24.12.18

Natal no dia 22

O Natal veio mais cedo este ano e Papai Noel chegou cheio de energia. Os Papais Noéis da vida toda, da casa da Vovó, eram diferentes.  
Às vezes gordos e velhinhos, às vezes magros e jovens, mas sempre apressados. Compreensível, já que na véspera de Natal de verdade Papai Noel fica mais atarefado mesmo. Só na Vovó, mesmo distribuindo presentes em ritmo frenético, devia ficar quase uma hora. Considerando que depois ele ainda tinha muitos netinhos pra visitar, a coisa tinha que ser corrida mesmo. Na verdade, o Natal da Vovó sempre foi também corrido. Era uma maratona, uma multidão passando a toque de caixa pelas etapas do Papai Noel, amigo oculto, distribuição de presentes em geral, jogral, até finalmente chagar na recompensa, a sempre farta ceia de Natal. Os Natais atuais têm outro ritmo, tudo suave, devagar, grupo pequeno, pressa pra quê? Mas os Papais Noéis não perderam o pique, continuam acelerados. O deste ano, não. O deste ano, jovem e forte, desprezou a cadeira que foi prontamente trazida para ele se acomodar e ficou em pé, discursando, explicando o sentido do Natal, respondendo as perguntas das crianças, que na falta de presentes acabaram entrando na dança e tirando as dúvidas natalinas. Por que Papai Noel só vem no final do ano? Por que ele traz presentes? Ele tem instagram? Sim, mas cuidado porque essas tecnologias afastam a família e o importante é o amor, Papai Noel respondeu. Acho que a criançada até estava curtindo, mas pra quem foi criada vendo Papai Noel chegar, sentar, entregar um presente após o outro sem parar e dar no pé rapidinho, a cena foi cômica demais. Chorei de tanto rir pra dentro, tentando não cortar o clima, nem atrapalhar a performance exemplar do Papai Noel. Depois de muito discursar, finalmente Papai Noel entregou os presentes, mas nem por isso foi embora. Circulou pela festa, tirou fotos com os adultos, bateu papo, comeu uns salagadinhos, se esbaldou. Quando afinal foi embora, ninguém prestava mais atenção nele, ninguém se despediu, todos entretidos com seus presentes. Papai Noel pode ter vindo diferente este ano, mas as crianças são sempre iguais. 

22.5.17

Vai dar cadeia ou não vai?


Que paspalhões somos nós! Assistimos  ao noticiário comendo pipoca, em clima de delação é a melhor diversão, vamos ver quem vai preso hoje, façam suas apostas. 
Nos deleitamos quando algum figurão vai pra cadeia, quem é que ia imaginar um homem desses preso, os tempos são outros e tal e tal. Oba, vazou a delação do fulano, caiu o sigilo, liberaram os áudios, agora não sobra ninguém. Fascinados com os bandidos presos, não nos importamos com o outro lado da bandidagem andando solta por aí. Nada como uma vazamentozinho pra animar o dia, é verdade, mas seria bom se vazassem também os termos das delações. Como vai funcionar a redução das penas? Os delatores vão pra cadeia ou pra casa? Alguém vai ficar preso, afinal? Por que não fazem um powerpoint contando tudo pra gente? Talvez porque com isso a gente veja menos graça nesse negócio de delação. Claro, tem delator que merece prêmio mesmo, merece até estátua em praça pública, mas se a manada toda for premiada, quem sobra? Quem vai cumprir pena direitinho, dividir cela, gastar a vida trancado? Quem vai pensar que talvez, talvez, não tenha valido a pena? Só os delatados? Vai ser essa a justiça? Os delatados ficam presos e os delatores batem perna por aí? Botamos uns políticos na cadeia, damos um fora nos velhos caciques, e aí? O Brasil tá desinfetado, vai ser tudo diferente? Os novos políticos não vão ser corrompidos pelos mesmos ladrões que corromperam e continuam corrompendo a velha guarda?  Sei não, hein. O sangue é novo, mas a carne é fraca, o olho é grande e dinheiro bom é dinheiro no bolso. Ou vai todo mundo em cana, ou não tem jeito, não. Claro, bandido a gente sabe como é, cai um, entra outro e nunca desliga, mas pelo menos zera o jogo, entra time novo em campo. Se não for assim, muito em breve vamos ver os mesmos delatores premiados fazendo nova rodada de delações. E lá vamos nós de volta pra frente da televisão. 

8.2.17

barão

A casa da minha avó, a Barão, foi onde nós crescemos.  Só alguns moraram lá, mas era a casa de todos nós. Era a casa do encontro, sempre aberta, sempre viva. Tudo era pretexto pra festa. Natal, aniversário, alguém chegando de viagem, alguém indo viajar. Todo jantar era um banquete. A mesa enorme, com os pratos preferidos de cada um. A multidão, a algazarra. Era também a casa das coisas pequenas. De chegar sem avisar, deitar no sofá da sala até alguém mais aparecer pra conversar. De subir a escada e encontrar a vovó assitindo à novela que ela dizia que não acompanhava. De ouvir lá de baixo a tv nas alturas, como o vovô gostava. De entrar no quartinho do escritório pra ver os álbuns antigos que ficavam guardados lá. De andar descalça no quintal de pedrinhas. De comer soldadinhos, que a vovó fazia com pão picado e feijão. Do portão de madeira, da porta de ferro, da parede de azulejos. De tanta coisa, tanta alegria. 
Depois da vovó, a casa precisou de outro dono. Entre o prédio e a creche, venceu a creche. A casa ficou de pé, melhor assim. Cheia de crianças, como sempre. Reformada, dava pra ver da rua, mas continuou lá. Agora, por coincidência, ou sorte, ou amor, virou a creche do meu sobrinho. Vejo sua foto chegando no primeiro dia de aula. No carrinho, carinha desconfiada,  pequeno demais pra saber que estava na casa da bisavó. Ao fundo, a porta de ferro, inconfundível, eterna. A porta ficou. Pedro vai passar por ela todos os dias. Meu sobrinho também vai crescer na casa da minha avó. 

24.12.16

à nostalgia futura

Dá até preguiça de falar que Natal é tempo de nostalgia e melancolia. Parece que é o que mais e mais gente sente e diz. E com razão. Não tem mesmo como deixar de sentir falta daqueles Natais passados, da casa da avó cheia de gente, daquela multidão que juntava família enorme, amigos e agregados, da maratona que era a festa, passando por amigo oculto, jogral, Papai Noel, tudo em ritmo acelerado, até, ufa, chegar no jantar, na mesa imensa coberta de delícias, na hora de relaxar e aproveitar a companhia uns dos outros até todo mundo ir embora, que Papai Noel só deixava presente no sapatinho de quem dormisse em casa. Enfim, não dá mesmo pra não sentir falta daqueles Natais. Mas a saudade, como a vida, anda pra frente. No futuro, é dos Natais de hoje que sentiremos falta. Destes Natais sem tradição, sem casa certa pra acontecer, de famílias pequenas, de tanta gente faltando, destes Natais em que a maratona não é pra cumprir todas as etapas da festa, mas pra comprar presentes pra quem nem importa, só por obrigação, só pra chegar na grande noite e aí, o quê? Nada. Falta alegria, falta sentido, nem parece que é Natal. Ainda assim, no futuro, estes serão os melhores Natais. Porque a nostalgia, muito esperta, vai trocando saudades antigas por novas e guarda só o que é bom.  Os Natais de hoje, sejam felizes ou não, serão lindos lá na frente. Por isso, mais do que com bolas e luzes, enfeitemos desde já este Natal com a beleza e a saudade que virão do futuro.

26.11.16

Fidel Noel

Fidel morreu. Pensei em escrever sobre Fidel, mas me lembrei de Papai Noel e o texto desandou. A associação é inevitável. Os dois têm barbas brancas, os dois vivem em terras longínquas e fantasiosas, os dois andam magrelos, Fidel por lamentável doença, Papai Noel porque a coisa tá feia e os modelos mais gordos e bochechudos são caros e cada vez mais raros. Os dois quase não falam, se bem que Papai Noel nunca passou de hohoho, já Fidel, enquanto pôde, torturou os ouvidos do povo por horas e horas, anos e anos, décadas e décadas. Os ouvidos y otras cositas más.
Agora, a coincidência final uniu os dois ainda mais. Fidel se foi quando Papai Noel vem chegando. Fidel se foi enquanto Papai Noel e os duendes embrulhavam presentes, e capitalistas do mundo inteiro corriam pras lojas pra comprar o que podiam e o que não podiam. As coincidências acabam aí. Pra Papai Noel, o Natal vai ser o de sempre, sempre novo, sempre igual. Pra Fidel, evidentemente vai ser muito diferente, talvez azul, cheio de nuvens e anjos, talvez vermelho e quente, cheio de diabinhos, vai saber. Pros inimigos da revolução, não muda nada. Pro pessoal lá da ilha, não sei se o Natal muda muito, não sei se vai ter Papai Noel, mas é certo que não vai ter bicho papão. Fidel morreu. Papai Noel vive. Tchau, Fidel. Vem, Papai Noel.

12.11.16

insônia

Na insônia, passeio pela minha fazenda. É raro ter, insônia. Quando tenho, não sei bem o que faço dela. Já sei que não adianta a agonia, já sei que às vezes é melhor levantar e ler até o sol raiar, esperando que cedo ou tarde o cansaço me vença. Isso depois de ter tentado o relaxamento, que começa das pontas dos dedos e vai subindo pelo corpo, e geralmente na altura das coxas já me faz dormir. Assim vinha levando a insônsia, até ter o estalo de gênio. Vou passear pela minha fazenda. Vou refazer o caminho que eu fiz tantas vezes, que sempre quis gravar e só gravei quando estive lá pela última vez, sabendo que ia ser a última vez. Gravei no vídeo e, hoje sei, na alma. Comecei antes de virar na placa, passei pela figueira, dei uns passos e parei. Fui girando e gravando o que via pelos lados, pelas costas, depois andei mais, parei, girei de novo. O cenário variava pouco, mas os ângulos iam mudando, formavam quadros, formavam fotos diferentes. Fui em silêncio, ouvindo os barulhos, gravando meus passos, vendo os bichos, passando pelo curral, chegando no bambuzal, nas cocheiras, na praça, parando e girando. O cenário aí já era outro, a lagoa na frente, mais cocheiras e pastos, a subida pra casa, a placa lá embaixo, lá no fundo, e o caminho já percorrido. Passo pela outra placa, pelo riachinho seco, as flores dos dois lados, a cerca gasta, as pedras, o jardim, orgulho da vovó, o jardim. Dali, de novo a lagoa, o pasto, a entrada de casa. Não chego a entrar, durmo antes. A sala e os quartos visito só no dia seguinte, quando acordo. É bom ter insônia. Na insônia, passeio pela minha fazenda.

25.2.16

satisfação

Cheguei perto com cuidado, olhei o corpo e as patas à procura das tais listrinhas. Nada. Ainda assim, como não sou boa de vista, tenho instinto sanguinário e detesto picadas de modo geral, não ia desperdiçar a oportunidade. É hoje pensei, é hoje que acabo com ele. Há dias eu o procurava, mas o desgraçado fugia, sumia, se camuflava, me deixava com cara de idiota no meio da sala, vasculhando todos os cantos à toa. E agora lá estava ele, vítima indefesa, pregado bem no meio da parede branca. Mesmo assim, era preciso agir com cautela. São espertos, os da raça dele, um deslize e já era. Planejei o ataque com pressa, sem tirar o olho dele. É preciso usar um objeto grande e firme e dar um golpe rápido e forte, me lembrei do namorado, caçador de mosquitos experiente e bem-sucedido. Mas eu estava no trabalho, sem um jornal, sem um objeto que se encaixasse nas especificações. E mais, sendo a sala toda de madeira escura, se perdesse a chance sabe-se lá quando ia ter outra. Parti pra cima com o que tinha: dois guardanapos usados pra comer um sanduíche. Pequenos, molengos, mas guerra é guerra. Falhei, claro. O bicho saiu voando, rindo da minha cara. Ah, mas o sangue me subiu à cabeça. Não vai ficar assim, não, infeliz. Se não foi com os guardanapos, vai ser com as mãos mesmo. Sou boa nisso até, volta e meia acerto.  Saí rodopiando pela sala, batendo palmas sem parar, acompanhando o voo frenético do mosquito. Mosquito burro, pousou de novo. Pensou que estivesse livre do perigo, né? Ledo engano. Ou vai ver ele estava só brincando comigo, confiante e abusado como os mosquitos geralmente são. O grau de dificuldade havia subido, ele agora estava estacionado em uma lâmina fininha de uma persiana de alumínio, que ainda por cima oscilava por conta da proximidade com o ar-condicionado. Só um golpe muito ninja mesmo daria conta daquilo. Foquei, respirei, era tudo ou nada, tipo final olímpica. Bati a palma mais forte, mais concentrada que consegui. Medalha de ouro. Cortei o dedo, mas valeu. O Brasil pode estar perdendo a guerra pro aedes, mas comigo não tem disso, não. Matei.

31.3.15

isabel

Isabel era a única pessoa no mundo que podia falar palavrões na frente da Vovó. Não um ou dois, mas uma enxurrada.Vovó nem se importava. Vindo dela, podia. Ela falava numa velocidade incrível, difícil de acompanhar. Chegava sem aviso, entrava pela casa feito um furacão, e lá vinha Vovó escutar a falação e morrer de rir das bobagens dela. Estou ficando cansada, Vovó cochichava lá pelas tantas e escapulia pro quarto. Isabel nem notava, continuava falando pra quem estivesse por perto. Quando não sobrava ninguém, ficava lá sozinha, esparramada no sofá, sem sapatos, roncando alto. Isabel era de casa. Era extravagante, andava cheia de badulaques, não tinha modos. Para os pequenos, era fascinante, parecia de outro mundo. Era decoradora e bastava entrar numa casa pra sair mexendo nos móveis, trocando tudo de lugar como se fosse dela. Todo mundo adorava. Tinha o hábito, mais tarde adotado por Vovó, de bater o telefone na cara da gente quando dava o assunto por encerrado. Ela era assim, sempre acelerada. 
Sem Vovó, nunca mais vi. Às vezes, ouvia notícias, nunca boas, sempre piores. O fim de vida foi solitário e lento. A notícia de hoje, então, não sei se é boa ou ruim pra ela. O fato é que ela se foi, acabou-se a história. Deixo o meu adeus à inesquecível senhora dos cabelos de três cores.


27.2.15

estamos juntos, companheiros



Depois que o presidento Lula deu o exemplo, é a vez do presidente do PT carioca mandar a militância dar porrada. Não se sabe bem em quem, já que esse partido anda meio esquisito, mas deve ser nos descontentes e não na presidenta, que bem ou mal ainda carrega a estrela no peito. O resultado da pancadaria é imprevisível. Os descontentes são a esmagadora maioria, mas a militância é vermelha, cor de sangue, não desiste nunca. Além disso, os militantes vêm mesmo pra bater, enquanto os descontentes querem só protestar. Tá bom, só protestar, não. Os descontentes também querem derrubar a presidenta. Do poder, companheiros. Não no chão, pra dar porrada. Não que ela não mereça umas boas lambadas, mas se tomar o rumo de casa já deixa os descontentes bem contentes. Bom, os times estão definidos, embora alguns militantes descontentes oscilem um pouco. O circo está se armando. Logo, logo, a batalha começa. Quem vencerá? Pouco importa, já que vamos acabar todos no fundo do mesmo buraco.

16.11.14

nunca falha

A agulha nunca falhava. Acertava o sexo e o número de filhos de qualquer mulher que testasse. Se balançasse pra frente e pra trás, era menino. Se o movimento fosse circular, era menina. Se ficasse parada, não adiantava chorar, era sinal de que a pessoa não tinha filhos, nem ia ter. Quando chegou a vez da mãe, a agulha girou sem parar. Era menina! A mãe já sentia e agora estava confirmado. Só pra provar que a agulha estava certa, fez um exame de sangue logo no primeiro mês. Deu menino, sinal de que esses exames não valem nada. A mãe não se abalou. Em primeiro lugar, exame nenhum é 100% seguro e 0,001% faz muita diferença. Além disso, a mãe tinha um filho de seis anos e era claro que o sangue ainda tinha vestígios de macheza. Acima de tudo, valia a palavra da agulha. Se ela disse que era menina é porque era. Empolgada, a mãe começou a preparar o enxoval. Comprou montes de vestidos, lacinhos e brincos. Pintou o quarto todo de rosa e encomendou a mobília na mesma cor. O pai ainda tentou argumentar que não havia razão pra pressa, mas a mãe não tinha tempo a perder. Pra que esperar?  Era menina, a agulha não mentia. A agulha realmente não mentiu. O exame também não. No fim, não ganhou a fé, nem ganhou a medicina. Vieram dois, um menino e uma menina. Deu empate.

11.10.14

o meu preferido

Algumas vezes, eu perguntava: vô, quem é sua neta preferida? Ele amarrava a cara e não respondia. Eu insistia. Ele fazia bico, contrariado. Afinal, enchia o peito e dizia com força: lógico que é você! Outras vezes, de mãos dadas, ele do nada falava: é minha netinha preferida. E pra minha avó: é a mais amiga da gente, Nilzinha. Gostava também de me provocar. Quando eu perguntava, ele apontava a cabeça pra outra neta qualquer, indicando a preferência. Só com muito custo conseguia fazer ele me dizer o que eu já sabia. Lógico que era eu. Mais pra frente, passou a responder a minha pergunta só beijando a minha mão. Mal falava, mal me olhava. Às vezes, só de implicância, eu sei. Assim que você saiu começou a falar, me contavam depois. Com o tempo, fui deixando de perguntar. Só dizia: vô, é sua neta preferida. Abre o olho, eu quero ver seu olho azul. Ele sempre abria. Ontem, mesmo sabendo ser inútil, mais uma vez eu pedi. Ele não abriu, nunca mais vai abrir. Nem por isso vou deixar de pedir pra sempre. Vô, abre o olho. Eu quero ver seu olho azul.

10.10.14

o preferido



Com ar muito solene, chamava às vezes um neto para dar um dinheirinho. Adorava o ritual. Passava um tempo mexendo na carteira, exibindo notas de dez, vinte, cinquenta, criando expectativa. Por fim, puxava uma nota de dois reais, que entregava como se estivesse dando um milhão. Que vai fazer com tanto dinheiro? Nem sei, Vô, dá pra muita coisa. Gostava disso. Ai de quem não demonstrasse a devida empolgação com o presente. Mas isso era raro. Normalmente, todo mundo fazia planos de compras de roupas, carros, foguetes e por aí vai. Tinha perdido a noção do dinheiro, não custava brincar. Mas era ele quem brincava com a gente. Nunca perdeu a noção do dinheiro. Pra Bruninho, o preferido, sempre dava cinquenta. 

12.8.14

vovó e seus casos

Não conto o milagre, nem o santo, só digo que é o tipo de caso que Vovó adoraria contar. Vovó, aliás, não teria pudor e contaria tudo em detalhes, dando nome e endereço completo do santo. Vovó adorava uma fofoca, um caso, uma notícia escandalosa. Pra ela, não tinha nada melhor do que telefonar à noite pra todos os conhecidos, contando as novidades do dia. Houve até quem apelidasse as ligações de “Rádio Vovó”. Não sei se Vovó aprovaria, mas a verdade é que ela dominava mesmo a arte do noticiário. Ia misturando notícias boas, ruins, banalidades, grandes acontecimentos, tudo com carga dramática máxima. O resultado era sempre excelente e não perdia a qualidade, mesmo repetido umas quarenta vezes por noite. Mas o bom mesmo era ver Vovó falando ao vivo. Quando ela falava, fosse onde fosse, todo mundo parava pra ouvir. Quando a família se reunia, Vovó ficava quieta enquanto os filhos e netos tagarelavam sem parar. No auge da balbúrdia, se empertigava toda e dizia, muito solene: Uma vez, quando eu era pequena... Uma vez, lá em Minas... Uma vez, quando fulano já estava crescidinho... Ou no meu tempo isso, no meu tempo aquilo... Ia contando o caso, dando umas risadinhas picadas, até chegar ao fim da história e todo mundo explodir na gargalhada. Ou cair no choro, dependendo do tema escolhido. Vovó era boa mesmo naquilo. Contava e recontava as mesmas histórias, mas quem se importava? “Fulano diz que as minhas histórias são muito manjadas, mas adora ouvir”, Vovó gostava de dizer. O milagre de hoje tinha tudo pra se tornar um dos grandes clássicos da Vovó. Esse ela ia repetir um monte de vezes, sempre morrendo e matando todo mundo de rir. Uma vez, há uns dez anos... Uma vez, há uns vinte anos... Dá pra ouvir direitinho Vovó falando. Pena não poder contar porque a versão dela, como sempre, é impagável.

4.8.14

receita de grude

Pra fazer grude, ferva água, polvilho, cinco crianças, cavalos, lagoa, galochas, barro, paçoca, charrete, chiclete, carrapatos, avós, prendas, churrasco, música, pau-de-sebo, bambuzal. Mexa bem e deixe repousar antes da festança. Lambuze os barbantes, cole as bandeirinhas, pule a fogueira, dance a quadrilha. Raspe a panela, guarde as sobras e leve pra sempre com você.

26.6.14

vovó e a pornografia

A revista chega e a neta corre pra ler. Tarde demais, Vovó chega antes. Que revista é essa? Photo, uma revista francesa de fotografia. Posso ver? Não que Vovó se interesse por fotografia, absolutamente. É mais uma questão de curiosidade em estado avançado mesmo. Toma, Vovó, pode ler. Mas essa revista é pornográfica! Claro que não, Vovó! Mas tá cheio de gente pelada! Isso é nu artístico, Vovó. Artístico nada, é uma pouca-vergonha! Nunca pensei que neta minha pudesse ler uma coisa assim. Não foi assim que seu pai te criou! Pois saiba, Vovó, que meu pai sempre leu essa revista, fazia até coleção. O golpe é duro demais. Vovó arregala os olhos, cambaleia, quase cai. Vai ter um troço, a neta se procupa, pra que fui falar? Vovó balança a cabeca, recusa-se a acreditar. O seu pai, não, o seu pai não lia isso! Lia, Vovó, não perdia uma. Essa revista é um clássico da fotografia. Pois pra mim é puro lixo! Os dois caíram muito no meu conceito, diz, atirando a revista no chão e retirando-se, ainda zonza. Aí, é a vez da neta entrar em choque. Em página dupla, uma fileira de homens pelados exibe-se pra câmera, numa variedade de cores, formas e tamanhos capaz de fazer corar a mais desavergonhada das mulheres, o que certamente não é o caso da Vovó. Até a neta, de renomada sem-vergonhice, se abala. A revista realmente extrapolou todos os limites da decência. Não chega a ser pornografia, mas de artístico aquilo ali não tem nada. A revolta da Vovó é mais do que justa, a neta admite. Em solidariedade, decide nunca mais ler a revista. Vai só empilhando quando as novas chegam, sem nem abrir. Já Vovó, dizem, de vez em quando dá umas folheadas.

1.7.13

a brasileirinha ataca novamente

Acostumada a ver a Seleção patinar entre o medíocre e o vexame, parece que a cabeça da brasileirinha, que já não é lá muito boa, desandou de vez com o olé de 3x0 em cima da Espanha. Ainda entontecida com o triunfo, saiu de casa uma hora antes do horário sem nem perceber. Chegou cedo demais na Justiça, mas até que foi bom, que toda hora sentava gente ao lado da brasileirinha, falando só de futebol. A brasileirinha adora. Sente sempre, em jogo bom ou jogo ruim, uma emoção que só o futebol, só ele, desperta. É do tipo que não perde a chance de discutir a partida da véspera, ainda mais quando a Seleção faz bonito. Aliás, sempre que a Seleção está sob o comando do Felipão, que pra brasileirinha é rei absoluto e o melhor técnico que nosso time já teve ou terá. Aproveitando o tempo livre, a brasileirinha engrenou numa análise minuto a minuto com o senhorzinho do banco ao lado. Quando já iam lá pelos 45 do 2° tempo e o jogo já estava mesmo ganho, a brasileirinha de repente lembrou que estava ali a trabalho e ainda não tinha visto seu cliente. Estas situações, a brasileirinha, como qualquer advogado, resolve ficando de pé e gritando o nome da empresa. A brasileirinha se levantou, encheu o peito de ar e, embalada pela vitória, gritou pro corredor inteiro ouvir: Brasiiiil!!! Depois, cavou um buraco bem grande, se enfiou inteira lá dentro e ficou encolhidinha esperando a vergonha passar.

4.5.12

não adianta negar

Sem maiores explicações, terminou o namoro de mais de dez anos, que já era tido por noivado e, por alguns, até casamento. Foi um rebuliço geral, não se falava em outra coisa. Gerou revolta e admiração na mesma medida. Onde já se viu deixar um rapaz tão bom, ele não merecia isso. Quanta coragem, terminar um namoro já com essa idade não é pra qualquer uma, não! As especulações sobre o motivo do rompimento duraram meses. Arranjou outro, tá na cara. Flagrou ele com outra, isso sim. Pra mim, namoro longo, viraram amigos, só isso. Cada um tinha uma opinião, até aposta em dinheiro se fez. Palpitou-se bastante também sobre o comportamento da nova solteira. Vai cair na noite no dia seguinte. Vai nada, nunca foi disso. Nunca foi disso antes, quando tava com ele, espera pra ver agora. Quando saiu pela primeira vez, parecia até estrela de cinema, todos os olhares em cima dela. E quando apareceu, meses depois, de mãos dadas com outro, as fofocas dispararam de vez. É ele, é o outro, finalmente assumiu. Fui eu que apresentei os dois, não é coisa antiga, não. Que nada, olha a intimidade, isso já tem tempo. Foi assim passo a passo, moço a moço, por anos e anos. Até que o ex se casou. Passaram a olhar a moça com pena. Tadinha, é duro ver o noivo casar com outra. Pior que pra ela até agora nada, arrisca de morrer solteira. Ah, mas ele não podia ter feito isso com ela. Depois de tantos anos, tinha que ter casado. Não se deixa uma noiva assim, à beira do altar. Ela só faltou morrer de paixão. Passou meses sem sair da cama e volta e meia ainda chora por ele. E agora casou com outra, o safado. Deve estar com essa desde aquela época, sabia que ali tinha rabo de saia. A noiva se divertia com o burburinho. Tão com pena de mim por quê? Fui eu que terminei, quero mais é que seja feliz. Os votos sinceros não convenceram. O povo ficou foi alarmado. A notícia foi muito forte, coitada, a cabecinha não aguentou. Deu pra negar que foi abandonada, vê se pode. Tem que levar ao médico, vai que enlouquece de vez. Melhor deixar pra lá, é até bom ela se enganar. A noiva cansou da brincadeira e resolveu interferir. Ficaram doidos, é? Fui eu que terminei, esqueceram? De nada adiantou. Não precisa se envergonhar, querida, acontece com qualquer uma. Mas fui eu que quis! Não tem por que se enganar, todo mundo sabe que a abandonada foi você. E noiva lá encerra namoro depois de dez anos? Foi o noivo, tá na cara. Não adianta negar.

31.3.12

foi o gonzalez quem fez

Tem quem ache que roupa de grife é que é bom. Vovó, não. Quer dizer, não é que não, que pra Vovó certamente o Gonzalez é uma grife.  Aliás, a melhor do mundo. Pra Vovó, não tem quem bata o Gonzalez. Nem Chanel, nem Dior, nem ninguém. Há quanto tempo o Gonzalez existe na vida da Vovó não se sabe. De onde veio, também é mistério. O paradeiro quase nunca é sabido. Entre idas e vindas da Europa, Gonzalez quase mata a Vovó de paixão. É, agora é definitivo, ela diz desconsolada. Vendeu tudo, voltou pra Pontevedra. Agora, só comprando em loja mesmo. Mas o Gonzalez, com saudade da praia, das moças, ou vai ver que da Vovó, sempre volta. Aí, é uma alegria. Vovó corre pra renovar o guarda-roupa. Não me entendam mal, Vovó não é perdulária.  Tem o armário recheado de criações do Gonzalez, mas também só veste Gonzalez. Usa até hoje, e com frequência, vestidos de vinte, trinta anos atrás. Esse usei nas minhas bodas de prata, fala com orgulho. Esse foi o do casamento do seu pai. Ainda cabe, se gaba. A Vovó adora provar que mantém a silhueta. Mas o que dá realmente prazer à Vovó, o que ela não deixa nunca de dizer quando alguém elogia o figurino, porque pra ela vale até mais do que o elogio em si, é: foi o Gonzalez quem fez!

 









 

23.3.12

encomenda

Tia Esmeralda, casamenteira que só ela, entra no quarto toda assanhada: quem é esse que tá na sala? É o Vitor, Tia Esmeralda, meu fisioterapeuta. O Vitor? Mas como ele é alinhado, bem-apessoado! Anda, menina, não deixa ele lá esperando. Chego na sala e Tia Esmeralda, claro, já tá sondando o fisio. Quando me vê, dá uma piscadela e sai de mansinho. Passa a sessão atrás da porta, apontando pro Vitor e desenhando coraçõezinhos no ar. Mal espera ele ir embora e já volta à carga. Simpático ele, né? Simpático, bonitão e, principalmente, sem aliança! Muita sorte ter virado seu fisioterapeuta! Sabia que ele perdeu a irmã? Tia Esmeralda, você é impossível! Fez o Vitor te contar isso em dois minutos de conversa? Ele não me contou, não, eu vi na tv. Você viu o Vitor na tv, quando? Toda hora, ué, e não é só pra falar da irmã, não. Ele vive aparecendo naquelas lutas que você gosta de ver. Não, Tia Esmeralda, aquele é o Vitor Belfort! Eu sei, menina, eu sei o nome dele. Peraí, o Vitor não é o Vitor Belfort? Claro que não, Tia Esmeralda, de onde você tirou isso? Você me disse, esqueceu? Eu perguntei quem estava na sala e você respondeu que era o Vitor Belfort. Não, Tia Esmeralda, eu não disse que ele era o Vitor Belfort. Primeiro, porque o Belfort tá preocupado com o pé dele, não com o meu. Segundo, porque o meu fisio é a cara do Zé Aldo. A cara e o corpo, aliás. Peso pena, no máximo. Você não viu o Belfort na tv? Claro que vi. Acho essa luta um horror, mas não sou boba. Esse aí é a cara dele. A cara e o corpo, né, Tia Esmeralda? A cara e o corpo, eu reparei bem. Essa tá boa, Tia Esmeralda, a lenda viva do MMA cuidando dos meus pés... Aliás, essa tá ótima! Traz o Belfort, Tia Esmeralda, traz o Belfort!

21.3.12

dindinha

Ela fumava sem parar, cigarros Malboro. Sentava na frente da tv com os malboros e ia madrugada adentro, só dormia de manhã. Ela roncava muito, quando calhava de dormir com ela era um horror. Ela era brava e mandava na casa e na gente. Me obrigava a comer até o fim, querendo ou não. Ela era gorda e no dia em que caiu da escada quase matou todo mundo de susto porque ficou lá estirada sem conseguir se mexer. Eu nem tinha nascido, mas sei porque ninguém esqueceu. Eu também sei, de ouvir falar, que no dia do assalto o ladrão mandou ela deitar na banheira e depois foi um sufoco pra tirar ela de lá. Num dia de bagunça, ela me trancou no quarto dela e eu revirei tudo lá dentro. Ela quase morreu e nunca mais me trancou. Ela falava largatixa e eu morria de vontade de corrigir, mas não corrigia. Ela um dia chamou um fulano de manda-chuva e eu achei graça porque ela queria dizer o contrário, mas também não corrigi. Ela depois me chamou de saliente e eu fiquei pensando o que que ela queria dizer com aquilo. Ainda não descobri. Ela foi embora, mas vinha de visita às vezes e deu pra ver quando começou a perder a voz e os movimentos. Eu que passei a ir de visita e cada vez ela tava pior, mas com a doença, ou a idade, ou a saudade, ou tudo junto, foi perdendo a rabugice e ficando cada vez mais alegre e animada. Pra ela eu acendi, e acendo, as velas de todas as igrejas que visito. Só porque eu sei que ela gostaria. Sempre que alguém falava que ela não ia aguentar muito tempo, eu nem ligava porque tinha certeza de que ia, sim.  Quando me disseram que a coisa era séria e ela já tava perdendo a consciência, eu fui minuto a minuto na estrada pedindo pra ela me esperar. E um dos momentos mais bonitos da minha vida vai ser sempre aquele em que ela me olhou e encheu os olhos d'água e eu vi que tinha conseguido. Deu pra dizer tudo que eu tinha guardado a viagem e a vida toda pra ela, tudo que eu queria que ela levasse com ela. Depois, eu parei de falar e a gente ficou muito tempo conversando só com os olhos e ela me disse coisas lindas que eu é que vou levar comigo. Eu não tenho mais tantas lembranças dela, mas eu sinto a presença, o jeito de andar, a textura da pele, a estridência que a voz dela às vezes tinha quando ela ainda tinha voz, essas coisas que ficam na gente. Ela ficou em mim.