primeira. Passa pra lá, lança um olhar, passa pra cá, ameaça um sorriso. Até que se aproxima, fingindo insegurança, como se não soubesse que a moça vai aceitar. Dançam dois sambas por baile, Woody sempre mais assanhado no segundo do que no primeiro, colando bem o corpo no corpo da moça, batendo de leve no próprio rosto com a mão dela. A moça ri. A moça deixa. A moça gosta de pensar que é só com ela, que é graças a ela que Woody, já tão velhinho, volta a ser um rapaz. A moça também dança com rapazes de verdade, claro, e volta e meia é ela quem cola o corpo no deles, mas com nenhum a moça é tão gentil, e nenhum tem por ela a gratidão que Woody tem. São cúmplices. E quando a moça teve que passar seis meses longe do país, pensou em Woody todo sábado à noite. Quando voltou, correu pro salão. Woody não estava. Era cedo ainda, Woody podia chegar, mas o fato de não estar lá pra abrir o baile deixou a moça apavorada. Woody já não era garoto e aquilo não podia ser bom sinal. A moça ficou sentada, esperando por ele, até Woody aparecer. A alegria foi tamanha que a moça chegou a se levantar pra abraçá-lo, mas lembrou que não, que o jogo não era aquele, que o certo era esperar Woody vir. E Woody logo começou a lançar seus olhares e sorrisos. A moça correspondia sem excessos, que cavalheiro não gosta de dama atirada, mas mal podia esperar a hora da dança. Woody andava de um lado pro outro, fazia charme, torturava a moça. Afinal, parou na frente dela, arregalou os olhos, como se tivesse acabado de vê-la, e veio ao seu encontro, sorridente, já com a mão estendida. Aí, se virou e seguiu pro outro lado. O que aconteceu, a moça não sabe e nem vai saber, que se tem uma coisa que dama não faz é correr atrás de cavalheiro. O que se sabe é que a moça jurou que nunca mais dança com ele, nem se estiver abandonado no meio do salão. Pode ser que sim, pode ser que não. Pode ser que da próxima vez Woody aperte tanto os olhinhos pra convidar a moça que ela esqueça a mágoa e os dois voltem a dançar. A moça, feliz, pensando que dançar assim, Woody só dança com ela. Woody, feliz também, dando pancadinhas no próprio rosto com a mão da moça e pensando em nada, que hora de samba não é hora de se pensar. Pode ser, pode até ser. Mas o fato é que ontem, Woody, vc quebrou nosso trato.
27.10.08
deus é brasileiro
A ex-governadora e prefeita eleita de Campos, Rosinha Garotinho, declarou: "Fui a primeira governadora, sou a primeira prefeita e, quem sabe, serei a primeira mulher presidente do Brasil." Impossível, cara senhora. Deus é brasileiro, não nos faltará.
21.9.08
contos canadenses - pollo sin papas
Pollo sin papas, por favor. Sorry? Pollo! Sin papas, santo Dios! Sorry? Resolvo inteferir. McDonald`s canadense, cliente espanhola e atendente coreano, não tem como dar certo. McChicken, please. Fries? No, thank you. Gracias, my hija, gracias. Cafe tambien. Claro, coffee, please! Sugar? Azúcar, señora? No, leche, solo leche! Milk, please. Ah, mas como es hermosa! Gracias, muchas gracias! Que es eso, jo que agradieço! A operação se repete com as oito senhoras. Não mencionei? São oito. Todas maquiadíssimas, alinhadas, me olhando como se eu fosse um anjo caído do céu, o que, pensando bem, é exatamente o que eu sou. Já elas o que são e o que estão fazendo sozinhas num McDonald`s a essa hora da noite, sem falar uma palavra de inglês, só Dios sabe. Muitos "hermosas" depois, pego meu lanche e vou saindo quando começa uma confusão. Olho pra trás a tempo de ver uma das senhoras se debruçar sobre o balcão, agarrar o coreano pelo colarinho e gritar, furiosa: pollo, pollo! Mas é uma incompetência mesmo! Faço o pedido em inglês de primeira categoria e nem assim o coreano acerta! O problema não é meu, mas não resisto e volto em defesa das senhoras. Vale a pena. As oitos não contêm a alegria ao me ver. Ah, hermosa, graças a dios! A mais exaltada larga o coreano e vem buscar meu socorro: Jo quiero pollo, pollo! Claro, señora, pollo, claro. Como é que eu peço um McChicken e esse sujeito me traz um... McChicken! Mas então maluca é a mulher! Pede frango, o coitado traz frango e ela quer mais o quê? O raio me atinge certeiro: McNuggets! Nem coreano, nem espanhola, a culpada foi a hermosa brasileira mesmo. Que, não satisfeita, deixou o circo armado e foi comer seu sanduíche bem longhe dali.
contos canadenses - noite de sábado na tv
Aos que sofrem no Brasil, tenho a dizer que noite de sábado na tv canadense é um tédio só. Certas coisas são iguais no mundo inteiro, leitores, não adianta.
31.8.08
contos canadenses - só no cinema
Stanley Park, o maior de Vancouver. Onipresente, quase um Cristo Redentor. Tive uma idéia, a irmã diz, vamos comer num restaurante aqui perto. Onde? Aqui no parque mesmo, é logo ali. Não, não é logo ali. É lá, do outro lado do parque. Mas isso a outra irmã e a amiga só descobriram duas horas depois, quando finalmente chegaram ao tal restaurante, que por sinal estava fechado. O mapinha era claro: you are here, o ponto de partida está lá, do outro lado do parque. Uma linha reta perfeita, cruzando o parque de alto a baixo. Estamos falando de alguns quilômetros, senhoras e senhores, não é drama, não. Não quilômetros desejados ou planejados. Quilômetros que só se revelaram quilômetros quando já estávamos lá pelo meio da trilha, no meio do nada, sem saber se era melhor seguir ou voltar. Seguimos, porque afinal era "logo ali". Bom, restaurante fechado, vamos tomar um táxi, que ninguém é louco de voltar andando pelo meio da mata àquela hora, quase noite. Na falta de táxi, ok, um ônibus. Na falta de ônibus, brinca a amiga, carona. Rimos e tomamos a estrada, que carona é coisa de filme, pelo amor de Deus. De filme e de maluco. E tome estrada, e tome estrada... e cai a noite. Chapeuzinho Vermelho vai na frente, rindo, despreocupada, sem medo de lobo mau, urso ou caçador. A irmã prudente e a amiga vão atrás, imaginando que em menos de uma hora o breu vai ser total e elas não vão estar nem na metade do caminho. Poderiam ter cortado uma hora voltando pela trilha, mas entrar no coração da mata àquela altura, nem pensar. A estrada, a rigor, não era muito diferente da trilha: sem luz, mato fechado pros dois lados, ninguém por perto. Mas pelo menos era estrada. No caso de um ataque de urso, havia alguma chance de que um carro parasse pra ajudar. Ah, melhor nem pensar agora que na semana passada duas pessoas foram atacadas por ursos na mesma área. Uma morreu e a outra, num estado que nem te conto, ainda pena no hospital. Não, melhor matar o tempo calculando quantas horas ainda faltam para o destino final. Ou pra qualquer destino, desde que fora do matagal. Duas ou três horas, é a conclusão a que chega Chapeuzinho. Transcrevo a equação: meio parque é igual a dez horas divididas por dois, cinco, o lado de cá é menor, então quatro, menos uma e pouco que já andamos, duas ou três. Em duas ou três horas, não vai ser noite, vai ser madrugada. Há momentos na vida em que uma mulher adulta tem que encarar os fatos e fazer o que é preciso. Ao sentir nas costas o farol de um carro, me viro, estico o dedão e... peço carona. Sim, eu fiz, eu pedi carona. Sim, eu nem olhei pra cara do motorista. Meu amigo, se fosse o bandido brasileiro, naquele momento, podia me levar. O carro desacelera, claro, encosta, ufa, e... segue em frente. Agora vamos entender a situação: à esquerda no rink, um garotão, à direita, três mocinhas, ouso dizer, elegantes. O garotão pára, olha e vai embora... Azar de principiante, ora. Não é por isso que eu vou desistir. Palavra de veterana: pedir a primeira carona é difícil, a segunda é difícil. Na décima, vc já nem sente. É só aparecer um carro e o dedão já vai se esticando sozinho, todo assanhado, sem nem esperar comando. Décima? Vigésima, trigésima! Ninguém parou, ninguém. Ninguém encostou o carro pra dizer e aí, tão perdidas, precisam de ajuda? Nada. Não há por que manter a pose quando já se está mesmo no fundo do poço. Por isso, confesso. Tive, sim, a ilusão de que fosse ser fácil. Pensei, sim, que os carros fossem fazer fila. Tive medo até de causar um acidente, caso dois carros resolvessem parar ao mesmo tempo, brigando pela chance de me oferecer uma carona. Só nos cinemas, leitores, só no cinema. Na vida real, das duas,uma: ou tem alguma coisa errada comigo ou com esses canadenses. Fica a dúvida.
10.7.08
a minha vòzinha
A minha vòzinha escreve vòzinha com crase pra ninguém achar que ela é uma voz pequena. A minha vòzinha é pequena. A minha vòzinha pinta o cabelo cada hora de uma cor. A minha vòzinha vivia na minha casa quando eu era pequena. A minha vòzinha não vive mais. A minha vòzinha morava longe. A minha vòzinha agora mora perto. A minha vòzinha quer que eu vá pra casa dela. A minha vòzinha não sabe que a minha casa é a casa dela. A minha vòzinha só fala de política. A minha vòzinha não me deixa dormir na sala. A minha vòzinha tem email. A minha vòzinha fica até tarde me esperando no msn. A minha vòzinha me fez gostar de pintura, leitura e mitologia grega. A minha vòzinha foi à Índia comigo. A minha vòzinha não gostou de Pompéia. A minha vòzinha come mais devagar do que eu. A minha vòzinha só usa homeopatia. A minha vòzinha está coberta de razão. A minha vòzinha me ensinou tudo, tudo. A minha vòzinha me levava à aula de patinação. A minha vòzinha me acha linda. A minha vòzinha não sabe de nada. A minha vòzinha é teimosa. A minha vòzinha gosta de me cheirar. A minha vòzinha só fala de política. A minha vòzinha acredita em ET. Acredita, não, sabe. A minha vòzinha sabe de ET e reencarnação. A minha vòzinha não ouve música. A minha vòzinha me chama de radiosa. A minha vòzinha acha que eu implico com ela. A minha vòzinha é que implica comigo. A minha vòzinha só fala de política. Tudo que eu sou vem da minha vòzinha. A minha vòzinha só fala de política. A minha vòzinha é meu coração. A minha vòzinha tem quatro netos. Serei eu a preferida?
1.6.08
contos canadenese - a boite
Era uma vez uma lenda de que brasileiros sao descarados, ousados e beijam na boca de quem nao conhecem. A ultima parte 'e verdade, vamos reconhecer, mas quanto a descaramento e ousadia, senhoras e senhoras, esquecam o Brasil. O que se ve nas boites canadenses encabula qualquer brasileiro. Canadenes dancam coladinhos, mas coladinhos, coladinhos mesmo, um de frente pras costas do outro. E mais. Canadenses dancam coladinhos nas costas de quem nao conhecem. Funciona assim: o menino chega perto da menina, nem diz o nome, da uma dancadinha colada de frente e ja parte pras costas, e 'e normal. E 'e a boite inteira nisso. E vc fica la olhando e pensando quem foi que inventou que brasileira 'e mulher facil. E nao to falando de baile funk, nao, que a brasileirinha nao 'e disso. 'E boite s'eria, daquelas que nao aceitam homem de tenis, bone ou regata. 'E coisa fina mesmo. E 'e tudo num clima respeitoso. O canadense vem todo educado te convidar pra dancar, so nao tira o chapeu porque a boite nao permite o uso. 'E verdade que se vc disser nao, ja era, que aqui ninguem tem tempo a perder com conversa. Nao quer dancar, ok, nao quero nem saber seu nome. Jogo rapidissimo. Agora, o interessante da coisa 'e que canadenses sao tambem muito recatados. Beijo na boca, nem pensar. O negocio deles 'e so dancar. Tambem, ne? A brasileirinha, que nao esta acostumada com essas intimidades, preferiu se esconder no cantinho da boite. Tava la sentada, observando a cena, no que veio o mexicano. Mexicanos nao sao canadenes. Sintam a diferenca. Oi, vc fala espanhol? O mexicano queria conversar, viram so? A brasileirinha nao queria. Nao, nao falo. Vc fala ingles? Bom, alguma coisa a brasileirinha tem que falar, ne? What`s your name? My name is Mariana. Ta vendo? 'E um nome espanhol! Ai, que vontade de matar esse mexicano! A brasileirinha nao respondeu. O mexicano nao falou mais nada. Tic tac, tic tac, a brasileirinha olhando firme pra frente, o mexicano sabe-se la, ate que ele manda um nice to meet you, Mariana, levanta e vai embora. Ah, sem duvida, deve ter sido muito legal conhecer a brasileirinha. Seguem-se algumas abordagens canadeneses, quer dancar, nao, nao quero, ok, tchau, ate que vem o turco, arabe, o que sera? O o-que-sera senta-se ao lado da brasileirinha. Ele vai me chamar pra dancar, ele vai me chamar pra dancar... Silencio, tensao, o tempo passa e nada acontece. Aqui cabe a pergunta, e vale pra brasileiros tambem: se todo mundo sabe o que o menino vai fazer, por que ele nao faz logo, santo Deus? Passados eternos cinco minutos, o o-que-sera lanca a pergunta, acompanhada de um murro na perna da brasileirinha. O tipo da coisa feita pra dar certo, um pow na sua perna e um convite pra dancar... A brasileirinha nao mencionou que luta taekwondo, ne? Pois luta. E nunca na vida teve que segurar tanto o impulso de devolver a gentileza. Mas so sorriu e agradeceu, pensando nao, infeliz nao quero dancar com vc de jeito nenhum. Veio mais um canadenese e a brasileirinha, com medo de levar outra pancada, e a'i sim perder a cabeca, achou melhor aceitar. Levantou e partiu pra pista com o canadense, que comecou a fazer passinhos! Sim, passinhos! Daqueles anos setenta, com rodopios, braco de um cruzado com o braco do outro, coisas que a brasileirinha nao via desde os tempos de John Travolta. A brasileirinha ja mencionou que 'e uma pessima dancarina? Pois e. Nao podia dar certo, claro, e a brasileirinha foi largada sozinha no meio da pista! Sintam a humilhacao. O canadense faz papel de palhacao e a brasileirinha 'e que 'e abandonada na pista! Depois dessa, a brasileirinha resolveu desistir. Nao da, nao, ladies and gentlemen. Boite de novo, so no Brasil.
14.5.08
contos canadenses - o tempo
A brasileirinha nao escolheu Vancouver por acaso. Escolheu pelo bom tempo. Das grandes cidades canadenses, Vancouver 'e a mais quente. Ou a que menos esfria. 'E tambem a mais chuvosa, mas so no outono e inverno. A brasileirinha, esperta, deixou pra viajar na primavera. Logo que chegou, constatou que o sol em Vancouver bate forte e esquenta pra valer. A alegria nao durou uma semana. Dos vinte graus da chegada, a temperatura foi a zero. Zero, redondinho. Choveu granizo. Nevou. A brasileirinha passou a checar a previsao do tempo toda noite antes de dormir. A brasileirinha passou a confirmar a previsao da noite anterior todo dia antes de sair. A brasileirinha se pega as vezes cantarolando a musiquinha do Canal do Tempo. A brasileirinha vive pro tempo. Comemora quinze graus como se fosse gol do Flamengo. Sabe de cabe'ca a temperatura da semana inteira, maxima e minima. A brasileirinha ontem viu que a temperatura na sexta vai chegar a vinte e oito graus. E que no sabado vamos a trinta. A brasileirinha esta apavorada. Mas nao era isso que ela queria? Queria e continua querendo. O que preocupa a brasileirinha 'e que, acompanhando a promessa de felicidade, nao aparece um sol, uma nuvem ou uma chuvinha, mas uma imensa bola preta. E o que significa uma bola preta na previsao do tempo? Se nao 'e sol, se nao 'e chuva, se o termometro vai a trinta de uma hora pra outra, so pode ser o apocalipse. A brasileirinha faz bem em se preocupar.
7.4.08
a vingança do grafiteiro
O grafiteiro passa pelo viaduto todos os dias pra apreciar sua obra: uma cabeça gigantesca e sorridente equilibrada num minúsculo corpinho. Deu trabalho, mas ficou linda e faz o maior sucesso. O grafiteiro gasta horas ali por perto, observando a reação de quem passa. Não há quem não pare pra olhar. O grafiteiro gosta de subir a rua devagar, vendo a cabeça crescer enquanto ele se aproxima. Um dia, lá de longe, o grafiteiro viu uma mancha branca cobrindo o grafite quase inteiro. Correu pra perto e viu que não era impressão. Tinham passado tinta na metade da cabeça. Nada contra grafite, ou teriam, no mínimo, pintado tudo. Era propaganda mesmo. As enormes letras vermelhas anunciavam: Mãe Amanda, trago a pessoa amada em três dias, telefone 25791825, (o número é esse mesmo, o grafiteiro anotou com cuidado). Mãe Amanda não teve piedade. Podia ter usado o paredão em branco logo ao lado, se é que parede lá é feita pra avisar o mundo do seu domínio sobre pessoas amadas, mas achou que o anúncio no meio do grafite chamava mais a atenção e tascou foi tinta por cima da cabeça. A combinação, de fato, atrai qualquer olhar. Quem passa por lá fica sabendo que Mãe Amanda traz a pessoa amada de volta, e em três dias. Pois quero ver trazer, gritou o grafiteiro, jurando vingança. No mesmo dia, marcou consulta. Cheia dos balangandãs, por vaidade ou pra compor a personagem, Mãe Amanda era uma coroa até bonita. Enquanto trazia de volta a pessoa amada dos outros, procurava uma pra si mesma. O grafiteiro abriu o coração pra Mãe Amanda. Contou que seu defeito era ser muito bom, amar demais. Que sabia que a amada não merecia um moço feito ele, médico, bem-sucedido, cheio de pretendentes. Que o melhor seria desistir, mas que não foi feito pra viver só, procurava uma alma gêmea. Se não fosse a amada, quem seria? Não queria viver procurando. Queria assentar, formar família, não podia nem esperar três dias, tinha que ser pra já. Bom, mas se é só por casar, não precisa ser essa, disse lá pelas tantas Mãe Amanda. Precisar, não precisa, respondeu o grafiteiro, mas moça especial a gente não encontra a qualquer hora. A senhora, por exemplo, aposto que é casada. Pois não sou, assanhou-se Mãe Amanda. E emendou: estou vendo que vc está muito angustiado. Se quiser, podemos sair depois pra conversar sobre esse assunto. Vou te mostrar que até posso trazer essa mulher de volta, mas ela não foi feita pra vc. Às oito, o grafiteiro chegou, com um buquê de rosas e uma caixa de bombons. Abriu a porta do carro, pagou a conta, não tentou intimidade, um cavalheiro. Passou uma semana assim, saindo com Mãe Amanda todos os dias. Mãe Amanda ria à toa. Um moço daqueles, bonito, jovem, respeitador, rico... Agora é que me caso e largo essa vida de procurar a pessoa amada dos outros. De fato, no décimo dia, o grafiteiro pediu a mão de Mãe Amanda. Avisou que queria tudo rápido, que ela fosse providenciando bolo, vestido, enxoval, que o anel já estava vindo da Europa. Mãe Amanda era só alegria. Até dispensou os dois molequinhos que emporcalhavam a cidade pintando o telefone dela pra todo lado. Agora vou ser madame, explicou, chega de propaganda. Com pena dos meninos, quase mandou pintar, como último trabalho: Clientes queridos, adeus, Mãe Amanda vai casar. Voltou atrás porque o noivo, muito discreto, podia não gostar. Mas avisou a quem pode e torrou as economias comprando as camisolas da lua-de-mel. E quando parecia que Mãe Amanda ia ter seu final feliz, o grafiteiro sumiu. Mãe Amanda, acostumada a ter o noivo sempre na porta de casa, se deu conta de que dele não sabia endereço, telefone ou qualquer outra coisa. Apelou pras cartas, fez todo tipo de feitiço, mas a pessoa amada não voltou nem em três, nem em dez, nem em mil dias. Quem teve o final feliz foi o grafiteiro, que, vingado, continua passando pelo viaduto diariamente e, no que olha a cabeça rabiscada, repete: traz a pessoa amada de volta agora, Mãe Amanda, traz. E a história acaba assim, com o grafiteiro rindo de lá, Mãe Amanda chorando de cá e o respeitável público aplaudindo de pé, que ela bem que merece.
5.2.08
boatos, leitores, boatos
Andam dizendo que a cronista foi pular Carnaval na Sapucaí. Boatos, leitores, boatos. Imagina se a cronista ia sair por aí com um saiote que não fechava atrás, ombreira de palha enorme, pescoceira de plumas, lança de mais de dois metros na mão e chapéu de porco ou javali, vai saber. Dá pra acreditar na cronista pegando o metrô toda fantasiada em plena madrugada e andando não sei quanto tempo até chegar à concentração? Francamente, alguém acredita que a cronista ficou uma hora e meia em pé, sem água, sem comida, debaixo da maior chuva, esperando a vez de entrar na avenida? E que se não fosse uma sede insistente nem teria se importado? Dizem que a sede era tanta que a cronista até bebeu água de chuva, mas alguém acredita? Alguém imagina a cronista pulando feito louca na avenida, com o samba no pé e na ponta da língua? Dá pra crer que a cronista nem ligou pras câmeras de tevê e se plantou bem na frente da ala, rebolando pra todo lado e mandando beijos pra arquibancada? E que no final do desfile se disse pronta pra começar tudo de novo, e se não segurassem quase que ia mesmo. Dizem que a essa altura o calor era tanto que a cronista foi jogando lança pra um lado, cabeça de porco pro outro, que ia voltar pra casa sem nada quando se encantou com uma saia de baiana em formato de cavalo, com cabeça e tudo, abandonada por outra foliã. Pois há quem jure que a cronista vestiu o bicho e saiu cavalgando pela dipersão. E que só abandonou o cavalinho porque era grande demais pra entrar no bagageiro do táxi. Bom, pelo menos contam que a cronista voltou de táxi. Andar da Sapucaí até a Presidente Vargas depois de uma maratona daquelas seria mesmo mentira demais. Mas quem inventou a coisa toda garante que a cronista estava inteira e que ano que vem tá lá de novo. Quem quiser pode ir conferir, mas é besteira. Dizem coisas incríveis por aí, amigos leitores, não se deixem enganar. A cronista na Sapucaí? Nem em sonhos, queridos, nem em sonhos.
12.1.08
e viva a incompetência do bandido brasileiro
Não vou celebrar a competência da polícia brasileira. Desculpem, mas tenho minhas dúvidas. Tudo bem que a polícia fez a parte dela e trouxe de volta os quadros levados do Masp, mas, se não fosse a incompetência do bandido brasileiro, não sei, não. A incompetência do bandido brasileiro me mata de vergonha. Onde é que já se viu, quando todo mundo achava que os quadros já estavam longe há muito tempo, eles aparecerem escondidos num subúrbio ali do lado? Haja incompetência! Mas, tendo servido pra recuperar os agora mais importantes quadros do acervo nacional, um viva pra incompetência do bandido brasileiro! O bandido brasileiro pediu um milhão pra roubar os quadros. Obviamente, não sabia o que estava roubando ou teria pedido pelo menos cinco. Pra tudo tem remédio, pensou o bandido brasileiro, que lê jornal - mais um viva pra ele! - e, quando descobriu que os quadros valiam cem milhões, resolveu que por um não entregava, não, queria os tais cinco. Pra quê cinco, bandido brasileiro? Unzinho já garantia a aposentadoria... Mas tudo teria dado certo se o destino não tivesse colocado no caminho do bandido brasileiro outro incompetente: o mandante. O mandante também me mata de vergonha, mas tome lá um viva por conta da volta dos quadros. O mandante ia ganhar não cem milhões em dinheiro, mas um Picasso e um Portinari pra pendurar na sala de estar de seu castelo na Escócia e se fartar de admirar. Que são cinco, dez, vinte milhões diante disso? Mas o mandante preferiu bater pé. Não, cinco não pago. O que conta não é o valor das obras, mas o risco da operação. Esse bandido brasileiro roubou os quadros mole, mole, não enfrentou alarme, polícia, nada. Os quadros estavam lá, pedindo pra ser roubados. Devia era pagar menos, isso sim. O mandante não deixa de ter razão, mas aí se vê, mais uma vez, sua incompetência. Se tivesse se informado sobre a segurança do MASP, teria oferecido no máximo uns cem milzinhos. Foi falar em milhão, foi crescer o olho do bandido brasileiro, deu no que deu. A incompetência do mandante é tamanha que ele nem levou em conta a incompetência do bandido brasileiro. Acabaram os dois agarrados aos quadros, um em cada ponta, puxando pra lá e pra cá. Santa incompetência, qualquer criança sabe que coisa assim não termina bem. O bandido brasileiro dizia paga, o mandante dizia não pago, o mandante dizia dá, o bandido brasileiro dizia não dou, e puxa daqui e puxa dali até que a polícia estourou o cativeiro. Com os quadros reféns do bandido brasileiro por quase um mês, só podia dar nisso, que nessa coisa de estourar cativeiro em subúrbio a polícia brasileira é boa mesmo. Tá certo, me rendo, um viva pra polícia brasileira, que trouxe os quadros de volta pro museu. E agora vamos em massa fazer fila diante deles, que não é todo dia que um Pricasso e um Portinálio aparecem nessas praias e brasileiro é muito ligado à arte. Enquanto isso, o resto do mundo ri da incompetência da nossa bandidagem. Mais um viva pra ela!
6.1.08
réveillon é mesmo em copa
Quem me acompanha sabe que ano passado inventei de passar o réveillon em Ipanema e fiquei lá feito boba esperando uns fogos que nunca vieram, eu e mais meia dúzia de trouxas que também não tiveram réveillon. Pois este ano não quis conversa e fui virar 2006 e 2007 em Copacabana mesmo. O réveillon de Copa não tem surpresa, é sempre o mesmo, sempre igual. Lotado, música insuportável, fogos parcialmente encobertos pelo próprio fumacê, não tem erro. O réveillon de Copa se diz o maior do mundo, mas eu não acredito que seja, não. Réveillon feito ele tem em todo lugar. Vc vai lá com sua família, seus amigos, sempre os mesmos, sempre iguais, tirando este ano um grupo de gringos virgens de Copa (um deles pode estar me lendo agora, então hi, Holden), mas isso também volta e meia tem. À meia-noite (geralmente antes, vai entender essas coisas de Copa) tem aquele fogaréu que parece que não vai acabar nunca, todo mundo de branco pulando ondinhas, uns malucos mergulhando de corpo inteiro, papapá papapá, só que aí é que vc sente - aí, não, desde antes do fogueteio vc já tá sentindo - uma felicidade, uma satisfação de estar lá, uma certeza de que tudo na sua vida vai dar certo não só neste ano, mas na vida inteira mesmo. Isso, queridos, só em Copa. E depois vc ainda sai andando toda tranquila no meio daquele povaréu enorme, que eu nunca vi tanta gente junta e não ter problema. E nem venham me dizer que morreu não sei quem e explodiu sei lá o quê. Réveillon em Copa é quando o carioca desliga o radar, e o que não desliga é porque é bobo. Quem passa o réveillon em Copa sabe que ali é o lugar certo pra encerrar e começar todo ano. Não sei pra que que a gente perde tempo passando em outro lugar. Enfim, faço aqui esse textinho meio atrasado só pra dizer que desta vez ninguém me enrolou. Senhoras e senhores, não adianta, não, réveillon é mesmo em Copa. Quem nunca foi tá esperando o quê?
2.1.08
do que é feita a minha avó
Minha avó tem o pé gordo. Minha avó gosta da casa cheia. Minha avó não pode comer chocolate. Minha avó come chocolate. Minha avó mudou a cor do esmalte. Minha avó tem um jeito engraçado de falar o nome do meu avô. Minha avó chama a Dindinha de Zélia. Minha avó compra presente pra todo mundo. Minha avó me ensinou a bater clara de ovo. Minha avó me deu uma boneca alemã que falava. Minha avó usa broche de borboleta. Minha avó tem oitenta e nove anos. Minha avó faz aniversário dia dois ou três, nunca sei. Minha avó atrai loucos de todos os gêneros. Minha avó faz rabanada. Minha avó sempre acha que a comida não vai dar. Minha avó manda fazer comida demais. Minha avó faz frango só pra mim. Minha avó esquece às vezes. Minha avó só lava o cabelo no salão. Minha avó andou de metrô pela primeira vez comigo. Minha avó jurou que não anda mais. Minha avó nunca andou de ônibus. Minha avó nunca usou jeans. Minha avó nunca teve a chave de casa. Minha avó não come hortelã. Minha avó só faz o que quer. Minha avó me deu o anel de bodas de prata. Minha avó tem casa com terraço e quintal. Minha avó tem seus preferidos. Minha avó tem seus perseguidos. Minha avó fazia audiência de chapéu. Minha avó não faz mais audiência. Minha avó vai ao escritório todos os dias. Minha avó quebrou o braço. Minha avó adora novela. Minha avó dorme tarde. Minha avó ronca. Minha avó é mineira. Minha avó não perde um casamento. Minha avó quer que eu case. Minha avó conta histórias muito bem. Minha avó tem vinte netos. Minha avó é só minha.
23.12.07
cartinha
Papai Noel, se ainda der tempo, queria trocar aquele namorado modelo Gianecchini por alguns dias de sol antes do fim das minhas férias. Se não der, não se preocupe, fico com o Gianecchini mesmo. Papai Noel, gosto muito de vc.
13.12.07
desejo de natal
"Vou ficar acordado até mais tarde pra ver se Papai Noel aparece e me dá um pouco de sorvete de creme." A frase de um menino de rua, numa dessas reportagens de fim de ano, nunca mais saiu da minha cabeça. Entra Natal, sai Natal e eu continuo pensando no menino. Tem mais de vinte anos, mas ainda hoje essa frase me maltrata. Pois vem chegando de novo o Natal e, com ele, o menino. O menino que hoje é um homem, mas que é sempre o meu menino. Onde estará? Vivo, morto, feliz? Quem esperará? O que desejará hoje em dia? O que pensaria se soubesse que passou Natal a Natal comigo? E que meu Natal traz sempre árvore, presente, festa e a dor de que Papai Noel pra ele nunca chegou? Eu e o menino nunca nos conheceremos, mas, como em todo dezembro, já estamos juntos de novo. Que este seja o melhor dos Natais pra ele. Que ele esteja bem, rindo e comendo montes de sorvete de creme. E que Papai Noel, que nunca me falhou, traga de presente este ano notícias do meu menino.
24.11.07
lenda urbana de verdade
A moça bonita entra no bar, prega os olhos na tela e não vê nada além do jogo. Aproveita os intervalos da partida pra mandar uns beijos rápidos pro namorado e é só. É louca por ele, mas a Seleção vem em primeiro lugar. Está vidrada na tevê quando outra moça se aproxima e joga dois copos de cerveja em sua cabeça. A moça bonita não entende nada, sobretudo quando a outra moça diz: "é pra vc aprender a não fazer mais isso!" Isso o quê, pensou a moça bonita e agora encharcada, que nunca tinha visto a outra antes. A outra moça perde a paciência de vez. Levanta-se, pega dois copos cheios de cerveja e parte pra dar uma lição na moça bonita. Vira tudo na cabeça dela, sem ligar pro bar lotado e, diante da cena, calado. Ainda se dá ao trabalho de explicar: "é pra vc aprender a não fazer mais isso!" E sai, satisfeita. O rapaz na varanda bate com o olho na moça bonita dentro do bar e mal se contém. Tenta se concentrar no jogo, disfarça, xinga o juiz, mas não consegue parar de olhar pra ela. É ataque, moça bonita, escanteio, moça bonita, tiro de meta, moça bonita. Chega a perder o gol por causa da moça bonita. E a danada retribui. Finge que só quer saber do jogo, mas volta e meia lança uns beijos rápidos pro radiante rapaz. É bom que sejam rápidos mesmo, ele pensa. Já pensou se a Maria vê?
20.11.07
vovó não perdoa
Vovó se diz ofendida com Fulana, amiga de longa data. É que não foi convidada pro aniversário da netinha dela. E a senhora queria ir, Vovó? Claro que não, mas a Fulana tinha a obrigação de me chamar. Não adianta argumentar que a Fulana lhe fez foi um favor, que ninguém aguenta festinha infantil, e ela bem sabe que a Vovó nem tem criança pra levar. Não, Vovó ergue o dedo, interropendo a defesa. A Laura também não tem e foi convidada. Foi mesmo desconsideração da Fulana, não tem desculpa. Não adianta discutir, Vovó tem sempre razão. E, de mais a mais, tem o direito de se ofender com quem quiser. Vovó conta também que foi convidada pelo filho da Fulana pro batizado da caçula. Tá vendo, Vovó, o problema era mesmo o incômodo da festinha, pro batizado a senhora foi convidada. Mas aí foi o Fulano, não a Fulana. Ele, sim, rapaz muito educado, sempre gentil comigo, vou mandar um belo presente. Como mandar, a senhora não vai? Ah, não vou, não, o Fulano é filho da Fulana. Ela não me prestigia, também não prestigio o batizado. Aí é caso de falar de advogada pra advogada: mas, Vovó, a senhora sabe que ofensas são personalíssimas, não se transferem de mãe pra filho. O argumento jurídico não vale de nada. Ofendeu, Vovó não perdoa nem a última geração. Manda entregar uma medalhinha de prata e dá o assunto por encerrado.
31.10.07
a copa do mundo é nossa
A novidade estourou com tudo: Brasil, Brasil, a pròxima Copa do Mundo é no Brasil! As pessoas comemoram pelas ruas, os fogos explodem, a euforia é total. Antenada, a brasileirinha recebe a notìcia em tempo real e não faz por menos. Sobe na cadeira e grita, pro café todo escutar: Brasil, Brasil, é o Brasil, mesdames et messieurs! È isso aì, rapaziada! A multidão não enlouquece, como a brasileirinha esperava, mas e daì? Brasileiro sozinho faz a festa. Brasil, Brasil, grita sem parar a brasileirinha, batendo no coração verde e amarelo. E tanto fez que acabou num hospiciozinho parisiense. Em St. Germain, tà, que a brasileirinha pode ser louca, mas de boba não tem nada. Vai voltar pra ver a Copa, é claro, mas até là, sò pra garantir a hospedagem gratuita, de vez em quando sobe numa cadeira e manda uns Brasiiiiil, Brasiiiiil, que hotel em Paris é muito caro.
ps. A brasileirinha acorda de madrugada com o texto na cabeça. No meio da brincadeira, a carga da caneta acaba, mas a brasileirinha não se dà por vencida e parte pro làpis de olho. Com brasileiro não tem quem possa, mesdames et messieurs!
ps. A brasileirinha acorda de madrugada com o texto na cabeça. No meio da brincadeira, a carga da caneta acaba, mas a brasileirinha não se dà por vencida e parte pro làpis de olho. Com brasileiro não tem quem possa, mesdames et messieurs!
16.10.07
dos tempos da vovó
Essa é dos tempos da Vovó. A mulher vinha andando pela estrada de terra, com a marmita do marido na cabeça, quando ouviu um barulho inédito. Virou pra trás e viu dois olhos esbugalhados e brilhantes, abrindo alas pro bicho enorme que avançava pra cima dela. Vai me comer, pensou a mulher, e disparou mato adentro. Ficou lá, agachada atrás de uma árvore, tentando descobrir que bicho era aquele. Era um dragão. Mas isso digo eu, que a mulher nunca tinha visto dragão nenhum pra saber. Era um dragão furioso, que rugia e ameaçava quem aparecesse pela frente. Não com fogo, é verdade, mas com buzinadas realmente de assustar. Mas isso digo eu, que a mulher tratou foi de ficar bem quieta pra não atrair a fera. Foi encontrada só no fim do dia pelo motorista do bicho. Tinha comido a marmita.
6.10.07
barriga bonita
Camila pára no meio da sala, encara Mauro e levanta a blusa. Mauro olha pra Camila, morenaça com quem o filho vem saindo. Barriga bonita, pensa, mas logo desvia o olhar. Camila é do filho. Dá o assunto por encerrado, mas bate com o olho na barriga e reconsidera. Pensando bem, os dois saíram só algumas vezes, são quase estranhos. Se ela agora me prefere, fazer o quê? Aí lembra que é pai, que pode tudo menos magoar o filho. Olha de novo pra barriga. Toda durinha, dando vontade de pegar. Vai quase pegando mesmo, mas contém o gesto. Sair já é um passo pra namorar, daí pra casar é um pulo. Que estranha, nada. Camila é quase sua nora, isso sim. Melhor acabar com a brincadeira, antes que Camila se empolgue e aí sabe-se lá onde isso vai dar. Abaixa a blusa, menina, vc vai casar com o meu filho. Como o senhor adivinhou? Tá vendo, eu sabia. E fica aí me mostrando essa barriga? Abaixa a blusa, anda. Primeiro o senhor tem que pôr a mão. Que é isso, a gente não pode. Pode, sim, o senhor tem que sentir. Pai nenhum é de ferro e Mauro acaba agarrando a barriga de Camila, que sorri e diz: Paulo, diga oi pro vovô!
5.9.07
mas, vovó...
Uma senhora nos aborda no meio da rua se dizendo caixa do banco da Vovó. Conta que está com um problema de dinheiro, pergunta se a Vovó não pode dar uma ajuda, promete devolver tudo direto em conta. Vovó não nasceu ontem. Tira a espertalhona de letra. Trabalha no banco, é? E em qual caixa? No onze? Ah, sim. E o que houve com seu dinheiro? O marido bebeu? Coitada, marido que bebe é um castigo. Não, não chore, senhora. Senhora? Ângela, ah, sim, prazer, Sra Ângela. Bom, de quanto a senhora precisa? (Vovó começa a me deixar nervosa) Quinhentos? Ah, que pena, só tenho trezentos. Já ajuda? Então está ótimo. Só um minutinho, sra Ângela, o fecho desta bolsa é muito difícil. Me ajude aqui, minha filha. É hora de interferir: mas, Vovó... ( Vovó me interrompe com um cutucão) Vamos, menina, a Sra Ângela está esperando. Mas, Vovó... ( Vovó me interrompe...) Pronto, sra Ângela, aqui está. Mas, Vovó... ( Vovó me ...) Pague quando puder, não se preocupe. Passe lá em casa depois para um chazinho. Vcs têm meu endereço no banco, não? Então até breve, sra Ângela. Mas, Vovó... (...) Vovó! Como é que a senhora entrega seu dinheiro pra uma desconhecida? Desconhecida, não, eu e a sra Ângela somos amigas. Amigas de onde, Vovó? Do banco, ora. Mas, Vovó, o banco não tem caixa onze! Não tem? Ué, então em que caixa a Sra Ângela trabalha? Não trabalha, Vovó, a sra Ângela é uma golpista. Vovó nem se importa: bom, tomara que ela passe pro chazinho mesmo assim.
25.8.07
nem tanto
A madame esquece os chocolates no táxi. Foram comprados na esquina, não na Suíça ou na Bélgica, mas a madame não se conforma com a perda. Entra em casa afobada, corre pro interfone atrás do motorista. Tarde demais, mas a madame não se rende. Determinada, liga pra cooperativa, relata o ocorrido, se descabela. Só sossega quando a telefonista promete que o motorista vai voltar mais tarde pra entregar o tesouro. Obrigação dele, ela diz. Quem mandou não verificar se a cliente tinha esquecido alguma coisa? Passada uma hora, a madame, sem dar ouvidos à turma do deixa disso, telefona de novo. A telefonista atende e ela explica que é Glória, a dos chocolates, que está querendo saber quando é que o motorista vem. No fim do expediente? É que meus filhinhos estão aqui chorando, se recusam a dormir sem os chocolates que a mamãe ficou de trazer. Dá pra me dar o celular dele? Obrigada, assim eu mesma acerto tudo. Não vai ficar com meus chocolates, resmunga, enquanto telefona. Alô, seu Antônio, é Glória, a dos chocolates. É que meus netinhos estão aqui chorando... Netinhos! Filhinhos pra desconhecida, netinhos pro conhecido. É, parecia que os chocolates tinham acabado de vez com o juízo da madame, mas nem tanto, nem tanto.
7.8.07
timidez
Maria chega radiante, exibindo as rosas que ganhou de Pablo com um cartãozinho anônimo. Não foi ele, retruco. Como é que vc sabe? Tenho certeza. Pois eu é que tenho certeza de que foi ele. Tem como, se o cartão não está assinado? Porque o Pablo, ora, só o Pablo pra me mandar rosas. E sem nem assinar, tão romântico! Pois eu aposto que não foi ele, tanta gente pra te mandar flores. Quem, por exemplo? Ué, por exemplo, só por exemplo, eu. Vc, e a troco de quê? Pronto, agora romantismo é exclusividade do Pablo, é isso? Claro que não, mas daí a dizer que foi vc já é exagero. Eu sei, eu avisei que era só um exemplo, até porque se eu fosse mandar flores pra uma mulher compraria logo dúzias e dúzias e não um buquezinho mixuruca feito esse. Muquirana como vc é, duvido. Pois eu é que duvido que tenha sido o Pablo. Pode duvidar o quanto quiser, foi ele. Pablo aparece. Maria, encorajada pelas rosas, pula em seu pescoço. Me afasto pra não ver a cena, amassando no fundo do bolso a nota da floricultura.
28.7.07
ser balzaquiana
Ser balzaquiana não é não arranjar mais um namorado após o outro. Ser balzaquiana não é não ser páreo pra um bando de menininhas que só ganham de vc no quesito juventude e olhe lá. Ser balzaquiana não é ser chamada de tia pelas tais menininhas - e os respectivos meninões. Ser balzaquiana não é ter que ouvir toda hora a mãe contar que a filha da Fulana também casou, só falta mesmo vc. Ser balzaquiana não é engolir o olhar de pena das pessoas quando descobrem que vc ainda é solteira, ou melhor, que vc é solteira, que solteira balzaquiana não desencalha mais, não. Ser balzaquiana não é saber que ninguém acredita que vc é, caramba, uma solteira feliz. Ser balzaquiana não é, consequentemente, ter toda hora alguém com um amigo “perfeito pra vc” pra te apresentar. Ser balzaquiana não é sentir o mundo todo numa só vibração: “case, case, case”. Ser balzaquiana não é a avó, desesperada, te empurrar pro padeiro, caixeiro, cachaceiro, o que vier. Ser balzaquiana é ouvir a mesma avó perguntar por que vc não namora o Fulano, sendo o Fulano o priminho que vc ajudou a criar. Ser balzaquiana, queridos, é o fundo do poço.
12.7.07
a pessoa certa
Fugindo da agitação, a avó se instalou numa mesinha escondida. De lá, não via a pista de dança, mas conseguia acompanhar bem o movimento no salão. Quase não viu os noivos, por isso estava ansiosa para assistir ao vídeo da festa. Toda a família se reuniu para o evento e a avó não disfarçou o orgulho ao rever o neto, lindo, esperando a noiva no altar. Saboreou novamente a saída da igreja, os cumprimentos, o discurso do noivo, esquecendo-se dos pais, ela vibrou, para declarar que não seria ninguém sem a avó querida. Tinha feito mesmo um bom trabalho. Ali estava o neto, advogado em plena ascensão, casado com uma moça fina, de boa família, linda. O vídeo começou a mostrar o que a avó, do seu canto, não tinha visto. Os noivos abrindo a pista de dança, os aplausos dos amigos, uma beleza. O encanto não durou muito. Rapidinho, a noiva se revelou. Dançava sensualmente, rebolava, lançava olhares fatais pro noivo, que, sem alternativa, sorria e balançava os dedinhos, como se estivesse aprovando o espetáculo. Disfarçava, mas por dentro estava morto, a avó sabia. Aquilo não era moça pra ele. Despudorada, a noiva parecia esquecer que estavam no meio da festa e não na intimidade da lua-de-mel. Apertava o noivo, se oferecia toda, uma vulgaridade. A avó admirou a classe do neto, tentando manter a pose diante do furacão. Ah, se tivesse visto na hora, teria interrompido o vexame, esclarecendo logo aos convidados que o neto tinha cometido um erro. Erro quanto à pessoa! Era isso, a avó pensou. Advogada renomada, conhecia de cor o Código Civil : " Art. 1556. O casamento pode ser anulado por vício da vontade se houve por parte de um dos nubentes, ao consentir, erro essencial quanto à pessoa do outro. Art. 1557. Considera-se erro essencial quanto à pessoa do outro cônjuge: I – o que diz respeito à sua identidade, sua honra e boa fama, sendo esse erro tal que o seu conhecimento ulterior torne insuportável a vida em comum ao cônjuge enganado." Começou a tramar a anulação do casamento, que era evidente que o neto não poderia viver com uma noiva como aquela. Passou a observar o vídeo com ainda mais interesse, registrando os momentos que ajudariam a demonstrar o terrível erro. A noiva se exibia, dava tudo. A avó, com o plano em mente, adorava. Muito bom, chegou a exclamar em voz alta, enquanto a noiva descia até o chão. Era o suficiente, a avó pensou, juiz nenhum deixaria de reconhecer que aquela era a pessoa errada. O câmera filmava os convidados, alguns visivelmente chocados. Lá estava a Raimunda, tão chique, com aquela idade toda, a Isabela, bastante elegante, quem diria, a mãe do noivo, linda de morrer. Nisso aparece o casal novamente. A noiva, já de chinelos e ainda se acabando e o noivo... O noivo com um olhar feroz, a gravata na cabeça, pingando de suor enquanto ensaiava uns passinhos. Nada grave, a avó se tranquilizou, efeito passageiro do mau exemplo da noiva. Com o tempo, porém, o escândalo do noivo foi deixando o da noiva muito pra trás, que noiva se exibir é uma coisa, noivo é outra. O noivo se contorcia inteiro, rebolava levantando as perninhas, arrancava risos da platéia. Para horror da avó, não se limitava a dançar com seu par, como a noiva fazia. Ia puxando as convidadas e rodopiando com uma após a outra. Depois voltava pra noiva, agarrava, dava uns beijos abusados que nem na novela das oito tinha igual. Ah, se tivesse visto na hora, a avó teria interrompido o vexame, dando umas boas palmadas no neto bem no meio do salão. Terminada a sessão, a avó abriu os braços pra noiva e disse: vc é perfeita pra ele, querida! Seja bem-vinda à família!
24.6.07
a número um
A neta explica pro produtor, marido da amiga, que a avó tem oitenta e um anos, que é louca pelo Rei, que daria tudo pra conhecê-lo e sabe-se lá quanto tempo mais ela vai viver, poxa, quebra esse galho. Com isso, consegue a pulseirinha pra entrar no camarote depois do show. A avó mal se aguenta de emoção. Manda lavar o blazer azul, que ela que não é boba de visitar o Rei com outra cor, mal dorme na véspera, fica pronta às três da tarde e às seis já quer sair, mesmo morando ali na esquina. Chegam com duas horas de antecedência, mas a avó não tira os olhos do palco, como se o Rei fosse aparecer a qualquer minuto. No que as mesas vão sendo ocupadas, a neta espalha pra todos que a avó é a fã número um do Rei e que hoje, graças a ela, vai encontrá-lo. A avó, meio encabulada, diz que não queria dar trabalho, mas que a neta é mesmo muito especial, qual outra enfrentaria aquele programa só por causa dela? A neta, modesta, diz que não se importa, que o que interessa é a felicidade da avó. O show começa e a avó parece que entra em transe. Pra despertá-la, a neta de vez em quando grita uns eu te amo, Rei. A avó não deixa de acompanhar, aos gritos de eu também! Quando o Rei ataca de Jesus Cristo, a neta avisa que é hora de partir pro camarim. A avó ainda resiste um pouco, porque sair de show do Rei sem pegar uma rosa no final é o mesmo que não ir, mas acaba concordando. Vai ganhar rosas no camarim, a neta lembra, e ainda fotos, beijos, tudo que uma fã de oitenta e um anos merece. De fato, o Rei recebe a avó com todo o carinho, conversa, beija, abraça. A neta, comovida, acompanha a cena. Quando a avó, dando-se por satisfeita, resolve ir embora, a neta pula no pescoço do Rei. E agradece a gentileza, e diz que não esperava que ele fosse perder tanto tempo com uma senhora, que só um rei como ele mesmo. E enquanto vai falando, vai se enroscando no Rei. Sorri pra ele, conta que a avó anda viciada em Emoções, mas já teve fase de ouvir Cavalgada sem parar. Muito boa música, Cavalgada, suspira. Começa a cantarolar baixinho: Vou me agarrar aos seus cabelos, pra não cair do seu galope... E alisa a cabeleira de chapinha do Rei, que sorri meio de lado e repete seu brigado, brigado, sem ousar se mexer. Quando, mais empolgada, resolve mordiscar a orelha real, ameaçando cavalgar por toda a noite, o Rei faz um discreto sinal pra um segurança e acaba com a festa. A neta sai arrastada, mas da porta ainda grita: Não adianta nem tentar me esquecer, Rei, um grande amor não vai morrer assim. E vão-se embora, ela e a fã número dois.
14.6.07
a verdadeira prova
Catarina resistia, mas Vítor queria porque queria uma prova de amor. Mal ela entrava no fusquinha azul bebê, Vítor começava a lengalenga. Vc me ama? Claro que sim, amor. Então prova. Mas, Vítor, vc tem dúvida? Vítor ignorava a pergunta: se vc me ama, prova. Aí era um tal de beijo pra cá, abraço pra lá, Catarina pedindo menos, Vítor pedindo mais... As juras de amor de Catarina não serviam de nada, Vítor não abria mão da tal prova. Toda noite era igual. O fusca azul bebê estacionava, Catarina entrava e Vítor exigia a prova. A moça não cedia, o rapaz não desistia e no encontro seguinte a agonia recomeçava. E assim termina a história, sem que se saiba se Catarina se rendeu ou não. Agora, que ela amava Vítor, lá isso amava. Amava tanto que nunca explicou que aquela que ele queria era uma prova menor. A maior ela dava todos os dias: desfilar, diante da vizinhança inteira, num fusquinha azul bebê.
6.6.07
o último romântico
O Pablo é mesmo um romântico. Liga o som e encosta o celular pra namorada ouvir. Tem coisa mais romântica do que botar música melosa pra tocar por telefone? O Pablo é mesmo muito romântico, mas já está exagerando. Pô, Pablo, vc tá aí há uns cinco minutos, a menina vai cansar. Vai nada, deixa ela. E continua lá, todo bobo. Uns dez minutos depois, finalmente fala: alô, Taís, só mais um pouquinho, já vou falar com vc, tá? Taís? Sua namorada não se chama Joana? Chama, mas não tô falando com ela, não. Essa é a Taís, atendente da Claro. Mal contendo a alegria, Pablo cola novamente o celular no rádio e comenta: pena que tá tocando essa musiquinha, tinha que ser um pancadão. Tinha.
26.5.07
palmas pra ela
O carro de som estaciona no meio da rua. Os manifestantes, líderes disso e daquilo, vão se revezando ao microfone. Esbravejam, esbravejam, enlouquecem a indefesa vizinhança. No que a confusão parece diminuir, chegam mais quatro ônibus, um deles trazendo o ídolo máximo da multidão, sindicalista velho de guerra. Mal começa seu discurso, morre de tiro certeiro. No jornal da noite, as teorias conspiratórias se multiplicam. Analistas, artistas, astrólogos, vêm todos opinar. Acusam situação, oposição, forças ocultas, ninguém escapa. Pois erraram feio. Descobriu-se depois que a assassina era uma mulher qualquer, que de política queria distância. Vinha suportando bem quatro horas de manifestação, mas se descontrolou quando ouviu o quadragésimo nono companheiros e companheiras! Decidida a viver seu dia de fúria, buscou a espingardinha do marido e disparou. Nada mais natural. Essas passeatas enlouquecem mesmo a pessoa, deixam no chinelo as mais mirabolantes torturas chinesas. As palavras de ordem, as buzinas, as musiquinhas transtornam qualquer um. Ou vc adere e sai pra rua e pra luta, ou perde o juízo e atira. Calma, ninguém aqui defende a violência, que fique claro. Repitamos juntos: violência, não, violência, não, violência, não! Dito isso, vamos ser francos, palmas pra ela.
17.5.07
cena de cinema
A paixão começou quando o patrão, por engano, acertou na coxa dela o beliscão que era pro filho. O patrão era um grisalho charmoso, mas antes do belisco a babá nem tinha reparado. Dali pra frente, caiu de amores. Passou a sonhar com o galã todos os dias, cada vez inventando um final ainda mais feliz. Ela vinha sempre de Sharon Stone. Já ele, impossível decidir, ora era George Clooney, ora Richard Gere. A babá não era páreo pra patroa, sabia. Nunca tentou transformar os filminhos em vida real. Se contentava só de ver o patrão à noite, quando ele entrava no quarto pra beijar o filho. Queria porque queria um beijo daqueles, na testa mesmo, nada cinematográfico, mas, não sendo páreo pra patroa, nem pedia. O auge da glória era quando o patrão falava com ela. Não passava de um meu filho já dormiu?, mas, pra ela, a música subia, a câmera dava um close nos dois e o resto do mundo sumia. Até ligava pras amigas pra contar. Hoje ele falou comigo. Te pediu em casamento? Não, perguntou do filho. Já é alguma coisa, vc tem que se declarar. Que nada, respondia, não sou páreo pra patroa. A babá acabou se cansando da situação. Ela era a mocinha, afinal de contas, e a mocinha pode até ficar sozinha, mas tem direito à última cena. Sabendo que não era páreo, optou por um final triunfante. Deixou pra trás patrão, patroa, menino e um bilhete que dizia: João Cláudio, eu te amo, The End. E foi-se embora sem olhar pra trás, arrancando lágrimas da platéia.
9.5.07
blind date
As amigas combinam uma tarde de compras no shopping novo. Do táxi, Joana telefona pra avisar que já saiu. Descobre que Beatriz está numa rua próxima e decide ir até lá. No local, há um carro azul parado na esquina. O de Beatriz é vermelho. Joana telefona para conferir. É você nesse carro? Sou, troquei mês passado. E vc, cadê? Tô aqui no táxi. Vem logo, tenho um monte de fofocas pra te contar. Também, tô louca pra te ver. O taxista perde a linha, gargalha. Que foi, moço? Desculpe, senhora, mas eu nunca vi nada assim. Assim como? Assim, um encontro assim. Assim como, meu senhor? Assim, dona, duas desconhecidas, é a primeira vez no meu táxi. Joana acha graça e nem esclarece. Paga, agradece e vai embora. Perde a chance única de dizer: peraí, moço, que se eu não gostar eu volto.
5.5.07
o que realmente me espanta
Um dia uma mulher morreu lavando o cabelo no salão. Não que aquilo pra ela fosse novidade, nunca lavava em casa. Três vezes por semana, passava no salão. Ela e o cabeleireiro eram íntimos. Trocavam confidências, ficavam horas naquela função. Enquanto a conversa estivesse animada, o cabeleireiro ia lavando e relavando a cabeleira. Às vezes, chegava a passar umas cinco ou seis mãos de xampu, fora o condicionador. A mulher saía com torcicolo, mas nunca interrompia. A verdade é que era doida por ele. Quando não tinha o que contar, inventava. Falava sem parar pra ele não parar de lavar. No dia da morte, criou um enredo tão intrincado que, percebeu, precisaria de umas três lavagens pra desenrolar. Tentou interromper o relato, mas o cabeleireiro não quis saber de cenas dos próximos capítulos. Lavou os cabelos mecha por mecha, descoloriu, hidratou, fez de tudo, só pra não perder o final. A mulher, de tão apaixonada, foi em frente. E haja paixão, viu, pra suportar uma hora e meia numa daquelas cadeiras de salão. É uma forma sofisticada de tortura. O corpo vai escorregando devagar enquanto a cabeça fica presa no escorredouro. Com o tempo, parece que as duas partes vão se despregar. Dói que é uma beleza, mas a mulher não se rendeu. Antes do fim da história, porém, não resistiu e morreu. Pelo que deu no jornal, a pressão estourou uma veia no cérebro, qualquer coisa assim. O cabeleireiro se desesperou. Não tanto pela cliente, mas pela história sem fim. Quem já descobriu no final da leitura que faltava a última página do livro há de lhe dar razão. Uma história inacabada é um castigo quase tão grande quanto uma lavagem no salão. O cabeleireiro ainda tentou reanimar a mulher, mas não teve jeito. Ela morreu mesmo, lavando o cabelo no salão. Parece incrível, reconheço. Soa mais como invenção de cronista maluca, mas aconteceu de verdade. Pra ser sincera, o que realmente me espanta é que não morra uma por dia.
2.5.07
quase nada
O menino pergunta à mãe quem é a criança suja e maltrapilha dormindo na rua. É um pobrezinho, a mãe explica. E o menino, que nunca tinha visto um daqueles: mas pobrezinho não tem casa, mãe? Pelo visto, não tem. Pobrezinho não tem carro? Não, com certeza não tem. Mãe, pobrezinho tem computador, prancha, videogame? Não, pobrezinho não tem nada. Nem celular e ipod? Não, meu filho, nada mesmo. O menino não desiste: mãe, pobrezinho tem peru?
26.4.07
mais uma de altar
A tia-avó fez saber, aos presentes e ausentes, que a renda do vestido era francesa, importada para a ocasião, e que a bolsinha era Chanel - vintage, fazia questão de dizer, que a última moda era esse negócio de vintage. A tia-avó não abriu o cortejo, como pretendia, mas veio em boa posição. Desfilava como se estivesse numa passarela, controlando o marido, fazendo questão de se distanciar dos padrinhos da frente. Não estava ali para ser encoberta, queria brilhar. Bem no meio da igreja, tropeçou. Não chegou a cair no chão, foi pior. Ficou suspensa pela mão do marido, balançando-se de um lado pro outro. Ah, pra que falar na renda do vestido e na grife da bolsa? Se tivesse avisado que ia cair daquele jeito, a tia-avó teria sido desde o início a estrela da noite. Se bobear, até no lugar da noiva teria entrado. Aliás, pra que noiva diante de uma cena daquelas? A tia-avó desmontou toda. O vestido rasgou, o cabelo soltou, a bolsinha caiu, a igreja inteira riu. Riu pra dentro, engolindo, mas riu. Depois de um tempo balançando, a tia-avó conseguiu se equilibrar. Levantou e fez que não foi nada, feito criança que apanha e diz que não doeu. Jogou o topete pra cima, largou a bolsinha pra trás e seguiu em frente, tentando manter a classe que restava. No fim da cerimônia, veio ela falar com a Vovó: Nair, vc viu o tombo que eu levei? E Vovó, que estava sentada no meio da igreja e quase foi atingida pela cunhada em queda: tombo, que tombo? Ué, Nair, o que eu levei na igreja, vc não viu? Não, não vi, vc caiu? Caí, uai, bem na sua frente. Negar um tombo daqueles chega a ser uma ofensa à sanidade mental da vítima, mas Vovó negou. Fiquei até ofendida pela tia-avó, mas ela adorou: ah, se a Nair, que é tão atenta, não reparou no tombo, que, pensando bem, foi mais um tropeço, uma topadinha, ninguém deve ter reparado também. Assim, a tia-avó convenceu-se de que não houve nada e apagou o episódio da memória. Infelizmente, só da dela.
22.4.07
móimóimói
A mãe troca a fralda da filha mais nova, o bebê lindo, gordo, louro de cachinhos, olhos azuis enormes e boca pequenininha. A outra filha, normal como toda morena e dois anos mais velha, distrai a irmãzinha. Canta uma éspecie de mantra, mómóimói, e, hipnotizado, o bebê nem se mexe. Vou adotar esse móimóimói, pensa a mãe, acostumada a penar pra trocar as fraldas da irriquieta caçula. Acabada a função, a mãe se senta pra olhar as filhas brincando juntas. A cena é de tocar qualquer coração materno: a mais velha tenta enfiar na minúscula boca da mais nova uma pecinha de lego, a mais nova, quase sufocada, tem os olhinhos azuis arregalados e cravados no teto, a mais velha repete baixinho: morre, morre, morre. Pra desgosto das crianças, a chata da mãe interrompe a brincadeira.
17.4.07
quase perfeito
A igreja, pequenininha, estava linda, lotada de flores e pessoas queridas. A noiva estava mais linda ainda e toda à vontade no altar, aproveitando seu momento. No rosto do noivo só se via felicidade e não os cinco pontos que ele conseguiu levar na boca na véspera do grande dia. A mãe da noiva, tirando a filha, era a mulher mais bonita da noite e o pai estava emocionado na medida certa e emocionante até não poder mais. O casamento foi todo um encanto, com direito até a gracinha do pajem. A festa, depois, foi de arrebentar e escancarou a alegria dos noivos e dos convidados. Pra não dizer que foi perfeito, teve, sim, um defeitinho. Faltou a noiva caprichar um pouco mais na hora de jogar o buquê. Mas foi só isso.
10.4.07
pra jc e toda a nação
A avó veio sozinha pro Rio aos dezesseis anos. Estranhou no começo, mas não demorou a assimilar as novidades. Em pouco tempo, perdeu o medo do bonde e o arzinho caipira, dominou a cidade e suas principais atrações. Não havia nada que dissesse respeito ao Rio que ela não conhecesse. Mistério mesmo, só o flaflu. Quebrava a cabeça tentando entender o que a palavrinha queria dizer, mas não conseguia. Ficava esperando a oportunidade de perguntar às amigas sem parecer ridícula, mas nenhuma tocava no assunto. Acabou concluindo que aquilo era conversa de homem, secreta. Chegava a corar quando ouvia os rapazes falando em flaflu. Aos domingos, com o burburinho no auge, nem saía de casa. Moça sozinha, melhor não brincar com flaflu. A avó passou a vida atormentada pela dúvida até descobrir, já velhinha, o que era um flaflu. Quem explicou foi a neta, que já nasceu sabendo o que era Fla x Flu, Fla x Vasco, Fla x Bota, a freguesia inteira. E que sabe, ah, como sabe, que os quinhentos e sessenta e oito do galinho valem muito mais do que mil.
30.3.07
que país é esse?
O programa do dia seguinte é uma caminhada pelos arredores da cidadezinha. À noite, ligam a tv pra conferir a previsão do tempo. A mocinha começa com a capital: a meteorologia previu para hoje sol pela manhã, possibilidade de chuva no início da tarde, calor à noite. Não choveu e a noite está fresca, acrescenta. Continua relatando em detalhes a previsão do dia pro país inteiro e o efetivo comportamento do tempo. No fim, quando já subiam os créditos, acrescenta: amanhã deve fazer sol.
28.3.07
mosquitos da barra
Estavam naquela fase de deixar no outro milhares de marcas. Da tradicional no pescoço às mais discretas, na barriga ou na sola do pé. O cenário era quase sempre a Barra, não se sabe bem por quê. Um dia, o rapaz se empolgou além da conta e fez nas pernas da moça uma série de marcas, enormes e inconfundíveis. Pra disfarçar, ela entrou em casa reclamando de mosquitos. Que a Barra estava insuportável, que era mosquito pra todo lado, que olha só como ela estava. E o pai, de olhos nos roxos: é, minha filha, esses mosquitos da Barra são famosos. Não tem namorada que escape.
26.3.07
e vai entender a vovó
Se Vovó fosse católica, teria que deixar de ser. Ou não poderia passar a vida culpando a Santa Igreja pelos males do mundo. Ou não poderia fazer pouco do Papa. Ou teria que engolir todas as críticas. Se Vovó fosse católica, sua vida não teria graça. Como não é, Vovó se diverte. Implica com a Igreja o dia inteiro, aproveita qualquer deixa pra encaixar o assunto. Começa já no café. Passa do pão ao iogurte falando mal do Papa. Entra pela gelatina falando mal do Papa. Chega ao mamão falando mal do Papa. Nessa etapa, acrescenta: olha, quem come mamão todos os dias é o Papa. O Papa sabe das coisas. Se ele come, é porque é bom.
23.3.07
o vírus
A mãe vivia de regime. Descobria os mais mirabolantes: da cerveja, da gordura, do chocolate... Curiosamente, não emagrecia nada. Às vezes, fazia uns de saladas e grelhados, mas nem esses adiantavam. A mãe não entendia por quê. Se todo mundo faz dieta e emagrece, por que logo ela, que só dava umas escapadinhas, não perdia nem um quilo? Um dia, descobriu a razão. Saiu eufórica pela casa, sacudindo o jornal. Tá aqui, ó! A culpa é dele. De quem, mãe? Do vírus! O vírus da engorda, o vírus que vem na poluição. Já reparou como nos centros urbanos as pessoas são mesmo mais gordas? E eu aqui me torturando sem saber que carregava um vírus invencível! Pronto, agora acabou regime. Sou uma pessoa doente, tenho que me cuidar. Pega ali o pudim pra mamãe. Mas, mãe, por que que esse vírus foi atacar logo vc? Porque nós vivemos na rua mais poluída da cidade! Toda hora dá no jornal. Vc precisa se informar, meu filho. Mas por que só vc na rua inteira? Porque nosso prédio fica bem ao lado do depósito de lixo, e nós moramos logo no primeiro andar. Tá vendo? Faz sentido. Ai, por que não descobriram isso antes? Mas, mãe, e por que que aqui em casa esse vírus só atacou vc? Isso, meu filho, a ciência ainda não sabe explicar.
21.3.07
meu primo me contou
Meu primo Pedro me contou que uma amiguinha leu na escola uma crônica escrita pela amiga da mãe. Chamava-se Mariana, a amiga. O texto falava de uma moça presa no banheiro de um shopping. Coincidência, também já escrevi sobre isso. E não é que a heroína da Mariana amiga da mãe da amiga do meu primo se chamava Aninha, nome que volta e meia aparece nas minhas crônicas? E não é que a Aninha dela teve uma dor de barriga tão terrível quanto a minha? E o final, que engraçado, também era igualzinho. Eu e meu primo recitamos juntos as últimas palavras. Comecei a achar que podia ser eu a tal Mariana, que o texto lido pela filha da amiga era meu. Estava tentando lembrar se tenho alguma amiga mãe de uma Fernanda quando meu primo me destruiu. Falou o título: Uma Verdade Inconveniente. Poxa, o meu é Plano Perfeito. É, acho que essa Mariana não sou eu, não.
19.3.07
seu sutiano
A neta bate na porta do banheiro. Vó, seu sutiano. A avó, comovida com a declaração inesperada, responde: também te amo, minha netinha. Não, Vó, seu sutiano. Eu sei, meu amor, Vovó também. Abre, Vó, seu su-ti-a-no! Querida, Vovó te ama muito, mas agora está no banho. Vencida, a neta pendura o sutiã na maçaneta e volta pra tevê. Da janela, a avó grita: Inês, esse sutiã vem ou não?
15.3.07
às gargalhadas
Os primos mais velhos é que eram os tais. Guga bem que se esforçava para acompanhá-los, mas ficava sempre pra trás. Era o caçula, a criança. Amigo dentro de casa, desconhecido do lado de fora. Um dia, Guga finalmente fez sua primeira viagem com os primos. Foi uma semana de farra, em que Guga, fascinado, acompanhava e imitava cada passo dos mais velhos. Mal conseguia disfarçar a inexperiência, especialmente com as meninas, mas se esforçava. Acabava sempre sozinho, mas, na última noite, surpreendeu. Não só foi o único a conquistar uma das moças, como conseguiu logo a mais bonita e mais loura de todas. Espantados, os primos até cederam o quarto pra Guga namorar melhor. Ele foi, assustado, mas eufórico. Na manhã seguinte, foi difícil satisfazer a curiosidade dos primos. Deu tudo certo, disse. Pelo menos, não aconteceu nenhuma tragédia. Acontecer, aconteceu, mas Guga só descobriu mais tarde, quando deu pela falta da carteira, com todo o seu dinheiro dentro. Ter perdido a carteira, os dólares e o santinho que guardava desde pequeno não foi tão ruim. Duro foi aguentar a gozação dos mais velhos. Duro foi ouvir, e acreditar, que se a moça não fosse uma ladrazinha, se não estivesse interessada só no roubo, nunca teria sequer sorrido pra ele. Duro foi pensar que ela estava agora às gargalhadas, torrando o dinheiro todo. Foi duro, mas Guga sobreviveu. Depois de uns dois dias, já nem se lembrava de mais nada. Ah, antes que eu me esqueça, a carteira ficou jogada atrás da tevê. Quem descobriu foi a arrumadeira, ao preparar o quarto para o próximo hóspede. Torrou o dinheiro todo, às gargalhadas.
12.3.07
passatempo
Depois de ano e meio de preparativos, havia chegado o grande dia. A noiva entrou radiante na igreja lotada, se deliciando com cada detalhe. Enquanto ouvia as palavras do padre, pensava na inveja que as convidadas solteiras estariam sentindo. Admirava a decoração, perfeita, com cascatas e cascatas de flores caríssimas. Saboreava o impacto causado pela daminha, realmente a mais linda que já tinha visto. Lembrava o orgulho do noivo ao vê-la desfilar, parecendo uma princesa no vestido todo bordado. Mal podia esperar pela segunda etapa, a festa. Foi antecipando os cumprimentos, a valsa, o jantar, a alegria da amiga encalhada que, com sua ajuda, ficaria com o buquê. Já estava pela lua-de-mel quando o padre afinal fez a pergunta e ela respondeu que sim, que queria, sim, se casar com o noivo. Viraram-se para trocar alianças e ela achou lindo quando o padre pediu que, antes, exibissem as mãos, o símbolo da união, para os convidados. Frente a frente, esticaram os braços, mantendo as mãos suspensas, encostadas uma na outra. Subiu a música e ela ficou ali pensando que aquele era o momento mais bonito da sua vida, que não poderia ser superado nem pelo nascimento dos filhos, cujas carinhas já começava também a imaginar. O noivo, brincalhão, ameaçava abaixar o braço e ela fazia que não com a cabeça, rindo. E agradecia a sorte de ter um noivo tão bem-humorado. Depois de alguns minutos, percebeu que o braço do noivo tremia sem parar e ameaçava despencar de verdade. Daí pra frente, só pôde pensar nisso. Sabia que a música ainda estava longe do fim quando o noivo, suado e um tanto pálido, avisou que suas forças tinham se esgotado. Apavorou-se, pois a igreja inteira morreria de rir se interrompessem a cena antes da hora. O noivo argumentou que o braço estava duro, cheio de cãimbras, mas ela implorou que ele agüentasse só mais um pouco. Apaixonado, o noivo atendeu. Quando a noiva já comemorava o fim da sinfonia, o noivo não resistiu e caiu. Caiu pra trás durinho, mantendo esticados o braço e a mão, como prometido. A confusão aí se instalou. Foi um tal de socorrer o noivo, de abanar a noiva, que já ia desmaiando também, de conter o chilique do cerimonialista, que o casamento acabou ficando por aquilo mesmo. O padre sorriu, satisfeito. Antes de dormir, riscou na lateral da cama mais um tracinho, o vigésimo segundo, pelo vigésimo segundo casamento interrompido no último instante. Arruinar casamentos, seu passatempo preferido.
10.3.07
eu te amo
Ângela jurava que era ele, sem nenhuma dúvida. Pretendentes não faltavam, mas ela só queria saber do olhos azuis. Vivia a sua espera, embora nem se conhecessem. Era justo isso que a encorajava. Tinha certeza de que quando se olhassem a paixão ia ser instantânea. De fato, um dia se encontraram e os olhos azuis grudaram nela. O dono dos olhos se aproximou, puxou assunto, deu a maior bola, como Ângela sabia que aconteceria. Foi aí que ela se apavorou e deixou escapar a grande chance. Bem que os olhos passaram a noite vidrados nela, bem que o dono se sentou sozinho, como que guardando lugar pra ela, mas Ângela, que pena, não encarou. Daí pra frente foi só amargura. Havia desperdiçado o momento único e agora só lhe restava esperar que aqueles olhos, de tão apaixonados, descobrissem seu endereço e aparecessem de repente num cavalo, e mandassem rosas todos os dias, e escrevessem cartas apaixonadas, e cantassem pra ela milhares de músicas, as mais bonitas, pra compensar sua agonia. Ângela foi definhando com a expectativa. Não pensava em mais nada, não tinha fome, não ria, não dava atenção nem pro Vítor, o lindo filho pequeno. Só não perdeu a esperança. Um dia, ao pé da porta, encontrou o que tanto esperara: um bilhete do olhos azuis. O bilhete que ia lhe devolver a alegria, a disposição, o interesse na vida, no trabalho, até no filho. Dizia, numa familiar caligrafia infantil: Ângela, eu te amo, assinado Chico Buarque.
3.3.07
receita
Pra despertar a inveja alheia, misture: um bom apartamento, o carro do ano, um namorado bonitão e, convenhamos, rico, um excelente emprego, uma bela conta bancária, um corpão. Mexa devagar e adicione: tendência a emagrecer, viagens ao exterior várias vezes por ano, nome em tudo quanto é lista vip. E o ingrediente que, sozinho, vale por todos os outros: uma cadeira no Maracanã. Nada provoca mais inveja do que a tal cadeira. Em dia de jogo, então, o dono da cadeira é o dono do mundo.
1.3.07
mas é verdade
O castelo ficava no alto do morro. Pra chegar lá, só de elefante. Escolhemos o nosso, enorme e com a cara toda pintada, e fomos. Sentamos de lado, com as pernas pra fora da sela, como as mocinhas de antigamente. Vovó cismou que seus sapatos iam cair e fez a viagem toda com as pernas esticadas e os pés apontados religiosamente para o alto. Não relaxou um minuto. Já mamãe se esbaldou. Pulava de um lado pro outro, ria sem parar, parecia criança. Eu e Vovó descemos logo que chegamos, mas mamãe se recusou a deixar o elefante. Queria a todo custo continuar montada enquanto fazíamos a visita. Acabou mudando de idéia, mas não sem antes tirar uma foto com o bicho. Não uma foto qualquer, que fique claro. Mamãe fez questão de posar se equilibrando na cabeça do elefante. Correu risco de vida. E ainda botou o ridículo chapéu do domador, vermelho e cheio de pêlos. Se vc nunca viu sua mãe plantada logo acima da tromba de um elefante, esquece. Não há como imaginar a cena. Não é uma pena que justo esse filme tenha queimado? Sem provas, duvido que alguém acredite na façanha da mamãe.
28.2.07
bisnáguis púris
O avô, capaz de viajar pelo tempo que for sem uma única parada, cede à pressão dos netos. Sabendo que a pausa não durará mais do que cinco ou, com sorte, dez minutos, disparam todos em direção à lanchonete, já formando fila. O avô vai perguntando o que cada neto quer e repetindo os pedidos ao balconista. Um cachorro-quente pra Luiza, um misto pro Tiago, um ovomaltine pro Pedro. E pra vc, Paulo? Bisnáguis púris, ele responde. Bis o quê, pergunta o avô? Bisnáguis púris, ele repete. Já irritado com a perda de tempo, o avô pergunta pela última vez o que o neto deseja. E ele, impassível: bisnáguis púris. O avô aí explode, condenando Paulo a terminar a longa viagem de barriga vazia. Fã número um do Mussum, seu trapalhão mais querido, Paulo prefere passar fome a admitir que o que quer é uma bisnaga pura.
26.2.07
crime impossível
Álvaro não vai desperdiçar a dor de cabeça da noiva. Toma seus cuidados: parte pra boate mais afastada da cidade e, nela, escolhe a moça sentada no canto mais escondido. Pra seu azar, a vítima é amiga da noiva e tem memória excelente. Esteve com Álvaro apenas uma vez, mas não esqueceu. Já ele, com a cabeça sempre cheia de moças, nem se lembrava dela. Na hora h, a surpresa: sou amiga da sua noiva. Apanhado, Álvaro nem discute, vira as costas e vai embora. Dá o noivado por perdido, mas, no dia seguinte, ainda tenta convencer a noiva de que foi a amiga quem se insinuou. Enfurecida, ela não lhe dá chance: não adianta mentir, minha amiga nunca me trairia. Repete isso, pede Álvaro, empolgado. Minha amiga jamais me trairia, e daí? Justamente, responde Álvaro. O crime era impossível! Crime o quê? Impossível, diz Álvaro, e cita de memória o art. 17 do Código Penal: " Crime Impossível - Não se pune a tentativa quando, por ineficácia absoluta do meio ou por absoluta impropriedade do objeto, é impossível consumar-se o crime." Trocando em miúdos: há casos em que, mesmo tentando, o crime simplesmente não pode acontecer. Matar um morto, por exemplo, é impossível. Pode-se usar faca, bala, veneno, não importa. Morto não morre duas vezes e ponto. Como o crime é impossível, não há punição nem pra tentativa. Sua amiga jamais te trairia, certo? Por mais que eu tentasse, o crime nunca aconteceria, não é mesmo? Então tá resolvido. Crime impossível, nada de castigo. Pode ir botando a aliança de novo no dedo.
E assim Álvaro se safa. Aprendam essa, meninos.
E assim Álvaro se safa. Aprendam essa, meninos.
24.2.07
verbo intransitivo
O guia, indiano fluente em espanhol, faz as apresentações. Sou o sr. Ajay, este é o sr. Amar, nosso motorista. Vovó entra no carro fascinada. Amar, bonito nome. O sr. Amar, fluente apenas em hindi e inglês, devolve o Amar, fescdbjklok, com um yes, madam? Faço sinal de que não é nada. Ainda encantada, Vovó repete: Amar, é mesmo muito bonito, Amar. Amar, nrdofnbdfedkn, Amar. Yes, madam? Ela gostou do seu nome, explico. Dá pra parar de repetir o nome dele, Vovó? Mas eu não estou repetindo, só estou dizendo que Amar é muito bonito. Afdasfndkj fndklfedjkfnsd, wdfeefmd Amar dsa effhnehkjn. Yes, madam? Mas ele não entende, ele acha que vc está falando com ele. Não adianta argumentar, Vovó insiste no mantra. Amar... Amar... Yes, madam, yes, madam, faz coro o sr. Amar. No dia seguinte, só de ver Vovó, o sr. Amar já dispara um yes, madam atrás do outro. Assim contina por mais uns dois ou três dias, até Vovó, irritada, exigir um motorista menos tagarela. O sr. Amar é substituído pelo sr. Matar. Vovó detesta o nome. Matar, que horror! Ou, aos ouvidos do motorista - que não sabia o que estava por vir -, Matar, hjkbmkawesdz!
22.2.07
use camisinha
Sem se importar com idade, respeitabilidade ou qualquer outra coisa, Armando rouba uma camisinha da gaveta do filho. Depois de dias de indecisão, tinha resolvido correr todos os riscos. Faz xixi na camisinha. Não satisfeito, vai à cozinha adicionar água e uma boa dose de azeite. Entra no quarto pé ante pé pra não acordar a mulher. Mal contendo a excitação, acerta a bomba em cima do grupinho que, toda noite, arma uma gritaria bem debaixo da sua janela. Contente feito um moleque, volta a dormir.
15.2.07
mais uma de amor
Beatriz conhece os zoológicos de todas as cidades que visita. Na verdade, escolhe as cidades de acordo com as atrações de cada um deles. Foi a Lisboa pra ver o bode de duas cabeças. A Barcelona, pra conhecer o gorila albino. A Nova York, só pra gastar horas olhando o urso polar neurótico. Despreza os pontos turísticos, só quer saber dos zoológicos. Chega a passar dois ou três dias em cada um, revendo seus animais preferidos. Uma vez, caiu de amores por uma lhama. Não que não tivesse visto outras, mas aquela era especial. No primeiro dia, ficou no fundo da jaula, mas esbanjou charme. No segundo, se aproximou mais e Beatriz até flagrou um sorriso. No terceiro, também se apaixonou. Ficou horas parada perto da grade, olho no olho com Beatriz, que mal podia conter a emoção pela conquista. A cada um que passava, dizia: olha só, ela é louca por mim. De fato, o bicho estava vidrado, nem se mexia. Foi juntando gente pra ver o espetáculo. Ela hipinotizou a lhama, disse um menino. Foram feitas uma pra outra, suspirou uma velhinha. Quando parecia que iam ficar naquele namoro pra sempre, a lhama rompeu o encanto. Numa das viagens do almoço do estômago à boca, cansou-se da mastigação e pôs tudo pra fora, num jato só, sem chance para Beatriz. Ainda pensou em dizer: muito prazer, lhama, animal ruminante, mas achou que não precisava. Voltou pro fundo da jaula em silêncio mesmo.
10.2.07
direto do seu coração pro meu
Reclamação por email, a dona do blog não encaminha nem pros comentários, mas eis que surge ele, o comentarista que nunca deixa de assinar, e conquista lugar de honra. É, cronista, diga-me com quem andas...
"hj é dia 10/ 02, e sua ultima croniqueta fos escrita dia 06/02. já são 4 dias sem uma nova. será que vc foi atacada pelo virus da máscara e está fazendo doce?, estou me sentindo um leitor traido, e se continuar assim, só irei ler outros blogs, como o do noblat,os do globo, e outros que tais.brasileiro é fogo. essa miscigenação não deu certo. Heil Hitler. vamos atras da raça pura. mistura campolina com piquira, com mangalarga, com árabe, dá só cavalo meiõ-sangue que não serve para nada. exagerei: para charrete deve dar."
ps. calma, querido, não me deixe, não.
"hj é dia 10/ 02, e sua ultima croniqueta fos escrita dia 06/02. já são 4 dias sem uma nova. será que vc foi atacada pelo virus da máscara e está fazendo doce?, estou me sentindo um leitor traido, e se continuar assim, só irei ler outros blogs, como o do noblat,os do globo, e outros que tais.brasileiro é fogo. essa miscigenação não deu certo. Heil Hitler. vamos atras da raça pura. mistura campolina com piquira, com mangalarga, com árabe, dá só cavalo meiõ-sangue que não serve para nada. exagerei: para charrete deve dar."
ps. calma, querido, não me deixe, não.
6.2.07
não importa o destino
Vovó adora um portador. É só alguém anunciar que vai viajar e ela já se anima. O incauto conta que está indo, digamos, para São Paulo. Ótimo, Vovó diz, estava mesmo precisando de um portador para lá. Pede licença e volta com montes de pacotes, a ser entregues em quatro ou cinco endereços diferentes. Se, em vez de São Paulo, a pessoa for pra Manaus, não há problemas. Vovó se assanha igualmente e desce com a pacotada. Viajou, não importa o destino, é portador. Tem gente que não entende como ela tem sempre alguma coisa pra despachar. A verdade é que Vovó gosta tanto da função que chega a manter um estoque de caixas vazias, só pra não desperdiçar um portador. Sabe que os destinatários não vão entender nada ao abrir os embrulhos, mas não se importa. Dificilmente alguém pede explicações. Quando acontece, não perde a pose. Suspira, inocente, e diz: não tinha nada? Meu Deus, e eu achando que o portador era confiável...
4.2.07
ronaldinho
A irmã, toda orgulhosa, manda um email com a foto tirada ao lado do ídolo. Carolina faz pouco caso. Eu que não perco meu tempo batendo fotos com desconhecidos. Ainda mais no meio de um monte de gente, mal dá pra te ver. Mais tarde, Lúcia, filha de Carolina, estranha a foto no msn da mãe. Ué, que que essa foto do Ronaldinho tá fazendo aí, mãe? Foto do Ronaldinho, não, senhora. Foto do Ronaldinho comigo! Não tá me vendo ali no cantinho, não?
3.2.07
reino
Os adultos criaram no sítio o Reino Encantado das Crianças. Não tinha nada demais, era só um quarto transformado em sala de brincar. Puseram lá uns livros, uma mesa de pingue-pongue, uns velocípedes, acho até que uma televisão. O Reino Encantado das Crianças logo virou Reino só e era tão reino que tinha até um riachinho passando por dentro, pra gente se sentir mesmo num castelo, desses de ponte levadiça. Era lá que nós ficávamos, no andar de baixo, enquanto os adultos ocupavam o andar de cima. O Reino não foi feito pra nós, mas pra eles. Quando queriam conviver, crianças na sala, quando não queriam, já pro Reino. Funcionava muito bem, embora a gente resistisse um pouco, de charme. Difícil dizer quantos dos vinte netos aproveitaram mesmo o Reino. Talvez uns dez. Os cinco seguintes continuaram sendo despachados pra lá, mas se sentiam mais prisioneiros do que donos do castelo. Os cinco últimos, descobri outro dia, não só não freqüentaram o Reino como sequer sabiam que ele existia. A décima oitava neta, diante do "já pro Reino!" da prima mais velha, respondeu, animada: vou, sim! Onde fica esse reino? O fato nem mereceria nota, já que milhões de crianças de hoje não conhecem nada da vida das crianças de ontem. Mas, dos milhões de crianças de ontem, só dez conheceram o Reino. Isso sim vale o registro.
1.2.07
à nata da bandidagem
O ladrão entra na casa pelos fundos, passa a mão numas galinhas e foge. Vovô acorda com o alvoroço e se levanta a tempo de atingir o safado com seu revolverzinho de cabeceira. Aconteceu há muitos anos, claro. Hoje seria impossível. Começa que o ladrão já ia entrar atirando, sem chance pro Vovô. Ok, digamos que não, mas ia carregar um fuzilzão e o revolverzinho não ia dar pra nada. Se fosse hoje, qualquer arroubo de valentia do Vovô ia acabar em desgraça. Digamos que não mais uma vez. O ladrão tem o fuzil, não atira, Vovô também não e o assalto acaba em paz. Certo, mas e as galinhas? Ladrão de galinha hoje em dia perde a viagem. Acaba sendo forçado a levar jóias e que tais. Não é justo. Pois, em homenagem à nata da bandidagem, providenciei uma galinha bem gorda. Tá morando lá em casa, pro caso de algum ladrão de classe querer levar.
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