8.2.17

barão

A casa da minha avó, a Barão, foi onde nós crescemos.  Só alguns moraram lá, mas era a casa de todos nós. Era a casa do encontro, sempre aberta, sempre viva. Tudo era pretexto pra festa. Natal, aniversário, alguém chegando de viagem, alguém indo viajar. Todo jantar era um banquete. A mesa enorme, com os pratos preferidos de cada um. A multidão, a algazarra. Era também a casa das coisas pequenas. De chegar sem avisar, deitar no sofá da sala até alguém mais aparecer pra conversar. De subir a escada e encontrar a vovó assitindo à novela que ela dizia que não acompanhava. De ouvir lá de baixo a tv nas alturas, como o vovô gostava. De entrar no quartinho do escritório pra ver os álbuns antigos que ficavam guardados lá. De andar descalça no quintal de pedrinhas. De comer soldadinhos, que a vovó fazia com pão picado e feijão. Do portão de madeira, da porta de ferro, da parede de azulejos. De tanta coisa, tanta alegria. 
Depois da vovó, a casa precisou de outro dono. Entre o prédio e a creche, venceu a creche. A casa ficou de pé, melhor assim. Cheia de crianças, como sempre. Reformada, dava pra ver da rua, mas continuou lá. Agora, por coincidência, ou sorte, ou amor, virou a creche do meu sobrinho. Vejo sua foto chegando no primeiro dia de aula. No carrinho, carinha desconfiada,  pequeno demais pra saber que estava na casa da bisavó. Ao fundo, a porta de ferro, inconfundível, eterna. A porta ficou. Pedro vai passar por ela todos os dias. Meu sobrinho também vai crescer na casa da minha avó. 

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24.12.16

à nostalgia futura

Dá até preguiça de falar que Natal é tempo de nostalgia e melancolia. Parece que é o que mais e mais gente sente e diz. E com razão. Não tem mesmo como deixar de sentir falta daqueles Natais passados, da casa da avó cheia de gente, daquela multidão que juntava família enorme, amigos e agregados, da maratona que era a festa, passando por amigo oculto, jogral, Papai Noel, tudo em ritmo acelerado, até, ufa, chegar no jantar, na mesa imensa coberta de delícias, na hora de relaxar e aproveitar a companhia uns dos outros até todo mundo ir embora, que Papai Noel só deixava presente no sapatinho de quem dormisse em casa. Enfim, não dá mesmo pra não sentir falta daqueles Natais. Mas a saudade, como a vida, anda pra frente. No futuro, é dos Natais de hoje que sentiremos falta. Deste Natais sem tradição, sem casa certa pra acontecer, de famílias pequenas, de tanta gente faltando, destes Natais em que a maratona não é pra cumprir todas as etapas da festa, mas pra comprar presentes pra quem nem importa, só por obrigação, só pra chegar na grande noite e aí, o quê? Nada. Falta alegria, falta sentido, nem parece que é Natal. Ainda assim, no futuro, estes serão os melhores Natais. Porque a nostalgia, muito esperta, vai trocando saudades antigas por novas e guarda só o que é bom.  Os Natais de hoje, sejam felizes ou não, serão lindos lá na frente. Por isso, mais do que com bolas e luzes, enfeitemos desde já este Natal com a beleza e a saudade que virão do futuro.

26.11.16

Fidel Noel

Fidel morreu. Pensei em escrever sobre Fidel, mas me lembrei de Papai Noel e o texto desandou. A associação é inevitável. Os dois têm barbas brancas, os dois vivem em terras longínquas e fantasiosas, os dois andam magrelos, Fidel por lamentável doença, Papai Noel porque a coisa tá feia e os modelos mais gordos e bochechudos são caros e cada vez mais raros. Os dois quase não falam, se bem que Papai Noel nunca passou de hohoho, já Fidel, enquanto pôde, torturou os ouvidos do povo por horas e horas, anos e anos, décadas e décadas. Os ouvidos y otras cositas más.
Agora, a coincidência final uniu os dois ainda mais. Fidel se foi quando Papai Noel vem chegando. Fidel se foi enquanto Papai Noel e os duendes embrulhavam presentes, e capitalistas do mundo inteiro corriam pras lojas pra comprar o que podiam e o que não podiam. As coincidências acabam aí. Pra Papai Noel, o Natal vai ser o de sempre, sempre novo, sempre igual. Pra Fidel, evidentemente vai ser muito diferente, talvez azul, cheio de nuvens e anjos, talvez vermelho e quente, cheio de diabinhos, vai saber. Pros inimigos da revolução, não muda nada. Pro pessoal lá da ilha, não sei se o Natal muda muito, não sei se vai ter Papai Noel, mas é certo que não vai ter bicho papão. Fidel morreu. Papai Noel vive. Tchau, Fidel. Vem, Papai Noel.

12.11.16

insônia

Na insônia, passeio pela minha fazenda. É raro ter, insônia. Quando tenho, não sei bem o que faço dela. Já sei que não adianta a agonia, já sei que às vezes é melhor levantar e ler até o sol raiar, esperando que cedo ou tarde o cansaço me vença. Isso depois de ter tentado o relaxamento, que começa das pontas dos dedos e vai subindo pelo corpo, e geralmente na altura das coxas já me faz dormir. Assim vinha levando a insônsia, até ter o estalo de gênio. Vou passear pela minha fazenda. Vou refazer o caminho que eu fiz tantas vezes, que sempre quis gravar e só gravei quando estive lá pela última vez, sabendo que ia ser a última vez. Gravei no vídeo e, hoje sei, na alma. Comecei antes de virar na placa, passei pela figueira, dei uns passos e parei. Fui girando e gravando o que via pelos lados, pelas costas, depois andei mais, parei, girei de novo. O cenário variava pouco, mas os ângulos iam mudando, formavam quadros, formavam fotos diferentes. Fui em silêncio, ouvindo os barulhos, gravando meus passos, vendo os bichos, passando pelo curral, chegando no bambuzal, nas cocheiras, na praça, parando e girando. O cenário aí já era outro, a lagoa na frente, mais cocheiras e pastos, a subida pra casa, a placa lá embaixo, lá no fundo, e o caminho já percorrido. Passo pela outra placa, pelo riachinho seco, as flores dos dois lados, a cerca gasta, as pedras, o jardim, orgulho da vovó, o jardim. Dali, de novo a lagoa, o pasto, a entrada de casa. Não chego a entrar, durmo antes. A sala e os quartos visito só no dia seguinte, quando acordo. É bom ter insônia. Na insônia, passeio pela minha fazenda.

25.2.16

satisfação

Cheguei perto com cuidado, olhei o corpo e as patas à procura das tais listrinhas. Nada. Ainda assim, como não sou boa de vista, tenho instinto sanguinário e detesto picadas de modo geral, não ia desperdiçar a oportunidade. É hoje pensei, é hoje que acabo com ele. Há dias eu o procurava, mas o desgraçado fugia, sumia, se camuflava, me deixava com cara de idiota no meio da sala, vasculhando todos os cantos à toa. E agora lá estava ele, vítima indefesa, pregado bem no meio da parede branca. Mesmo assim, era preciso agir com cautela. São espertos, os da raça dele, um deslize e já era. Planejei o ataque com pressa, sem tirar o olho dele. É preciso usar um objeto grande e firme e dar um golpe rápido e forte, me lembrei do namorado, caçador de mosquitos experiente e bem-sucedido. Mas eu estava no trabalho, sem um jornal, sem um objeto que se encaixasse nas especificações. E mais, sendo a sala toda de madeira escura, se perdesse a chance sabe-se lá quando ia ter outra. Parti pra cima com o que tinha: dois guardanapos usados pra comer um sanduíche. Pequenos, molengos, mas guerra é guerra. Falhei, claro. O bicho saiu voando, rindo da minha cara. Ah, mas o sangue me subiu à cabeça. Não vai ficar assim, não, infeliz. Se não foi com os guardanapos, vai ser com as mãos mesmo. Sou boa nisso até, volta e meia acerto.  Saí rodopiando pela sala, batendo palmas sem parar, acompanhando o voo frenético do mosquito. Mosquito burro, pousou de novo. Pensou que estivesse livre do perigo, né? Ledo engano. Ou vai ver ele estava só brincando comigo, confiante e abusado como os mosquitos geralmente são. O grau de dificuldade havia subido, ele agora estava estacionado em uma lâmina fininha de uma persiana de alumínio, que ainda por cima oscilava por conta da proximidade com o ar-condicionado. Só um golpe muito ninja mesmo daria conta daquilo. Foquei, respirei, era tudo ou nada, tipo final olímpica. Bati a palma mais forte, mais concentrada que consegui. Medalha de ouro. Cortei o dedo, mas valeu. O Brasil pode estar perdendo a guerra pro aedes, mas comigo não tem disso, não. Matei.

31.3.15

isabel

Isabel era a única pessoa no mundo que podia falar palavrões na frente da Vovó. Não um ou dois, mas uma enxurrada.Vovó nem se importava. Vindo dela, podia. Ela falava numa velocidade incrível, difícil de acompanhar. Chegava sem aviso, entrava pela casa feito um furacão, e lá vinha Vovó escutar a falação e morrer de rir das bobagens dela. Estou ficando cansada, Vovó cochichava lá pelas tantas e escapulia pro quarto. Isabel nem notava, continuava falando pra quem estivesse por perto. Quando não sobrava ninguém, ficava lá sozinha, esparramada no sofá, sem sapatos, roncando alto. Isabel era de casa. Era extravagante, andava cheia de badulaques, não tinha modos. Para os pequenos, era fascinante, parecia de outro mundo. Era decoradora e bastava entrar numa casa pra sair mexendo nos móveis, trocando tudo de lugar como se fosse dela. Todo mundo adorava. Tinha o hábito, mais tarde adotado por Vovó, de bater o telefone na cara da gente quando dava o assunto por encerrado. Ela era assim, sempre acelerada. 
Sem Vovó, nunca mais vi. Às vezes, ouvia notícias, nunca boas, sempre piores. O fim de vida foi solitário e lento. A notícia de hoje, então, não sei se é boa ou ruim pra ela. O fato é que ela se foi, acabou-se a história. Deixo o meu adeus à inesquecível senhora dos cabelos de três cores.


27.2.15

estamos juntos, companheiros



Depois que o presidento Lula deu o exemplo, é a vez do presidente do PT carioca mandar a militância dar porrada. Não se sabe bem em quem, já que esse partido anda meio esquisito, mas deve ser nos descontentes e não na presidenta, que bem ou mal ainda carrega a estrela no peito. O resultado da pancadaria é imprevisível. Os descontentes são a esmagadora maioria, mas a militância é vermelha, cor de sangue, não desiste nunca. Além disso, os militantes vêm mesmo pra bater, enquanto os descontentes querem só protestar. Tá bom, só protestar, não. Os descontentes também querem derrubar a presidenta. Do poder, companheiros. Não no chão, pra dar porrada. Não que ela não mereça umas boas lambadas, mas se tomar o rumo de casa já deixa os descontentes bem contentes. Bom, os times estão definidos, embora alguns militantes descontentes oscilem um pouco. O circo está se armando. Logo, logo, a batalha começa. Quem vencerá? Pouco importa, já que vamos acabar todos no fundo do mesmo buraco.

16.11.14

nunca falha

A agulha nunca falhava. Acertava o sexo e o número de filhos de qualquer mulher que testasse. Se balançasse pra frente e pra trás, era menino. Se o movimento fosse circular, era menina. Se ficasse parada, não adiantava chorar, era sinal de que a pessoa não tinha filhos, nem ia ter. Quando chegou a vez da mãe, a agulha girou sem parar. Era menina! A mãe já sentia e agora estava confirmado. Só pra provar que a agulha estava certa, fez um exame de sangue logo no primeiro mês. Deu menino, sinal de que esses exames não valem nada. A mãe não se abalou. Em primeiro lugar, exame nenhum é 100% seguro e 0,001% faz muita diferença. Além disso, a mãe tinha um filho de seis anos e era claro que o sangue ainda tinha vestígios de macheza. Acima de tudo, valia a palavra da agulha. Se ela disse que era menina é porque era. Empolgada, a mãe começou a preparar o enxoval. Comprou montes de vestidos, lacinhos e brincos. Pintou o quarto todo de rosa e encomendou a mobília na mesma cor. O pai ainda tentou argumentar que não havia razão pra pressa, mas a mãe não tinha tempo a perder. Pra que esperar?  Era menina, a agulha não mentia. A agulha realmente não mentiu. O exame também não. No fim, não ganhou a fé, nem ganhou a medicina. Vieram dois, um menino e uma menina. Deu empate.

11.10.14

o meu preferido

Algumas vezes, eu perguntava: vô, quem é sua neta preferida? Ele amarrava a cara e não respondia. Eu insistia. Ele fazia bico, contrariado. Afinal, enchia o peito e dizia com força: lógico que é você! Outras vezes, de mãos dadas, ele do nada falava: é minha netinha preferida. E pra minha avó: é a mais amiga da gente, Nilzinha. Gostava também de me provocar. Quando eu perguntava, ele apontava a cabeça pra outra neta qualquer, indicando a preferência. Só com muito custo conseguia fazer ele me dizer o que eu já sabia. Lógico que era eu. Mais pra frente, passou a responder a minha pergunta só beijando a minha mão. Mal falava, mal me olhava. Às vezes, só de implicância, eu sei. Assim que você saiu começou a falar, me contavam depois. Com o tempo, fui deixando de perguntar. Só dizia: vô, é sua neta preferida. Abre o olho, eu quero ver seu olho azul. Ele sempre abria. Ontem, mesmo sabendo ser inútil, mais uma vez eu pedi. Ele não abriu, nunca mais vai abrir. Nem por isso vou deixar de pedir pra sempre. Vô, abre o olho. Eu quero ver seu olho azul.

10.10.14

o preferido



Com ar muito solene, chamava às vezes um neto para dar um dinheirinho. Adorava o ritual. Passava um tempo mexendo na carteira, exibindo notas de dez, vinte, cinquenta, criando expectativa. Por fim, puxava uma nota de dois reais, que entregava como se estivesse dando um milhão. Que vai fazer com tanto dinheiro? Nem sei, Vô, dá pra muita coisa. Gostava disso. Ai de quem não demonstrasse a devida empolgação com o presente. Mas isso era raro. Normalmente, todo mundo fazia planos de compras de roupas, carros, foguetes e por aí vai. Tinha perdido a noção do dinheiro, não custava brincar. Mas era ele quem brincava com a gente. Nunca perdeu a noção do dinheiro. Pra Bruninho, o preferido, sempre dava cinquenta. 

12.8.14

vovó e seus casos

Não conto o milagre, nem o santo, só digo que é o tipo de caso que Vovó adoraria contar. Vovó, aliás, não teria pudor e contaria tudo em detalhes, dando nome e endereço completo do santo. Vovó adorava uma fofoca, um caso, uma notícia escandalosa. Pra ela, não tinha nada melhor do que telefonar à noite pra todos os conhecidos, contando as novidades do dia. Houve até quem apelidasse as ligações de “Rádio Vovó”. Não sei se Vovó aprovaria, mas a verdade é que ela dominava mesmo a arte do noticiário. Ia misturando notícias boas, ruins, banalidades, grandes acontecimentos, tudo com carga dramática máxima. O resultado era sempre excelente e não perdia a qualidade, mesmo repetido umas quarenta vezes por noite. Mas o bom mesmo era ver Vovó falando ao vivo. Quando ela falava, fosse onde fosse, todo mundo parava pra ouvir. Quando a família se reunia, Vovó ficava quieta enquanto os filhos e netos tagarelavam sem parar. No auge da balbúrdia, se empertigava toda e dizia, muito solene: Uma vez, quando eu era pequena... Uma vez, lá em Minas... Uma vez, quando fulano já estava crescidinho... Ou no meu tempo isso, no meu tempo aquilo... Ia contando o caso, dando umas risadinhas picadas, até chegar ao fim da história e todo mundo explodir na gargalhada. Ou cair no choro, dependendo do tema escolhido. Vovó era boa mesmo naquilo. Contava e recontava as mesmas histórias, mas quem se importava? “Fulano diz que as minhas histórias são muito manjadas, mas adora ouvir”, Vovó gostava de dizer. O milagre de hoje tinha tudo pra se tornar um dos grandes clássicos da Vovó. Esse ela ia repetir um monte de vezes, sempre morrendo e matando todo mundo de rir. Uma vez, há uns dez anos... Uma vez, há uns vinte anos... Dá pra ouvir direitinho Vovó falando. Pena não poder contar porque a versão dela, como sempre, é impagável.

4.8.14

receita de grude

Pra fazer grude, ferva água, polvilho, cinco crianças, cavalos, lagoa, galochas, barro, paçoca, charrete, chiclete, carrapatos, avós, prendas, churrasco, música, pau-de-sebo, bambuzal. Mexa bem e deixe repousar antes da festança. Lambuze os barbantes, cole as bandeirinhas, pule a fogueira, dance a quadrilha. Raspe a panela, guarde as sobras e leve pra sempre com você.

26.6.14

vovó e a pornografia

A revista chega e a neta corre pra ler. Tarde demais, Vovó chega antes. Que revista é essa? Photo, uma revista francesa de fotografia. Posso ver? Não que Vovó se interesse por fotografia, absolutamente. É mais uma questão de curiosidade em estado avançado mesmo. Toma, Vovó, pode ler. Mas essa revista é pornográfica! Claro que não, Vovó! Mas tá cheio de gente pelada! Isso é nu artístico, Vovó. Artístico nada, é uma pouca-vergonha! Nunca pensei que neta minha pudesse ler uma coisa assim. Não foi assim que seu pai te criou! Pois saiba, Vovó, que meu pai sempre leu essa revista, fazia até coleção. O golpe é duro demais. Vovó arregala os olhos, cambaleia, quase cai. Vai ter um troço, a neta se procupa, pra que fui falar? Vovó balança a cabeca, recusa-se a acreditar. O seu pai, não, o seu pai não lia isso! Lia, Vovó, não perdia uma. Essa revista é um clássico da fotografia. Pois pra mim é puro lixo! Os dois caíram muito no meu conceito, diz, atirando a revista no chão e retirando-se, ainda zonza. Aí, é a vez da neta entrar em choque. Em página dupla, uma fileira de homens pelados exibe-se pra câmera, numa variedade de cores, formas e tamanhos capaz de fazer corar a mais desavergonhada das mulheres, o que certamente não é o caso da Vovó. Até a neta, de renomada sem-vergonhice, se abala. A revista realmente extrapolou todos os limites da decência. Não chega a ser pornografia, mas de artístico aquilo ali não tem nada. A revolta da Vovó é mais do que justa, a neta admite. Em solidariedade, decide nunca mais ler a revista. Vai só empilhando quando as novas chegam, sem nem abrir. Já Vovó, dizem, de vez em quando dá umas folheadas.

1.7.13

a brasileirinha ataca novamente

Acostumada a ver a Seleção patinar entre o medíocre e o vexame, parece que a cabeça da brasileirinha, que já não é lá muito boa, desandou de vez com o olé de 3x0 em cima da Espanha. Ainda entontecida com o triunfo, saiu de casa uma hora antes do horário sem nem perceber. Chegou cedo demais na Justiça, mas até que foi bom, que toda hora sentava gente ao lado da brasileirinha, falando só de futebol. A brasileirinha adora. Sente sempre, em jogo bom ou jogo ruim, uma emoção que só o futebol, só ele, desperta. É do tipo que não perde a chance de discutir a partida da véspera, ainda mais quando a Seleção faz bonito. Aliás, sempre que a Seleção está sob o comando do Felipão, que pra brasileirinha é rei absoluto e o melhor técnico que nosso time já teve ou terá. Aproveitando o tempo livre, a brasileirinha engrenou numa análise minuto a minuto com o senhorzinho do banco ao lado. Quando já iam lá pelos 45 do 2° tempo e o jogo já estava mesmo ganho, a brasileirinha de repente lembrou que estava ali a trabalho e ainda não tinha visto seu cliente. Estas situações, a brasileirinha, como qualquer advogado, resolve ficando de pé e gritando o nome da empresa. A brasileirinha se levantou, encheu o peito de ar e, embalada pela vitória, gritou pro corredor inteiro ouvir: Brasiiiil!!! Depois, cavou um buraco bem grande, se enfiou inteira lá dentro e ficou encolhidinha esperando a vergonha passar.

4.5.12

não adianta negar

Sem maiores explicações, terminou o namoro de mais de dez anos, que já era tido por noivado e, por alguns, até casamento. Foi um rebuliço geral, não se falava em outra coisa. Gerou revolta e admiração na mesma medida. Onde já se viu deixar um rapaz tão bom, ele não merecia isso. Quanta coragem, terminar um namoro já com essa idade não é pra qualquer uma, não! As especulações sobre o motivo do rompimento duraram meses. Arranjou outro, tá na cara. Flagrou ele com outra, isso sim. Pra mim, namoro longo, viraram amigos, só isso. Cada um tinha uma opinião, até aposta em dinheiro se fez. Palpitou-se bastante também sobre o comportamento da nova solteira. Vai cair na noite no dia seguinte. Vai nada, nunca foi disso. Nunca foi disso antes, quando tava com ele, espera pra ver agora. Quando saiu pela primeira vez, parecia até estrela de cinema, todos os olhares em cima dela. E quando apareceu, meses depois, de mãos dadas com outro, as fofocas dispararam de vez. É ele, é o outro, finalmente assumiu. Fui eu que apresentei os dois, não é coisa antiga, não. Que nada, olha a intimidade, isso já tem tempo. Foi assim passo a passo, moço a moço, por anos e anos. Até que o ex se casou. Passaram a olhar a moça com pena. Tadinha, é duro ver o noivo casar com outra. Pior que pra ela até agora nada, arrisca de morrer solteira. Ah, mas ele não podia ter feito isso com ela. Depois de tantos anos, tinha que ter casado. Não se deixa uma noiva assim, à beira do altar. Ela só faltou morrer de paixão. Passou meses sem sair da cama e volta e meia ainda chora por ele. E agora casou com outra, o safado. Deve estar com essa desde aquela época, sabia que ali tinha rabo de saia. A noiva se divertia com o burburinho. Tão com pena de mim por quê? Fui eu que terminei, quero mais é que seja feliz. Os votos sinceros não convenceram. O povo ficou foi alarmado. A notícia foi muito forte, coitada, a cabecinha não aguentou. Deu pra negar que foi abandonada, vê se pode. Tem que levar ao médico, vai que enlouquece de vez. Melhor deixar pra lá, é até bom ela se enganar. A noiva cansou da brincadeira e resolveu interferir. Ficaram doidos, é? Fui eu que terminei, esqueceram? De nada adiantou. Não precisa se envergonhar, querida, acontece com qualquer uma. Mas fui eu que quis! Não tem por que se enganar, todo mundo sabe que a abandonada foi você. E noiva lá encerra namoro depois de dez anos? Foi o noivo, tá na cara. Não adianta negar.

31.3.12

foi o gonzalez quem fez

Tem quem ache que roupa de grife é que é bom. Vovó, não. Quer dizer, não é que não, que pra Vovó certamente o Gonzalez é uma grife.  Aliás, a melhor do mundo. Pra Vovó, não tem quem bata o Gonzalez. Nem Chanel, nem Dior, nem ninguém. Há quanto tempo o Gonzalez existe na vida da Vovó não se sabe. De onde veio, também é mistério. O paradeiro quase nunca é sabido. Entre idas e vindas da Europa, Gonzalez quase mata a Vovó de paixão. É, agora é definitivo, ela diz desconsolada. Vendeu tudo, voltou pra Pontevedra. Agora, só comprando em loja mesmo. Mas o Gonzalez, com saudade da praia, das moças, ou vai ver que da Vovó, sempre volta. Aí, é uma alegria. Vovó corre pra renovar o guarda-roupa. Não me entendam mal, Vovó não é perdulária.  Tem o armário recheado de criações do Gonzalez, mas também só veste Gonzalez. Usa até hoje, e com frequência, vestidos de vinte, trinta anos atrás. Esse usei nas minhas bodas de prata, fala com orgulho. Esse foi o do casamento do seu pai. Ainda cabe, se gaba. A Vovó adora provar que mantém a silhueta. Mas o que dá realmente prazer à Vovó, o que ela não deixa nunca de dizer quando alguém elogia o figurino, porque pra ela vale até mais do que o elogio em si, é: foi o Gonzalez quem fez!

 









 

23.3.12

encomenda

Tia Esmeralda, casamenteira que só ela, entra no quarto toda assanhada: quem é esse que tá na sala? É o Vitor, Tia Esmeralda, meu fisioterapeuta. O Vitor? Mas como ele é alinhado, bem-apessoado! Anda, menina, não deixa ele lá esperando. Chego na sala e Tia Esmeralda, claro, já tá sondando o fisio. Quando me vê, dá uma piscadela e sai de mansinho. Passa a sessão atrás da porta, apontando pro Vitor e desenhando coraçõezinhos no ar. Mal espera ele ir embora e já volta à carga. Simpático ele, né? Simpático, bonitão e, principalmente, sem aliança! Muita sorte ter virado seu fisioterapeuta! Sabia que ele perdeu a irmã? Tia Esmeralda, você é impossível! Fez o Vitor te contar isso em dois minutos de conversa? Ele não me contou, não, eu vi na tv. Você viu o Vitor na tv, quando? Toda hora, ué, e não é só pra falar da irmã, não. Ele vive aparecendo naquelas lutas que você gosta de ver. Não, Tia Esmeralda, aquele é o Vitor Belfort! Eu sei, menina, eu sei o nome dele. Peraí, o Vitor não é o Vitor Belfort? Claro que não, Tia Esmeralda, de onde você tirou isso? Você me disse, esqueceu? Eu perguntei quem estava na sala e você respondeu que era o Vitor Belfort. Não, Tia Esmeralda, eu não disse que ele era o Vitor Belfort. Primeiro, porque o Belfort tá preocupado com o pé dele, não com o meu. Segundo, porque o meu fisio é a cara do Zé Aldo. A cara e o corpo, aliás. Peso pena, no máximo. Você não viu o Belfort na tv? Claro que vi. Acho essa luta um horror, mas não sou boba. Esse aí é a cara dele. A cara e o corpo, né, Tia Esmeralda? A cara e o corpo, eu reparei bem. Essa tá boa, Tia Esmeralda, a lenda viva do MMA cuidando dos meus pés... Aliás, essa tá ótima! Traz o Belfort, Tia Esmeralda, traz o Belfort!

21.3.12

dindinha

Ela fumava sem parar, cigarros Malboro. Sentava na frente da tv com os malboros e ia madrugada adentro, só dormia de manhã. Ela roncava muito, quando calhava de dormir com ela era um horror. Ela era brava e mandava na casa e na gente. Me obrigava a comer até o fim, querendo ou não. Ela era gorda e no dia em que caiu da escada quase matou todo mundo de susto porque ficou lá estirada sem conseguir se mexer. Eu nem tinha nascido, mas sei porque ninguém esqueceu. Eu também sei, de ouvir falar, que no dia do assalto o ladrão mandou ela deitar na banheira e depois foi um sufoco pra tirar ela de lá. Num dia de bagunça, ela me trancou no quarto dela e eu revirei tudo lá dentro. Ela quase morreu e nunca mais me trancou. Ela falava largatixa e eu morria de vontade de corrigir, mas não corrigia. Ela um dia chamou um fulano de manda-chuva e eu achei graça porque ela queria dizer o contrário, mas também não corrigi. Ela depois me chamou de saliente e eu fiquei pensando o que que ela queria dizer com aquilo. Ainda não descobri. Ela foi embora, mas vinha de visita às vezes e deu pra ver quando começou a perder a voz e os movimentos. Eu que passei a ir de visita e cada vez ela tava pior, mas com a doença, ou a idade, ou a saudade, ou tudo junto, foi perdendo a rabugice e ficando cada vez mais alegre e animada. Pra ela eu acendi, e acendo, as velas de todas as igrejas que visito. Só porque eu sei que ela gostaria. Sempre que alguém falava que ela não ia aguentar muito tempo, eu nem ligava porque tinha certeza de que ia, sim.  Quando me disseram que a coisa era séria e ela já tava perdendo a consciência, eu fui minuto a minuto na estrada pedindo pra ela me esperar. E um dos momentos mais bonitos da minha vida vai ser sempre aquele em que ela me olhou e encheu os olhos d'água e eu vi que tinha conseguido. Deu pra dizer tudo que eu tinha guardado a viagem e a vida toda pra ela, tudo que eu queria que ela levasse com ela. Depois, eu parei de falar e a gente ficou muito tempo conversando só com os olhos e ela me disse coisas lindas que eu é que vou levar comigo. Eu não tenho mais tantas lembranças dela, mas eu sinto a presença, o jeito de andar, a textura da pele, a estridência que a voz dela às vezes tinha quando ela ainda tinha voz, essas coisas que ficam na gente. Ela ficou em mim.

 

4.2.12

na cadeira do pensamento

Eu chamei a Alice de chata bisonha e a tia me mandou pra Cadeira do Pensamento pra aprender a não falar as coisas sem pensar. Eu pensei bem e vi que ela tinha razão, eu não devia ter chamado a Alice de chata bisonha, eu nem sei o que bisonha quer dizer. Aí, no outro dia, quando a tia me perguntou se eu tinha pensado bem, eu falei que sim e que a Alice era chata só. A Alice começou a chorar e a tia me mandou de novo pra Cadeira do Pensamento e disse que era pra eu ter só pensamentos bons. Eu tive dois pensamentos muito bons, mas quando eu entrei na sala no dia seguinte e a tia quis saber, achei melhor só gastar um e falei que apostava meu lanche que se a gente fizesse uma votação de quem era a menina mais feia da sala ia ganhar a Gabi disparado. Todo mundo começou a votar e e a tia me mandou pra Cadeira do Pensamento outra vez. Nesse dia, os meus pensamentos foram horríveis, que eu tava muito nervoso com a prova de História e fiquei só repassando a matéria. Aí, quando eu cheguei de manhã e a tia me perguntou no que que eu tinha pensado, preferi usar o pensamento bom do outro dia e disse que a aula de Português andava insuportável. Tudo bem que foi uma risadaria, mas ela também não precisava ter ficado tão brava e deixado a turma toda de castigo na aula de Geografia. Só eu que fui pra Cadeira do Pensamento. Passei a tarde toda lá, aí lembrei de quando eu tive catapora e a minha mãe jogou aquele remédio na banheira que deixa a água rosa e tive o pensamento genial de jogar o remédio na piscina da escola também. Já pensou na hora do recreio, todo mundo descendo pro pátio e vendo a piscina toda colorida? Vai ser bisonho! Quando eu cheguei hoje e a tia quis saber no que que eu tinha pensado, achei melhor falar que fiquei pensando na matéria de Ciências, que esse ano tá muito legal. Tá chata pra caramba, sorte que ela acreditou e ainda ficou toda contente. Eu gosto da tia, não quero que ela perca a surpresa. Eu ainda não sei como é que eu vou levar tanto remédio escondido pra escola e jogar na piscina sem ninguém ver, mas acho que com mais uns dois dias na Cadeira do Pensamento eu resolvo tudo. Pena que hoje não teve.

2.11.11

risco de vida

O tripé dos sonhos de qualquer fotógrafo, levíssimo, dobrável e de excelente desempenho. A cronista sai de casa toda contente com a maravilha, mas, no que põe o pé na rua, descobre que ela é perfeita pra carregar na mão, mas na bolsa vira um trambolho. A cronista pára pra descarregar, encostada no capô do carro em frente. Mal começa a puxar o tripé, vê, pelo vidro quase preto, alguma coisa se movendo lá dentro. Forçando a vista, a cronista descobre um homem deitado no banco do motorista. A cronista morre de vergonha de ter sido flagrada usando o carro alheio como se fosse a mesa da sala e se aproxima pra se desculpar. Vê o homem rindo, tremendo, segurando o peito como se fosse infartar. O homem aponta desesperado pro tripé e a cronista se dá conta de que o objeto inofensivo, em sua capinha preta e dura, mais parece uma metralhadora, um fuzil ou outra arma qualquer. A cronista percebe que o homem, acordado no susto, se viu vítima de um assaltante, um sequestrador ou um simples bandido entediado que, na falta de coisa melhor, se preparava pra brincar de tiro ao alvo. Ao ver a cronista, moça formosa e delicada, saibam, leitores, relaxou, mas o ataque de nervos foi inevitável. A cronista começa a rir e gesticular em sinal de desculpas e é quando se dá conta do perigo. É a vez de a cronista tremer e segurar o peito, quase morrendo do coração. E se o bandido fosse ele? A cronista correu sério risco de vida! Mas tudo acabou bem. Nenhum dos dois estava armado, nenhum dos dois era bandido. Tiveram sorte. Numa cidade como esta, podiam ter levado um tiro.

23.6.11

vovó e a cerveja

Lidando com uma penca de enfermeiras que se revezam num ritmo infernal, Vovó, que já gosta de trocar os nomes dos filhos com os dos netos, aprendeu a se defender. Sentindo a chegada da moça do dia, vira-se de costas e pergunta quem vem lá. Sou eu, Doutora, a Fulana. Aí é só associar o nome a alguma coisa bem fácil de lembrar e não se preocupar mais com o assunto. Tem a de nome igual ao da presidente (Vovó não diz presidenta nem sob tortura). Tem a mulher do Príncipe Charles (Vovó ainda se lembra do Príncipe Charles...). Tem até a namorada do Roberto Carlos (Vovó jura que o Rei e a Ternurinha quase casaram). Só Vanessa que não teve jeito. Vanessa é Vanessa, Vovó passa a noite repetindo pra não errar. Vanessa quieta na copa e Vovó na sala, baixinho: Vanessa, Vanessa. Na hora de chamar é só aumentar a voz: Vaneeessa! Vem a novela, Vovó: Vanessa, Vanessa, vem o comercial, Vovó: Vanessa, Vanessa, vem a Sandy, bem loura, bem desinibida, bem gostosa, Vovó: Devaaassa! E vem a enfermeira, morena acanhada, um poço de inibição. Vovó na hora cai em si. Ai, minha filha, desculpe, foi essa cerveja indecente! Você não é nada disso, bem se vê que é moça direita. E a devassa Vanessa: Não tem problema, não, Doutora. Faz um mês que a senhora me chama assim. Já me acostumei.

1.4.11

não pode ter nada melhor

Quem já fez spinning sabe como é. Posição um, posição dois, senta, levanta, subindo ladeira, mais rápido, mais rápido. E vc vai entrando num delírio, vc não é uma aluna numa academia, vc tá no meio da selva, lá vem a onça, mais rápido, vc tá no mar, olha o tubarão, mais rápido, vc tá cansada, mas é vida ou morte, mais rápido, mais rápido. Tem hora que vc se sente a tal, pedala feita louca, deixa a bicharada toda pra trás. Aí o cansaço vai apertando, vc não vê mais bicho nenhum, vc tá no fundo do poço. Nisso, o pedal escorrega e vc percebe que não, vc não tava no fundo do poço. No fundo do poço vc tá agora, espatifada no meio da sala, todo mundo em volta segurando o riso. Aí é um corre-corre danado, o professor em estado de choque, o pé violentamente torcido, a vergonha, a vergonha, a vergonha. E vc tenta se convencer de que não foi nada, quem sabe ninguém nem viu, mas por dentro urra, de ódio e de dor. E no meio daquela coisa toda, de repente vem a luz, e não tem mais vergonha, nem ódio, nem nada. Pé imobilizado, quinze dias sem malhação, não pode ter nada melhor.

2.3.11

vovó e o fim do mundo

Não saia daí, minha filha. Jogaram um avião, as torres caíram, é a Terceira Guerra Mundial! Mas foi lá nos Estados Unidos, Vovó, tá tudo tranquilo por aqui. Tranquilo, como? Os Estados Unidos podem destruir o mundo vinte e três vezes! Vinte e três vezes, nunca entendi, basta uma, basta uma! Não vão explodir, não, Vovó, os russos não deixam. Não deixam? Os russos é que estão por trás de tudo! Querem explodir os Estados Unidos vinte e três vezes também! Já começaram com as torres, agora vai ser bomba pra todo lado. Não saia, minha filha, não saia, com russo ninguém pode! Ué, Vovó, mas não foi coisa do Afeganistão? Quem disse, aquela mocinha da televisão? Sempre achei esquisita, tá do lado dos russos, tá na cara. Muda de canal, rápido, vai que já inventaram míssil pela tevê. Cadê seus pais? Liga pra eles, liga pros seus irmãos. Diz que é pra não sair de casa. Mas, Vovó, se o mundo explodir, a casa vai junto, né? Não me contrarie, minha filha, não me contrarie. Manda todo mundo voltar pra casa já. Agora vou desligar, tenho que ir. Pra onde, Vovó? Pra rua, ora. Vou pichar parede, jogar no bicho, quem sabe me tatuar. O mundo vai acabar, tenho que aproveitar. Não saia daí, ouviu bem, não saia daí.

17.2.11

o japa dos meus sonhos

É famosa a queda da cronista por japoneses, chineses, coreanos, tailandeses, japas de todos os gêneros, olhinhos puxados de modo geral. Japa é japa, e a cronista há de ter um pra chamar de seu. A busca não é fácil, mas a cronista não desiste. Cansada de procurar por estas bandas, vem planejando uma investida in loco. Começou a estudar japonês, faz aulas de origami, taekwondo e shiatsu. Em casa, só anda com uns tamanquinhos de madeira, já se vendo nas ruas de Tóquio toda vestida de gueixa. Dá voltas e voltas na Lagoa, pra tirar de letra a Grande Muralha. Cuida de um bonsai, coitado, e toma chá todos os dias, mesmo odiando, pra não fazer feio na hora do ritual. A cronista está disposta a tudo e todos. Tem intenções tão sérias que considera até um lutador de sumô. Mas fique claro que não serve qualquer japa. A cronista sabe que só um é o dela. Às vezes, cansa da espera, xinga o destino, mas não desanima. Examina em detalhes todo japa que encontra, não perde o clima de agora vai. E nisso a cronista entra num boteco e pede uma coca. Tlês reais. O coração da cronista bate fraco, arrisca parar. O japa dos meus sonhos existe. Não é um samurai, nem veio montado num dragão chinês. Trabalha no pé-muito-sujo ali do lado e nunca vai me levar pra Xangai. Mas finalmente chegou.

19.7.10

não ponham o zico na minha frente

Muito pequena, o primo dizendo que bom mesmo era o Flamengo e eu dizendo da boca pra fora que bom era o Botafogo do meu pai. Aí o primo me levando pra ver um jogo e pra ver que não tem nada maior do que o futebol, o Flamengo e o Zico. Eu entendo os mais novos, mas os da minha idade, os que viram o Zico jogar, torcendo pra outro time, nunca entendi. Sem provocação, nunca entendi. Muito pequena, o Brasil perdendo o jogo e a tia gritando Ziiiiico, sei lá se o Zico tinha ido ou não, mas a tia gritava. Ainda muito pequena, o juiz dizendo que tinha dado só mais um minuto pro Zico fazer o gol e não é que ele fez mesmo? Muito pequena e depois mais crescida, a certeza de que no último instante o Zico ia salvar a pátria. E salvava. E trazia aquela alegria que só o futebol, só quem ama o Pelé, o Romário e o Ronaldo sabe o que é, e quem ama o Zico sabe muito mais. O Zico avançando pelo meio do campo e toda vez, e até hoje, eu pensando que é assim que se faz. Aquela bicicleta que eu nem sei em que jogo foi, nem se foi, mas eu me lembro dela e foi tão linda. O Zico pulando pra comemorar o gol. O Zico indo jogar fora e fazendo aquele gol esquisito que ele diz que é o mais bonito, sem saber que todos são. O prazer de ir ao Maracanã e ver a bola, o batuque e as bandeiras com o rosto do Zico. Ainda hoje. E quando o time vai mal tem sempre alguém que grite Ziiiiico. E sempre tem também quem diga que o Zico na Copa não foi nada, que o Zico só foi o Zico no Flamengo. E me dá uma baita vontade de rir desse só. Agora, o Zico está de volta e há perigo à vista. O Zico ronda a Lagoa, arrisca da gente se esbarrar. Não quero, nem pensar. Não ponham o Zico na minha frente. Detesto me descontrolar.

11.11.09

mais uma da vovó

Vovó exibe orgulhosa o quadro grande e antiquado, perguntando se não é um bom presente de batizado para os gêmeos. A inadequação é tamanha que não ouso dizer nem que sim, nem não. Vovó, talvez desconfiada do meu silêncio, explica que aquela é a igreja em que eles vão ser batizados. Ah, claro, respiro, ótimo presente. Vovó triunfa. Vovó, registre-se, adora triunfar. Vira-se para a tela e suspira: ai, tomara que essa árvore ainda esteja lá. Olho de novo o quadro: nada além de terra batida e uma igrejinha absolutamente rústica, com um grande flamboyant florido na fente. Tento me conter, mas não consigo. Vovó, se essa é a Igreja de São Conrado, ela teve que ser posta no chão e levantada de novo. Mas Vovó, que, como disse, adora triunfar, insiste: é ela, sim, filhinha, tenho esse quadro há muitos anos. Tá escrito aqui atrás, pode ler. Leio: Igreja da Penha, Itaparica, Bahia. Ou seja, muito provavelmente, Vovó tem é o quadro da igrejinha em que o grande João Ubaldo foi batizado. Pois não deixa de ser um excelente presente, pelo menos pra ele, Vovó diz. Vovó nunca se rende.

24.10.09

da imensa ternura que eu sinto por ele

O B era quem guiava a charrete. O B ia cantando, e as músicas que ele cantava até hoje eu sei de cor. O B ainda tem a mesma cara, mesmo com as rugas e a barba meio branca. Não é com frequência que a gente se vê, mas quando acontece é sempre igual. O B traz a charrete e a gente sai sacolejando pelos caminhos mais esburacados, por ladeiras tão íngremes que olhando lá de cima parece até que vai todo mundo capotar. E eu sinto o fascínio de sempre, e penso como é que pode, que só o B mesmo, que ele é o tal. E engulo o medo e finjo que tá tudo bem, que não tem susto nenhum. Mas o B vai guiando seguro, e vai falando, contando da vida, feito amigo assim de todo dia. E eu não vou dizer que é como se fosse, que aí também já é dar muita bola pro B. Mas eu digo, e eu sempre sinto, que o que me faz falta mesmo daquele lugar, além da charrete, e da festa junina, e do lustre do quarto da vovó, e de tirar lama da sola da galocha com palitinho, e de brincar de caçada à noite, e de acampar no jardim, e de nadar na lagoa, e de dormir todo mundo junto no quarto grande, o que me faz falta mesmo daquele lugar é o B. E, entre as alegrias de voltar lá, além de saber que a viagem enorme tá terminando, e de virar na placa, e de passar pelo bambuzal, e de entrar em casa e ver tudo do mesmo jeito, entre essas alegrias todas, está saber que logo, logo o B vai aparecer. E ele vem sempre sorrindo - não tem barba, nem ruga, nem coisa nenhuma que mude o sorriso do B - e me cumprimenta e vai buscar a charrete. O B, que bom, é sempre igual. Pena só que ele não canta mais.

16.11.08

poxa, woody

De todos os rapazes do baile, o que mais encanta a moça já não é mais rapaz. É um senhor velhinho, que pelos óculos enormes, o formato do rosto, a altura e um jeito meio desengonçado de andar, ganhou logo de um dos amigos dela o apelido de Woody Allen. Woody foi o primeiro, no primeiro dia, a tirar a moça pra dançar. Zanzou de um lado pro outro, aproximou-se da mesa, abriu um sorrisinho tímido, esticou a mão em convite e puxou a moça pra pista. No fim da dança, levou-a de volta pra mesa, à moda antiga. Disse um muito obrigado tão sentido, franzindo um pouco os olhinhos por trás dos óculos, que conquistou a moça de vez. Toda semana, ela já chega no baile procurando por Woody. Observa como ele abre a pista, sempre com parceiras diferentes. Sempre uma parceira por dança, sempre levadas de volta a suas mesas, sempre os olhinhos franzidos. Como dança bem o Woody! Como é elegante, até quando alguma moça, que não entende nada da etiqueta do salão, recusa a dança. Nessas horas, a moça se aproxima como quem não quer nada, fica bem à vista e faz cara de surpresa quando ele a tira pra dançar. Outras vezes, flerta com ele. Sabe que Woody não vem assim de primeira. Passa pra lá, lança um olhar, passa pra cá, ameaça um sorriso. Até que se aproxima, fingindo insegurança, como se não soubesse que a moça vai aceitar. Dançam dois sambas por baile, Woody sempre mais assanhado no segundo do que no primeiro, colando bem o corpo no corpo da moça, batendo de leve no próprio rosto com a mão dela. A moça ri. A moça deixa. A moça gosta de pensar que é só com ela, que é graças a ela que Woody, já tão velhinho, volta a ser um rapaz. A moça também dança com rapazes de verdade, claro, e volta e meia é ela quem cola o corpo no deles, mas com nenhum a moça é tão gentil, e nenhum tem por ela a gratidão que Woody tem. São cúmplices. E quando a moça teve que passar seis meses longe do país, pensou em Woody todo sábado à noite. Quando voltou, correu pro salão. Woody não estava. Era cedo ainda, Woody podia chegar, mas o fato de não estar lá pra abrir o baile deixou a moça apavorada. Woody já não era garoto e aquilo não podia ser bom sinal. A moça ficou sentada, esperando por ele, até Woody aparecer. A alegria foi tamanha que a moça chegou a se levantar pra abraçá-lo, mas lembrou que não, que o jogo não era aquele, que o certo era esperar Woody vir. E Woody logo começou a lançar seus olhares e sorrisos. A moça correspondia sem excessos, que cavalheiro não gosta de dama atirada, mas mal podia esperar a hora da dança. Woody andava de um lado pro outro, fazia charme, torturava a moça. Afinal, parou na frente dela, arregalou os olhos, como se tivesse acabado de vê-la, e veio ao seu encontro, sorridente, já com a mão estendida. Aí, se virou e seguiu pro outro lado. O que aconteceu, a moça não sabe e nem vai saber, que se tem uma coisa que dama não faz é correr atrás de cavalheiro. O que se sabe é que a moça jurou que nunca mais dança com ele, nem se estiver abandonado no meio do salão. Pode ser que sim, pode ser que não. Pode ser que da próxima vez Woody aperte tanto os olhinhos pra convidar a moça que ela esqueça a mágoa e os dois voltem a dançar. A moça, feliz, pensando que dançar assim, Woody só dança com ela. Woody, feliz também, dando pancadinhas no próprio rosto com a mão da moça e pensando em nada, que hora de samba não é hora de se pensar. Pode ser, pode até ser. Mas o fato é que ontem, Woody, vc quebrou nosso trato.

27.10.08

deus é brasileiro

A ex-governadora e prefeita eleita de Campos, Rosinha Garotinho, declarou: "Fui a primeira governadora, sou a primeira prefeita e, quem sabe, serei a primeira mulher presidente do Brasil." Impossível, cara senhora. Deus é brasileiro, não nos faltará.

21.9.08

contos canadenses - pollo sin papas

Pollo sin papas, por favor. Sorry? Pollo! Sin papas, santo Dios! Sorry? Resolvo inteferir. McDonald`s canadense, cliente espanhola e atendente coreano, não tem como dar certo. McChicken, please. Fries? No, thank you. Gracias, my hija, gracias. Cafe tambien. Claro, coffee, please! Sugar? Azúcar, señora? No, leche, solo leche! Milk, please. Ah, mas como es hermosa! Gracias, muchas gracias! Que es eso, jo que agradieço! A operação se repete com as oito senhoras. Não mencionei? São oito. Todas maquiadíssimas, alinhadas, me olhando como se eu fosse um anjo caído do céu, o que, pensando bem, é exatamente o que eu sou. Já elas o que são e o que estão fazendo sozinhas num McDonald`s a essa hora da noite, sem falar uma palavra de inglês, só Dios sabe. Muitos "hermosas" depois, pego meu lanche e vou saindo quando começa uma confusão. Olho pra trás a tempo de ver uma das senhoras se debruçar sobre o balcão, agarrar o coreano pelo colarinho e gritar, furiosa: pollo, pollo! Mas é uma incompetência mesmo! Faço o pedido em inglês de primeira categoria e nem assim o coreano acerta! O problema não é meu, mas não resisto e volto em defesa das senhoras. Vale a pena. As oitos não contêm a alegria ao me ver. Ah, hermosa, graças a dios! A mais exaltada larga o coreano e vem buscar meu socorro: Jo quiero pollo, pollo! Claro, señora, pollo, claro. Como é que eu peço um McChicken e esse sujeito me traz um... McChicken! Mas então maluca é a mulher! Pede frango, o coitado traz frango e ela quer mais o quê? O raio me atinge certeiro: McNuggets! Nem coreano, nem espanhola, a culpada foi a hermosa brasileira mesmo. Que, não satisfeita, deixou o circo armado e foi comer seu sanduíche bem longhe dali.

contos canadenses - noite de sábado na tv

Aos que sofrem no Brasil, tenho a dizer que noite de sábado na tv canadense é um tédio só. Certas coisas são iguais no mundo inteiro, leitores, não adianta.