5.2.08
boatos, leitores, boatos
Andam dizendo que a cronista foi pular Carnaval na Sapucaí. Boatos, leitores, boatos. Imagina se a cronista ia sair por aí com um saiote que não fechava atrás, ombreira de palha enorme, pescoceira de plumas, lança de mais de dois metros na mão e chapéu de porco ou javali, vai saber. Dá pra acreditar na cronista pegando o metrô toda fantasiada em plena madrugada e andando não sei quanto tempo até chegar à concentração? Francamente, alguém acredita que a cronista ficou uma hora e meia em pé, sem água, sem comida, debaixo da maior chuva, esperando a vez de entrar na avenida? E que se não fosse uma sede insistente nem teria se importado? Dizem que a sede era tanta que a cronista até bebeu água de chuva, mas alguém acredita? Alguém imagina a cronista pulando feito louca na avenida, com o samba no pé e na ponta da língua? Dá pra crer que a cronista nem ligou pras câmeras de tevê e se plantou bem na frente da ala, rebolando pra todo lado e mandando beijos pra arquibancada? E que no final do desfile se disse pronta pra começar tudo de novo, e se não segurassem quase que ia mesmo. Dizem que a essa altura o calor era tanto que a cronista foi jogando lança pra um lado, cabeça de porco pro outro, que ia voltar pra casa sem nada quando se encantou com uma saia de baiana em formato de cavalo, com cabeça e tudo, abandonada por outra foliã. Pois há quem jure que a cronista vestiu o bicho e saiu cavalgando pela dipersão. E que só abandonou o cavalinho porque era grande demais pra entrar no bagageiro do táxi. Bom, pelo menos contam que a cronista voltou de táxi. Andar da Sapucaí até a Presidente Vargas depois de uma maratona daquelas seria mesmo mentira demais. Mas quem inventou a coisa toda garante que a cronista estava inteira e que ano que vem tá lá de novo. Quem quiser pode ir conferir, mas é besteira. Dizem coisas incríveis por aí, amigos leitores, não se deixem enganar. A cronista na Sapucaí? Nem em sonhos, queridos, nem em sonhos.
12.1.08
e viva a incompetência do bandido brasileiro
Não vou celebrar a competência da polícia brasileira. Desculpem, mas tenho minhas dúvidas. Tudo bem que a polícia fez a parte dela e trouxe de volta os quadros levados do Masp, mas, se não fosse a incompetência do bandido brasileiro, não sei, não. A incompetência do bandido brasileiro me mata de vergonha. Onde é que já se viu, quando todo mundo achava que os quadros já estavam longe há muito tempo, eles aparecerem escondidos num subúrbio ali do lado? Haja incompetência! Mas, tendo servido pra recuperar os agora mais importantes quadros do acervo nacional, um viva pra incompetência do bandido brasileiro! O bandido brasileiro pediu um milhão pra roubar os quadros. Obviamente, não sabia o que estava roubando ou teria pedido pelo menos cinco. Pra tudo tem remédio, pensou o bandido brasileiro, que lê jornal - mais um viva pra ele! - e, quando descobriu que os quadros valiam cem milhões, resolveu que por um não entregava, não, queria os tais cinco. Pra quê cinco, bandido brasileiro? Unzinho já garantia a aposentadoria... Mas tudo teria dado certo se o destino não tivesse colocado no caminho do bandido brasileiro outro incompetente: o mandante. O mandante também me mata de vergonha, mas tome lá um viva por conta da volta dos quadros. O mandante ia ganhar não cem milhões em dinheiro, mas um Picasso e um Portinari pra pendurar na sala de estar de seu castelo na Escócia e se fartar de admirar. Que são cinco, dez, vinte milhões diante disso? Mas o mandante preferiu bater pé. Não, cinco não pago. O que conta não é o valor das obras, mas o risco da operação. Esse bandido brasileiro roubou os quadros mole, mole, não enfrentou alarme, polícia, nada. Os quadros estavam lá, pedindo pra ser roubados. Devia era pagar menos, isso sim. O mandante não deixa de ter razão, mas aí se vê, mais uma vez, sua incompetência. Se tivesse se informado sobre a segurança do MASP, teria oferecido no máximo uns cem milzinhos. Foi falar em milhão, foi crescer o olho do bandido brasileiro, deu no que deu. A incompetência do mandante é tamanha que ele nem levou em conta a incompetência do bandido brasileiro. Acabaram os dois agarrados aos quadros, um em cada ponta, puxando pra lá e pra cá. Santa incompetência, qualquer criança sabe que coisa assim não termina bem. O bandido brasileiro dizia paga, o mandante dizia não pago, o mandante dizia dá, o bandido brasileiro dizia não dou, e puxa daqui e puxa dali até que a polícia estourou o cativeiro. Com os quadros reféns do bandido brasileiro por quase um mês, só podia dar nisso, que nessa coisa de estourar cativeiro em subúrbio a polícia brasileira é boa mesmo. Tá certo, me rendo, um viva pra polícia brasileira, que trouxe os quadros de volta pro museu. E agora vamos em massa fazer fila diante deles, que não é todo dia que um Pricasso e um Portinálio aparecem nessas praias e brasileiro é muito ligado à arte. Enquanto isso, o resto do mundo ri da incompetência da nossa bandidagem. Mais um viva pra ela!
6.1.08
réveillon é mesmo em copa
Quem me acompanha sabe que ano passado inventei de passar o réveillon em Ipanema e fiquei lá feito boba esperando uns fogos que nunca vieram, eu e mais meia dúzia de trouxas que também não tiveram réveillon. Pois este ano não quis conversa e fui virar 2006 e 2007 em Copacabana mesmo. O réveillon de Copa não tem surpresa, é sempre o mesmo, sempre igual. Lotado, música insuportável, fogos parcialmente encobertos pelo próprio fumacê, não tem erro. O réveillon de Copa se diz o maior do mundo, mas eu não acredito que seja, não. Réveillon feito ele tem em todo lugar. Vc vai lá com sua família, seus amigos, sempre os mesmos, sempre iguais, tirando este ano um grupo de gringos virgens de Copa (um deles pode estar me lendo agora, então hi, Holden), mas isso também volta e meia tem. À meia-noite (geralmente antes, vai entender essas coisas de Copa) tem aquele fogaréu que parece que não vai acabar nunca, todo mundo de branco pulando ondinhas, uns malucos mergulhando de corpo inteiro, papapá papapá, só que aí é que vc sente - aí, não, desde antes do fogueteio vc já tá sentindo - uma felicidade, uma satisfação de estar lá, uma certeza de que tudo na sua vida vai dar certo não só neste ano, mas na vida inteira mesmo. Isso, queridos, só em Copa. E depois vc ainda sai andando toda tranquila no meio daquele povaréu enorme, que eu nunca vi tanta gente junta e não ter problema. E nem venham me dizer que morreu não sei quem e explodiu sei lá o quê. Réveillon em Copa é quando o carioca desliga o radar, e o que não desliga é porque é bobo. Quem passa o réveillon em Copa sabe que ali é o lugar certo pra encerrar e começar todo ano. Não sei pra que que a gente perde tempo passando em outro lugar. Enfim, faço aqui esse textinho meio atrasado só pra dizer que desta vez ninguém me enrolou. Senhoras e senhores, não adianta, não, réveillon é mesmo em Copa. Quem nunca foi tá esperando o quê?
2.1.08
do que é feita a minha avó
Minha avó tem o pé gordo. Minha avó gosta da casa cheia. Minha avó não pode comer chocolate. Minha avó come chocolate. Minha avó mudou a cor do esmalte. Minha avó tem um jeito engraçado de falar o nome do meu avô. Minha avó chama a Dindinha de Zélia. Minha avó compra presente pra todo mundo. Minha avó me ensinou a bater clara de ovo. Minha avó me deu uma boneca alemã que falava. Minha avó usa broche de borboleta. Minha avó tem oitenta e nove anos. Minha avó faz aniversário dia dois ou três, nunca sei. Minha avó atrai loucos de todos os gêneros. Minha avó faz rabanada. Minha avó sempre acha que a comida não vai dar. Minha avó manda fazer comida demais. Minha avó faz frango só pra mim. Minha avó esquece às vezes. Minha avó só lava o cabelo no salão. Minha avó andou de metrô pela primeira vez comigo. Minha avó jurou que não anda mais. Minha avó nunca andou de ônibus. Minha avó nunca usou jeans. Minha avó nunca teve a chave de casa. Minha avó não come hortelã. Minha avó só faz o que quer. Minha avó me deu o anel de bodas de prata. Minha avó tem casa com terraço e quintal. Minha avó tem seus preferidos. Minha avó tem seus perseguidos. Minha avó fazia audiência de chapéu. Minha avó não faz mais audiência. Minha avó vai ao escritório todos os dias. Minha avó quebrou o braço. Minha avó adora novela. Minha avó dorme tarde. Minha avó ronca. Minha avó é mineira. Minha avó não perde um casamento. Minha avó quer que eu case. Minha avó conta histórias muito bem. Minha avó tem vinte netos. Minha avó é só minha.
23.12.07
cartinha
Papai Noel, se ainda der tempo, queria trocar aquele namorado modelo Gianecchini por alguns dias de sol antes do fim das minhas férias. Se não der, não se preocupe, fico com o Gianecchini mesmo. Papai Noel, gosto muito de vc.
13.12.07
desejo de natal
"Vou ficar acordado até mais tarde pra ver se Papai Noel aparece e me dá um pouco de sorvete de creme." A frase de um menino de rua, numa dessas reportagens de fim de ano, nunca mais saiu da minha cabeça. Entra Natal, sai Natal e eu continuo pensando no menino. Tem mais de vinte anos, mas ainda hoje essa frase me maltrata. Pois vem chegando de novo o Natal e, com ele, o menino. O menino que hoje é um homem, mas que é sempre o meu menino. Onde estará? Vivo, morto, feliz? Quem esperará? O que desejará hoje em dia? O que pensaria se soubesse que passou Natal a Natal comigo? E que meu Natal traz sempre árvore, presente, festa e a dor de que Papai Noel pra ele nunca chegou? Eu e o menino nunca nos conheceremos, mas, como em todo dezembro, já estamos juntos de novo. Que este seja o melhor dos Natais pra ele. Que ele esteja bem, rindo e comendo montes de sorvete de creme. E que Papai Noel, que nunca me falhou, traga de presente este ano notícias do meu menino.
24.11.07
lenda urbana de verdade
A moça bonita entra no bar, prega os olhos na tela e não vê nada além do jogo. Aproveita os intervalos da partida pra mandar uns beijos rápidos pro namorado e é só. É louca por ele, mas a Seleção vem em primeiro lugar. Está vidrada na tevê quando outra moça se aproxima e joga dois copos de cerveja em sua cabeça. A moça bonita não entende nada, sobretudo quando a outra moça diz: "é pra vc aprender a não fazer mais isso!" Isso o quê, pensou a moça bonita e agora encharcada, que nunca tinha visto a outra antes. A outra moça perde a paciência de vez. Levanta-se, pega dois copos cheios de cerveja e parte pra dar uma lição na moça bonita. Vira tudo na cabeça dela, sem ligar pro bar lotado e, diante da cena, calado. Ainda se dá ao trabalho de explicar: "é pra vc aprender a não fazer mais isso!" E sai, satisfeita. O rapaz na varanda bate com o olho na moça bonita dentro do bar e mal se contém. Tenta se concentrar no jogo, disfarça, xinga o juiz, mas não consegue parar de olhar pra ela. É ataque, moça bonita, escanteio, moça bonita, tiro de meta, moça bonita. Chega a perder o gol por causa da moça bonita. E a danada retribui. Finge que só quer saber do jogo, mas volta e meia lança uns beijos rápidos pro radiante rapaz. É bom que sejam rápidos mesmo, ele pensa. Já pensou se a Maria vê?
20.11.07
vovó não perdoa
Vovó se diz ofendida com Fulana, amiga de longa data. É que não foi convidada pro aniversário da netinha dela. E a senhora queria ir, Vovó? Claro que não, mas a Fulana tinha a obrigação de me chamar. Não adianta argumentar que a Fulana lhe fez foi um favor, que ninguém aguenta festinha infantil, e ela bem sabe que a Vovó nem tem criança pra levar. Não, Vovó ergue o dedo, interropendo a defesa. A Laura também não tem e foi convidada. Foi mesmo desconsideração da Fulana, não tem desculpa. Não adianta discutir, Vovó tem sempre razão. E, de mais a mais, tem o direito de se ofender com quem quiser. Vovó conta também que foi convidada pelo filho da Fulana pro batizado da caçula. Tá vendo, Vovó, o problema era mesmo o incômodo da festinha, pro batizado a senhora foi convidada. Mas aí foi o Fulano, não a Fulana. Ele, sim, rapaz muito educado, sempre gentil comigo, vou mandar um belo presente. Como mandar, a senhora não vai? Ah, não vou, não, o Fulano é filho da Fulana. Ela não me prestigia, também não prestigio o batizado. Aí é caso de falar de advogada pra advogada: mas, Vovó, a senhora sabe que ofensas são personalíssimas, não se transferem de mãe pra filho. O argumento jurídico não vale de nada. Ofendeu, Vovó não perdoa nem a última geração. Manda entregar uma medalhinha de prata e dá o assunto por encerrado.
31.10.07
a copa do mundo é nossa
A novidade estourou com tudo: Brasil, Brasil, a pròxima Copa do Mundo é no Brasil! As pessoas comemoram pelas ruas, os fogos explodem, a euforia é total. Antenada, a brasileirinha recebe a notìcia em tempo real e não faz por menos. Sobe na cadeira e grita, pro café todo escutar: Brasil, Brasil, é o Brasil, mesdames et messieurs! È isso aì, rapaziada! A multidão não enlouquece, como a brasileirinha esperava, mas e daì? Brasileiro sozinho faz a festa. Brasil, Brasil, grita sem parar a brasileirinha, batendo no coração verde e amarelo. E tanto fez que acabou num hospiciozinho parisiense. Em St. Germain, tà, que a brasileirinha pode ser louca, mas de boba não tem nada. Vai voltar pra ver a Copa, é claro, mas até là, sò pra garantir a hospedagem gratuita, de vez em quando sobe numa cadeira e manda uns Brasiiiiil, Brasiiiiil, que hotel em Paris é muito caro.
ps. A brasileirinha acorda de madrugada com o texto na cabeça. No meio da brincadeira, a carga da caneta acaba, mas a brasileirinha não se dà por vencida e parte pro làpis de olho. Com brasileiro não tem quem possa, mesdames et messieurs!
ps. A brasileirinha acorda de madrugada com o texto na cabeça. No meio da brincadeira, a carga da caneta acaba, mas a brasileirinha não se dà por vencida e parte pro làpis de olho. Com brasileiro não tem quem possa, mesdames et messieurs!
16.10.07
dos tempos da vovó
Essa é dos tempos da Vovó. A mulher vinha andando pela estrada de terra, com a marmita do marido na cabeça, quando ouviu um barulho inédito. Virou pra trás e viu dois olhos esbugalhados e brilhantes, abrindo alas pro bicho enorme que avançava pra cima dela. Vai me comer, pensou a mulher, e disparou mato adentro. Ficou lá, agachada atrás de uma árvore, tentando descobrir que bicho era aquele. Era um dragão. Mas isso digo eu, que a mulher nunca tinha visto dragão nenhum pra saber. Era um dragão furioso, que rugia e ameaçava quem aparecesse pela frente. Não com fogo, é verdade, mas com buzinadas realmente de assustar. Mas isso digo eu, que a mulher tratou foi de ficar bem quieta pra não atrair a fera. Foi encontrada só no fim do dia pelo motorista do bicho. Tinha comido a marmita.
6.10.07
barriga bonita
Camila pára no meio da sala, encara Mauro e levanta a blusa. Mauro olha pra Camila, morenaça com quem o filho vem saindo. Barriga bonita, pensa, mas logo desvia o olhar. Camila é do filho. Dá o assunto por encerrado, mas bate com o olho na barriga e reconsidera. Pensando bem, os dois saíram só algumas vezes, são quase estranhos. Se ela agora me prefere, fazer o quê? Aí lembra que é pai, que pode tudo menos magoar o filho. Olha de novo pra barriga. Toda durinha, dando vontade de pegar. Vai quase pegando mesmo, mas contém o gesto. Sair já é um passo pra namorar, daí pra casar é um pulo. Que estranha, nada. Camila é quase sua nora, isso sim. Melhor acabar com a brincadeira, antes que Camila se empolgue e aí sabe-se lá onde isso vai dar. Abaixa a blusa, menina, vc vai casar com o meu filho. Como o senhor adivinhou? Tá vendo, eu sabia. E fica aí me mostrando essa barriga? Abaixa a blusa, anda. Primeiro o senhor tem que pôr a mão. Que é isso, a gente não pode. Pode, sim, o senhor tem que sentir. Pai nenhum é de ferro e Mauro acaba agarrando a barriga de Camila, que sorri e diz: Paulo, diga oi pro vovô!
5.9.07
mas, vovó...
Uma senhora nos aborda no meio da rua se dizendo caixa do banco da Vovó. Conta que está com um problema de dinheiro, pergunta se a Vovó não pode dar uma ajuda, promete devolver tudo direto em conta. Vovó não nasceu ontem. Tira a espertalhona de letra. Trabalha no banco, é? E em qual caixa? No onze? Ah, sim. E o que houve com seu dinheiro? O marido bebeu? Coitada, marido que bebe é um castigo. Não, não chore, senhora. Senhora? Ângela, ah, sim, prazer, Sra Ângela. Bom, de quanto a senhora precisa? (Vovó começa a me deixar nervosa) Quinhentos? Ah, que pena, só tenho trezentos. Já ajuda? Então está ótimo. Só um minutinho, sra Ângela, o fecho desta bolsa é muito difícil. Me ajude aqui, minha filha. É hora de interferir: mas, Vovó... ( Vovó me interrompe com um cutucão) Vamos, menina, a Sra Ângela está esperando. Mas, Vovó... ( Vovó me interrompe...) Pronto, sra Ângela, aqui está. Mas, Vovó... ( Vovó me ...) Pague quando puder, não se preocupe. Passe lá em casa depois para um chazinho. Vcs têm meu endereço no banco, não? Então até breve, sra Ângela. Mas, Vovó... (...) Vovó! Como é que a senhora entrega seu dinheiro pra uma desconhecida? Desconhecida, não, eu e a sra Ângela somos amigas. Amigas de onde, Vovó? Do banco, ora. Mas, Vovó, o banco não tem caixa onze! Não tem? Ué, então em que caixa a Sra Ângela trabalha? Não trabalha, Vovó, a sra Ângela é uma golpista. Vovó nem se importa: bom, tomara que ela passe pro chazinho mesmo assim.
25.8.07
nem tanto
A madame esquece os chocolates no táxi. Foram comprados na esquina, não na Suíça ou na Bélgica, mas a madame não se conforma com a perda. Entra em casa afobada, corre pro interfone atrás do motorista. Tarde demais, mas a madame não se rende. Determinada, liga pra cooperativa, relata o ocorrido, se descabela. Só sossega quando a telefonista promete que o motorista vai voltar mais tarde pra entregar o tesouro. Obrigação dele, ela diz. Quem mandou não verificar se a cliente tinha esquecido alguma coisa? Passada uma hora, a madame, sem dar ouvidos à turma do deixa disso, telefona de novo. A telefonista atende e ela explica que é Glória, a dos chocolates, que está querendo saber quando é que o motorista vem. No fim do expediente? É que meus filhinhos estão aqui chorando, se recusam a dormir sem os chocolates que a mamãe ficou de trazer. Dá pra me dar o celular dele? Obrigada, assim eu mesma acerto tudo. Não vai ficar com meus chocolates, resmunga, enquanto telefona. Alô, seu Antônio, é Glória, a dos chocolates. É que meus netinhos estão aqui chorando... Netinhos! Filhinhos pra desconhecida, netinhos pro conhecido. É, parecia que os chocolates tinham acabado de vez com o juízo da madame, mas nem tanto, nem tanto.
7.8.07
timidez
Maria chega radiante, exibindo as rosas que ganhou de Pablo com um cartãozinho anônimo. Não foi ele, retruco. Como é que vc sabe? Tenho certeza. Pois eu é que tenho certeza de que foi ele. Tem como, se o cartão não está assinado? Porque o Pablo, ora, só o Pablo pra me mandar rosas. E sem nem assinar, tão romântico! Pois eu aposto que não foi ele, tanta gente pra te mandar flores. Quem, por exemplo? Ué, por exemplo, só por exemplo, eu. Vc, e a troco de quê? Pronto, agora romantismo é exclusividade do Pablo, é isso? Claro que não, mas daí a dizer que foi vc já é exagero. Eu sei, eu avisei que era só um exemplo, até porque se eu fosse mandar flores pra uma mulher compraria logo dúzias e dúzias e não um buquezinho mixuruca feito esse. Muquirana como vc é, duvido. Pois eu é que duvido que tenha sido o Pablo. Pode duvidar o quanto quiser, foi ele. Pablo aparece. Maria, encorajada pelas rosas, pula em seu pescoço. Me afasto pra não ver a cena, amassando no fundo do bolso a nota da floricultura.
28.7.07
ser balzaquiana
Ser balzaquiana não é não arranjar mais um namorado após o outro. Ser balzaquiana não é não ser páreo pra um bando de menininhas que só ganham de vc no quesito juventude e olhe lá. Ser balzaquiana não é ser chamada de tia pelas tais menininhas - e os respectivos meninões. Ser balzaquiana não é ter que ouvir toda hora a mãe contar que a filha da Fulana também casou, só falta mesmo vc. Ser balzaquiana não é engolir o olhar de pena das pessoas quando descobrem que vc ainda é solteira, ou melhor, que vc é solteira, que solteira balzaquiana não desencalha mais, não. Ser balzaquiana não é saber que ninguém acredita que vc é, caramba, uma solteira feliz. Ser balzaquiana não é, consequentemente, ter toda hora alguém com um amigo “perfeito pra vc” pra te apresentar. Ser balzaquiana não é sentir o mundo todo numa só vibração: “case, case, case”. Ser balzaquiana não é a avó, desesperada, te empurrar pro padeiro, caixeiro, cachaceiro, o que vier. Ser balzaquiana é ouvir a mesma avó perguntar por que vc não namora o Fulano, sendo o Fulano o priminho que vc ajudou a criar. Ser balzaquiana, queridos, é o fundo do poço.
12.7.07
a pessoa certa
Fugindo da agitação, a avó se instalou numa mesinha escondida. De lá, não via a pista de dança, mas conseguia acompanhar bem o movimento no salão. Quase não viu os noivos, por isso estava ansiosa para assistir ao vídeo da festa. Toda a família se reuniu para o evento e a avó não disfarçou o orgulho ao rever o neto, lindo, esperando a noiva no altar. Saboreou novamente a saída da igreja, os cumprimentos, o discurso do noivo, esquecendo-se dos pais, ela vibrou, para declarar que não seria ninguém sem a avó querida. Tinha feito mesmo um bom trabalho. Ali estava o neto, advogado em plena ascensão, casado com uma moça fina, de boa família, linda. O vídeo começou a mostrar o que a avó, do seu canto, não tinha visto. Os noivos abrindo a pista de dança, os aplausos dos amigos, uma beleza. O encanto não durou muito. Rapidinho, a noiva se revelou. Dançava sensualmente, rebolava, lançava olhares fatais pro noivo, que, sem alternativa, sorria e balançava os dedinhos, como se estivesse aprovando o espetáculo. Disfarçava, mas por dentro estava morto, a avó sabia. Aquilo não era moça pra ele. Despudorada, a noiva parecia esquecer que estavam no meio da festa e não na intimidade da lua-de-mel. Apertava o noivo, se oferecia toda, uma vulgaridade. A avó admirou a classe do neto, tentando manter a pose diante do furacão. Ah, se tivesse visto na hora, teria interrompido o vexame, esclarecendo logo aos convidados que o neto tinha cometido um erro. Erro quanto à pessoa! Era isso, a avó pensou. Advogada renomada, conhecia de cor o Código Civil : " Art. 1556. O casamento pode ser anulado por vício da vontade se houve por parte de um dos nubentes, ao consentir, erro essencial quanto à pessoa do outro. Art. 1557. Considera-se erro essencial quanto à pessoa do outro cônjuge: I – o que diz respeito à sua identidade, sua honra e boa fama, sendo esse erro tal que o seu conhecimento ulterior torne insuportável a vida em comum ao cônjuge enganado." Começou a tramar a anulação do casamento, que era evidente que o neto não poderia viver com uma noiva como aquela. Passou a observar o vídeo com ainda mais interesse, registrando os momentos que ajudariam a demonstrar o terrível erro. A noiva se exibia, dava tudo. A avó, com o plano em mente, adorava. Muito bom, chegou a exclamar em voz alta, enquanto a noiva descia até o chão. Era o suficiente, a avó pensou, juiz nenhum deixaria de reconhecer que aquela era a pessoa errada. O câmera filmava os convidados, alguns visivelmente chocados. Lá estava a Raimunda, tão chique, com aquela idade toda, a Isabela, bastante elegante, quem diria, a mãe do noivo, linda de morrer. Nisso aparece o casal novamente. A noiva, já de chinelos e ainda se acabando e o noivo... O noivo com um olhar feroz, a gravata na cabeça, pingando de suor enquanto ensaiava uns passinhos. Nada grave, a avó se tranquilizou, efeito passageiro do mau exemplo da noiva. Com o tempo, porém, o escândalo do noivo foi deixando o da noiva muito pra trás, que noiva se exibir é uma coisa, noivo é outra. O noivo se contorcia inteiro, rebolava levantando as perninhas, arrancava risos da platéia. Para horror da avó, não se limitava a dançar com seu par, como a noiva fazia. Ia puxando as convidadas e rodopiando com uma após a outra. Depois voltava pra noiva, agarrava, dava uns beijos abusados que nem na novela das oito tinha igual. Ah, se tivesse visto na hora, a avó teria interrompido o vexame, dando umas boas palmadas no neto bem no meio do salão. Terminada a sessão, a avó abriu os braços pra noiva e disse: vc é perfeita pra ele, querida! Seja bem-vinda à família!
24.6.07
a número um
A neta explica pro produtor, marido da amiga, que a avó tem oitenta e um anos, que é louca pelo Rei, que daria tudo pra conhecê-lo e sabe-se lá quanto tempo mais ela vai viver, poxa, quebra esse galho. Com isso, consegue a pulseirinha pra entrar no camarote depois do show. A avó mal se aguenta de emoção. Manda lavar o blazer azul, que ela que não é boba de visitar o Rei com outra cor, mal dorme na véspera, fica pronta às três da tarde e às seis já quer sair, mesmo morando ali na esquina. Chegam com duas horas de antecedência, mas a avó não tira os olhos do palco, como se o Rei fosse aparecer a qualquer minuto. No que as mesas vão sendo ocupadas, a neta espalha pra todos que a avó é a fã número um do Rei e que hoje, graças a ela, vai encontrá-lo. A avó, meio encabulada, diz que não queria dar trabalho, mas que a neta é mesmo muito especial, qual outra enfrentaria aquele programa só por causa dela? A neta, modesta, diz que não se importa, que o que interessa é a felicidade da avó. O show começa e a avó parece que entra em transe. Pra despertá-la, a neta de vez em quando grita uns eu te amo, Rei. A avó não deixa de acompanhar, aos gritos de eu também! Quando o Rei ataca de Jesus Cristo, a neta avisa que é hora de partir pro camarim. A avó ainda resiste um pouco, porque sair de show do Rei sem pegar uma rosa no final é o mesmo que não ir, mas acaba concordando. Vai ganhar rosas no camarim, a neta lembra, e ainda fotos, beijos, tudo que uma fã de oitenta e um anos merece. De fato, o Rei recebe a avó com todo o carinho, conversa, beija, abraça. A neta, comovida, acompanha a cena. Quando a avó, dando-se por satisfeita, resolve ir embora, a neta pula no pescoço do Rei. E agradece a gentileza, e diz que não esperava que ele fosse perder tanto tempo com uma senhora, que só um rei como ele mesmo. E enquanto vai falando, vai se enroscando no Rei. Sorri pra ele, conta que a avó anda viciada em Emoções, mas já teve fase de ouvir Cavalgada sem parar. Muito boa música, Cavalgada, suspira. Começa a cantarolar baixinho: Vou me agarrar aos seus cabelos, pra não cair do seu galope... E alisa a cabeleira de chapinha do Rei, que sorri meio de lado e repete seu brigado, brigado, sem ousar se mexer. Quando, mais empolgada, resolve mordiscar a orelha real, ameaçando cavalgar por toda a noite, o Rei faz um discreto sinal pra um segurança e acaba com a festa. A neta sai arrastada, mas da porta ainda grita: Não adianta nem tentar me esquecer, Rei, um grande amor não vai morrer assim. E vão-se embora, ela e a fã número dois.
14.6.07
a verdadeira prova
Catarina resistia, mas Vítor queria porque queria uma prova de amor. Mal ela entrava no fusquinha azul bebê, Vítor começava a lengalenga. Vc me ama? Claro que sim, amor. Então prova. Mas, Vítor, vc tem dúvida? Vítor ignorava a pergunta: se vc me ama, prova. Aí era um tal de beijo pra cá, abraço pra lá, Catarina pedindo menos, Vítor pedindo mais... As juras de amor de Catarina não serviam de nada, Vítor não abria mão da tal prova. Toda noite era igual. O fusca azul bebê estacionava, Catarina entrava e Vítor exigia a prova. A moça não cedia, o rapaz não desistia e no encontro seguinte a agonia recomeçava. E assim termina a história, sem que se saiba se Catarina se rendeu ou não. Agora, que ela amava Vítor, lá isso amava. Amava tanto que nunca explicou que aquela que ele queria era uma prova menor. A maior ela dava todos os dias: desfilar, diante da vizinhança inteira, num fusquinha azul bebê.
6.6.07
o último romântico
O Pablo é mesmo um romântico. Liga o som e encosta o celular pra namorada ouvir. Tem coisa mais romântica do que botar música melosa pra tocar por telefone? O Pablo é mesmo muito romântico, mas já está exagerando. Pô, Pablo, vc tá aí há uns cinco minutos, a menina vai cansar. Vai nada, deixa ela. E continua lá, todo bobo. Uns dez minutos depois, finalmente fala: alô, Taís, só mais um pouquinho, já vou falar com vc, tá? Taís? Sua namorada não se chama Joana? Chama, mas não tô falando com ela, não. Essa é a Taís, atendente da Claro. Mal contendo a alegria, Pablo cola novamente o celular no rádio e comenta: pena que tá tocando essa musiquinha, tinha que ser um pancadão. Tinha.
26.5.07
palmas pra ela
O carro de som estaciona no meio da rua. Os manifestantes, líderes disso e daquilo, vão se revezando ao microfone. Esbravejam, esbravejam, enlouquecem a indefesa vizinhança. No que a confusão parece diminuir, chegam mais quatro ônibus, um deles trazendo o ídolo máximo da multidão, sindicalista velho de guerra. Mal começa seu discurso, morre de tiro certeiro. No jornal da noite, as teorias conspiratórias se multiplicam. Analistas, artistas, astrólogos, vêm todos opinar. Acusam situação, oposição, forças ocultas, ninguém escapa. Pois erraram feio. Descobriu-se depois que a assassina era uma mulher qualquer, que de política queria distância. Vinha suportando bem quatro horas de manifestação, mas se descontrolou quando ouviu o quadragésimo nono companheiros e companheiras! Decidida a viver seu dia de fúria, buscou a espingardinha do marido e disparou. Nada mais natural. Essas passeatas enlouquecem mesmo a pessoa, deixam no chinelo as mais mirabolantes torturas chinesas. As palavras de ordem, as buzinas, as musiquinhas transtornam qualquer um. Ou vc adere e sai pra rua e pra luta, ou perde o juízo e atira. Calma, ninguém aqui defende a violência, que fique claro. Repitamos juntos: violência, não, violência, não, violência, não! Dito isso, vamos ser francos, palmas pra ela.
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