4.5.12

não adianta negar

Sem maiores explicações, terminou o namoro de mais de dez anos, que já era tido por noivado e, por alguns, até casamento. Foi um rebuliço geral, não se falava em outra coisa. Gerou revolta e admiração na mesma medida. Onde já se viu deixar um rapaz tão bom, ele não merecia isso. Quanta coragem, terminar um namoro já com essa idade não é pra qualquer uma, não! As especulações sobre o motivo do rompimento duraram meses. Arranjou outro, tá na cara. Flagrou ele com outra, isso sim. Pra mim, namoro longo, viraram amigos, só isso. Cada um tinha uma opinião, até aposta em dinheiro se fez. Palpitou-se bastante também sobre o comportamento da nova solteira. Vai cair na noite no dia seguinte. Vai nada, nunca foi disso. Nunca foi disso antes, quando tava com ele, espera pra ver agora. Quando saiu pela primeira vez, parecia até estrela de cinema, todos os olhares em cima dela. E quando apareceu, meses depois, de mãos dadas com outro, as fofocas dispararam de vez. É ele, é o outro, finalmente assumiu. Fui eu que apresentei os dois, não é coisa antiga, não. Que nada, olha a intimidade, isso já tem tempo. Foi assim passo a passo, moço a moço, por anos e anos. Até que o ex se casou. Passaram a olhar a moça com pena. Tadinha, é duro ver o noivo casar com outra. Pior que pra ela até agora nada, arrisca de morrer solteira. Ah, mas ele não podia ter feito isso com ela. Depois de tantos anos, tinha que ter casado. Não se deixa uma noiva assim, à beira do altar. Ela só faltou morrer de paixão. Passou meses sem sair da cama e volta e meia ainda chora por ele. E agora casou com outra, o safado. Deve estar com essa desde aquela época, sabia que ali tinha rabo de saia. A noiva se divertia com o burburinho. Tão com pena de mim por quê? Fui eu que terminei, quero mais é que seja feliz. Os votos sinceros não convenceram. O povo ficou foi alarmado. A notícia foi muito forte, coitada, a cabecinha não aguentou. Deu pra negar que foi abandonada, vê se pode. Tem que levar ao médico, vai que enlouquece de vez. Melhor deixar pra lá, é até bom ela se enganar. A noiva cansou da brincadeira e resolveu interferir. Ficaram doidos, é? Fui eu que terminei, esqueceram? De nada adiantou. Não precisa se envergonhar, querida, acontece com qualquer uma. Mas fui eu que quis! Não tem por que se enganar, todo mundo sabe que a abandonada foi você. E noiva lá encerra namoro depois de dez anos? Foi o noivo, tá na cara. Não adianta negar.

31.3.12

foi o gonzalez quem fez

Tem quem ache que roupa de grife é que é bom. Vovó, não. Quer dizer, não é que não, que pra Vovó certamente o Gonzalez é uma grife.  Aliás, a melhor do mundo. Pra Vovó, não tem quem bata o Gonzalez. Nem Chanel, nem Dior, nem ninguém. Há quanto tempo o Gonzalez existe na vida da Vovó não se sabe. De onde veio, também é mistério. O paradeiro quase nunca é sabido. Entre idas e vindas da Europa, Gonzalez quase mata a Vovó de paixão. É, agora é definitivo, ela diz desconsolada. Vendeu tudo, voltou pra Pontevedra. Agora, só comprando em loja mesmo. Mas o Gonzalez, com saudade da praia, das moças, ou vai ver que da Vovó, sempre volta. Aí, é uma alegria. Vovó corre pra renovar o guarda-roupa. Não me entendam mal, Vovó não é perdulária.  Tem o armário recheado de criações do Gonzalez, mas também só veste Gonzalez. Usa até hoje, e com frequência, vestidos de vinte, trinta anos atrás. Esse usei nas minhas bodas de prata, fala com orgulho. Esse foi o do casamento do seu pai. Ainda cabe, se gaba. A Vovó adora provar que mantém a silhueta. Mas o que dá realmente prazer à Vovó, o que ela não deixa nunca de dizer quando alguém elogia o figurino, porque pra ela vale até mais do que o elogio em si, é: foi o Gonzalez quem fez!

 









 

23.3.12

encomenda

Tia Esmeralda, casamenteira que só ela, entra no quarto toda assanhada: quem é esse que tá na sala? É o Vitor, Tia Esmeralda, meu fisioterapeuta. O Vitor? Mas como ele é alinhado, bem-apessoado! Anda, menina, não deixa ele lá esperando. Chego na sala e Tia Esmeralda, claro, já tá sondando o fisio. Quando me vê, dá uma piscadela e sai de mansinho. Passa a sessão atrás da porta, apontando pro Vitor e desenhando coraçõezinhos no ar. Mal espera ele ir embora e já volta à carga. Simpático ele, né? Simpático, bonitão e, principalmente, sem aliança! Muita sorte ter virado seu fisioterapeuta! Sabia que ele perdeu a irmã? Tia Esmeralda, você é impossível! Fez o Vitor te contar isso em dois minutos de conversa? Ele não me contou, não, eu vi na tv. Você viu o Vitor na tv, quando? Toda hora, ué, e não é só pra falar da irmã, não. Ele vive aparecendo naquelas lutas que você gosta de ver. Não, Tia Esmeralda, aquele é o Vitor Belfort! Eu sei, menina, eu sei o nome dele. Peraí, o Vitor não é o Vitor Belfort? Claro que não, Tia Esmeralda, de onde você tirou isso? Você me disse, esqueceu? Eu perguntei quem estava na sala e você respondeu que era o Vitor Belfort. Não, Tia Esmeralda, eu não disse que ele era o Vitor Belfort. Primeiro, porque o Belfort tá preocupado com o pé dele, não com o meu. Segundo, porque o meu fisio é a cara do Zé Aldo. A cara e o corpo, aliás. Peso pena, no máximo. Você não viu o Belfort na tv? Claro que vi. Acho essa luta um horror, mas não sou boba. Esse aí é a cara dele. A cara e o corpo, né, Tia Esmeralda? A cara e o corpo, eu reparei bem. Essa tá boa, Tia Esmeralda, a lenda viva do MMA cuidando dos meus pés... Aliás, essa tá ótima! Traz o Belfort, Tia Esmeralda, traz o Belfort!

21.3.12

dindinha

Ela fumava sem parar, cigarros Malboro. Sentava na frente da tv com os malboros e ia madrugada adentro, só dormia de manhã. Ela roncava muito, quando calhava de dormir com ela era um horror. Ela era brava e mandava na casa e na gente. Me obrigava a comer até o fim, querendo ou não. Ela era gorda e no dia em que caiu da escada quase matou todo mundo de susto porque ficou lá estirada sem conseguir se mexer. Eu nem tinha nascido, mas sei porque ninguém esqueceu. Eu também sei, de ouvir falar, que no dia do assalto o ladrão mandou ela deitar na banheira e depois foi um sufoco pra tirar ela de lá. Num dia de bagunça, ela me trancou no quarto dela e eu revirei tudo lá dentro. Ela quase morreu e nunca mais me trancou. Ela falava largatixa e eu morria de vontade de corrigir, mas não corrigia. Ela um dia chamou um fulano de manda-chuva e eu achei graça porque ela queria dizer o contrário, mas também não corrigi. Ela depois me chamou de saliente e eu fiquei pensando o que que ela queria dizer com aquilo. Ainda não descobri. Ela foi embora, mas vinha de visita às vezes e deu pra ver quando começou a perder a voz e os movimentos. Eu que passei a ir de visita e cada vez ela tava pior, mas com a doença, ou a idade, ou a saudade, ou tudo junto, foi perdendo a rabugice e ficando cada vez mais alegre e animada. Pra ela eu acendi, e acendo, as velas de todas as igrejas que visito. Só porque eu sei que ela gostaria. Sempre que alguém falava que ela não ia aguentar muito tempo, eu nem ligava porque tinha certeza de que ia, sim.  Quando me disseram que a coisa era séria e ela já tava perdendo a consciência, eu fui minuto a minuto na estrada pedindo pra ela me esperar. E um dos momentos mais bonitos da minha vida vai ser sempre aquele em que ela me olhou e encheu os olhos d'água e eu vi que tinha conseguido. Deu pra dizer tudo que eu tinha guardado a viagem e a vida toda pra ela, tudo que eu queria que ela levasse com ela. Depois, eu parei de falar e a gente ficou muito tempo conversando só com os olhos e ela me disse coisas lindas que eu é que vou levar comigo. Eu não tenho mais tantas lembranças dela, mas eu sinto a presença, o jeito de andar, a textura da pele, a estridência que a voz dela às vezes tinha quando ela ainda tinha voz, essas coisas que ficam na gente. Ela ficou em mim.

 

4.2.12

na cadeira do pensamento

Eu chamei a Alice de chata bisonha e a tia me mandou pra Cadeira do Pensamento pra aprender a não falar as coisas sem pensar. Eu pensei bem e vi que ela tinha razão, eu não devia ter chamado a Alice de chata bisonha, eu nem sei o que bisonha quer dizer. Aí, no outro dia, quando a tia me perguntou se eu tinha pensado bem, eu falei que sim e que a Alice era chata só. A Alice começou a chorar e a tia me mandou de novo pra Cadeira do Pensamento e disse que era pra eu ter só pensamentos bons. Eu tive dois pensamentos muito bons, mas quando eu entrei na sala no dia seguinte e a tia quis saber, achei melhor só gastar um e falei que apostava meu lanche que se a gente fizesse uma votação de quem era a menina mais feia da sala ia ganhar a Gabi disparado. Todo mundo começou a votar e e a tia me mandou pra Cadeira do Pensamento outra vez. Nesse dia, os meus pensamentos foram horríveis, que eu tava muito nervoso com a prova de História e fiquei só repassando a matéria. Aí, quando eu cheguei de manhã e a tia me perguntou no que que eu tinha pensado, preferi usar o pensamento bom do outro dia e disse que a aula de Português andava insuportável. Tudo bem que foi uma risadaria, mas ela também não precisava ter ficado tão brava e deixado a turma toda de castigo na aula de Geografia. Só eu que fui pra Cadeira do Pensamento. Passei a tarde toda lá, aí lembrei de quando eu tive catapora e a minha mãe jogou aquele remédio na banheira que deixa a água rosa e tive o pensamento genial de jogar o remédio na piscina da escola também. Já pensou na hora do recreio, todo mundo descendo pro pátio e vendo a piscina toda colorida? Vai ser bisonho! Quando eu cheguei hoje e a tia quis saber no que que eu tinha pensado, achei melhor falar que fiquei pensando na matéria de Ciências, que esse ano tá muito legal. Tá chata pra caramba, sorte que ela acreditou e ainda ficou toda contente. Eu gosto da tia, não quero que ela perca a surpresa. Eu ainda não sei como é que eu vou levar tanto remédio escondido pra escola e jogar na piscina sem ninguém ver, mas acho que com mais uns dois dias na Cadeira do Pensamento eu resolvo tudo. Pena que hoje não teve.

2.11.11

risco de vida

O tripé dos sonhos de qualquer fotógrafo, levíssimo, dobrável e de excelente desempenho. A cronista sai de casa toda contente com a maravilha, mas, no que põe o pé na rua, descobre que ela é perfeita pra carregar na mão, mas na bolsa vira um trambolho. A cronista pára pra descarregar, encostada no capô do carro em frente. Mal começa a puxar o tripé, vê, pelo vidro quase preto, alguma coisa se movendo lá dentro. Forçando a vista, a cronista descobre um homem deitado no banco do motorista. A cronista morre de vergonha de ter sido flagrada usando o carro alheio como se fosse a mesa da sala e se aproxima pra se desculpar. Vê o homem rindo, tremendo, segurando o peito como se fosse infartar. O homem aponta desesperado pro tripé e a cronista se dá conta de que o objeto inofensivo, em sua capinha preta e dura, mais parece uma metralhadora, um fuzil ou outra arma qualquer. A cronista percebe que o homem, acordado no susto, se viu vítima de um assaltante, um sequestrador ou um simples bandido entediado que, na falta de coisa melhor, se preparava pra brincar de tiro ao alvo. Ao ver a cronista, moça formosa e delicada, saibam, leitores, relaxou, mas o ataque de nervos foi inevitável. A cronista começa a rir e gesticular em sinal de desculpas e é quando se dá conta do perigo. É a vez de a cronista tremer e segurar o peito, quase morrendo do coração. E se o bandido fosse ele? A cronista correu sério risco de vida! Mas tudo acabou bem. Nenhum dos dois estava armado, nenhum dos dois era bandido. Tiveram sorte. Numa cidade como esta, podiam ter levado um tiro.

23.6.11

vovó e a cerveja

Lidando com uma penca de enfermeiras que se revezam num ritmo infernal, Vovó, que já gosta de trocar os nomes dos filhos com os dos netos, aprendeu a se defender. Sentindo a chegada da moça do dia, vira-se de costas e pergunta quem vem lá. Sou eu, Doutora, a Fulana. Aí é só associar o nome a alguma coisa bem fácil de lembrar e não se preocupar mais com o assunto. Tem a de nome igual ao da presidente (Vovó não diz presidenta nem sob tortura). Tem a mulher do Príncipe Charles (Vovó ainda se lembra do Príncipe Charles...). Tem até a namorada do Roberto Carlos (Vovó jura que o Rei e a Ternurinha quase casaram). Só Vanessa que não teve jeito. Vanessa é Vanessa, Vovó passa a noite repetindo pra não errar. Vanessa quieta na copa e Vovó na sala, baixinho: Vanessa, Vanessa. Na hora de chamar é só aumentar a voz: Vaneeessa! Vem a novela, Vovó: Vanessa, Vanessa, vem o comercial, Vovó: Vanessa, Vanessa, vem a Sandy, bem loura, bem desinibida, bem gostosa, Vovó: Devaaassa! E vem a enfermeira, morena acanhada, um poço de inibição. Vovó na hora cai em si. Ai, minha filha, desculpe, foi essa cerveja indecente! Você não é nada disso, bem se vê que é moça direita. E a devassa Vanessa: Não tem problema, não, Doutora. Faz um mês que a senhora me chama assim. Já me acostumei.

1.4.11

não pode ter nada melhor

Quem já fez spinning sabe como é. Posição um, posição dois, senta, levanta, subindo ladeira, mais rápido, mais rápido. E vc vai entrando num delírio, vc não é uma aluna numa academia, vc tá no meio da selva, lá vem a onça, mais rápido, vc tá no mar, olha o tubarão, mais rápido, vc tá cansada, mas é vida ou morte, mais rápido, mais rápido. Tem hora que vc se sente a tal, pedala feita louca, deixa a bicharada toda pra trás. Aí o cansaço vai apertando, vc não vê mais bicho nenhum, vc tá no fundo do poço. Nisso, o pedal escorrega e vc percebe que não, vc não tava no fundo do poço. No fundo do poço vc tá agora, espatifada no meio da sala, todo mundo em volta segurando o riso. Aí é um corre-corre danado, o professor em estado de choque, o pé violentamente torcido, a vergonha, a vergonha, a vergonha. E vc tenta se convencer de que não foi nada, quem sabe ninguém nem viu, mas por dentro urra, de ódio e de dor. E no meio daquela coisa toda, de repente vem a luz, e não tem mais vergonha, nem ódio, nem nada. Pé imobilizado, quinze dias sem malhação, não pode ter nada melhor.

2.3.11

vovó e o fim do mundo

Não saia daí, minha filha. Jogaram um avião, as torres caíram, é a Terceira Guerra Mundial! Mas foi lá nos Estados Unidos, Vovó, tá tudo tranquilo por aqui. Tranquilo, como? Os Estados Unidos podem destruir o mundo vinte e três vezes! Vinte e três vezes, nunca entendi, basta uma, basta uma! Não vão explodir, não, Vovó, os russos não deixam. Não deixam? Os russos é que estão por trás de tudo! Querem explodir os Estados Unidos vinte e três vezes também! Já começaram com as torres, agora vai ser bomba pra todo lado. Não saia, minha filha, não saia, com russo ninguém pode! Ué, Vovó, mas não foi coisa do Afeganistão? Quem disse, aquela mocinha da televisão? Sempre achei esquisita, tá do lado dos russos, tá na cara. Muda de canal, rápido, vai que já inventaram míssil pela tevê. Cadê seus pais? Liga pra eles, liga pros seus irmãos. Diz que é pra não sair de casa. Mas, Vovó, se o mundo explodir, a casa vai junto, né? Não me contrarie, minha filha, não me contrarie. Manda todo mundo voltar pra casa já. Agora vou desligar, tenho que ir. Pra onde, Vovó? Pra rua, ora. Vou pichar parede, jogar no bicho, quem sabe me tatuar. O mundo vai acabar, tenho que aproveitar. Não saia daí, ouviu bem, não saia daí.

17.2.11

o japa dos meus sonhos

É famosa a queda da cronista por japoneses, chineses, coreanos, tailandeses, japas de todos os gêneros, olhinhos puxados de modo geral. Japa é japa, e a cronista há de ter um pra chamar de seu. A busca não é fácil, mas a cronista não desiste. Cansada de procurar por estas bandas, vem planejando uma investida in loco. Começou a estudar japonês, faz aulas de origami, taekwondo e shiatsu. Em casa, só anda com uns tamanquinhos de madeira, já se vendo nas ruas de Tóquio toda vestida de gueixa. Dá voltas e voltas na Lagoa, pra tirar de letra a Grande Muralha. Cuida de um bonsai, coitado, e toma chá todos os dias, mesmo odiando, pra não fazer feio na hora do ritual. A cronista está disposta a tudo e todos. Tem intenções tão sérias que considera até um lutador de sumô. Mas fique claro que não serve qualquer japa. A cronista sabe que só um é o dela. Às vezes, cansa da espera, xinga o destino, mas não desanima. Examina em detalhes todo japa que encontra, não perde o clima de agora vai. E nisso a cronista entra num boteco e pede uma coca. Tlês reais. O coração da cronista bate fraco, arrisca parar. O japa dos meus sonhos existe. Não é um samurai, nem veio montado num dragão chinês. Trabalha no pé-muito-sujo ali do lado e nunca vai me levar pra Xangai. Mas finalmente chegou.

19.7.10

não ponham o zico na minha frente

Muito pequena, o primo dizendo que bom mesmo era o Flamengo e eu dizendo da boca pra fora que bom era o Botafogo do meu pai. Aí o primo me levando pra ver um jogo e pra ver que não tem nada maior do que o futebol, o Flamengo e o Zico. Eu entendo os mais novos, mas os da minha idade, os que viram o Zico jogar, torcendo pra outro time, nunca entendi. Sem provocação, nunca entendi. Muito pequena, o Brasil perdendo o jogo e a tia gritando Ziiiiico, sei lá se o Zico tinha ido ou não, mas a tia gritava. Ainda muito pequena, o juiz dizendo que tinha dado só mais um minuto pro Zico fazer o gol e não é que ele fez mesmo? Muito pequena e depois mais crescida, a certeza de que no último instante o Zico ia salvar a pátria. E salvava. E trazia aquela alegria que só o futebol, só quem ama o Pelé, o Romário e o Ronaldo sabe o que é, e quem ama o Zico sabe muito mais. O Zico avançando pelo meio do campo e toda vez, e até hoje, eu pensando que é assim que se faz. Aquela bicicleta que eu nem sei em que jogo foi, nem se foi, mas eu me lembro dela e foi tão linda. O Zico pulando pra comemorar o gol. O Zico indo jogar fora e fazendo aquele gol esquisito que ele diz que é o mais bonito, sem saber que todos são. O prazer de ir ao Maracanã e ver a bola, o batuque e as bandeiras com o rosto do Zico. Ainda hoje. E quando o time vai mal tem sempre alguém que grite Ziiiiico. E sempre tem também quem diga que o Zico na Copa não foi nada, que o Zico só foi o Zico no Flamengo. E me dá uma baita vontade de rir desse só. Agora, o Zico está de volta e há perigo à vista. O Zico ronda a Lagoa, arrisca da gente se esbarrar. Não quero, nem pensar. Não ponham o Zico na minha frente. Detesto me descontrolar.

11.11.09

mais uma da vovó

Vovó exibe orgulhosa o quadro grande e antiquado, perguntando se não é um bom presente de batizado para os gêmeos. A inadequação é tamanha que não ouso dizer nem que sim, nem não. Vovó, talvez desconfiada do meu silêncio, explica que aquela é a igreja em que eles vão ser batizados. Ah, claro, respiro, ótimo presente. Vovó triunfa. Vovó, registre-se, adora triunfar. Vira-se para a tela e suspira: ai, tomara que essa árvore ainda esteja lá. Olho de novo o quadro: nada além de terra batida e uma igrejinha absolutamente rústica, com um grande flamboyant florido na fente. Tento me conter, mas não consigo. Vovó, se essa é a Igreja de São Conrado, ela teve que ser posta no chão e levantada de novo. Mas Vovó, que, como disse, adora triunfar, insiste: é ela, sim, filhinha, tenho esse quadro há muitos anos. Tá escrito aqui atrás, pode ler. Leio: Igreja da Penha, Itaparica, Bahia. Ou seja, muito provavelmente, Vovó tem é o quadro da igrejinha em que o grande João Ubaldo foi batizado. Pois não deixa de ser um excelente presente, pelo menos pra ele, Vovó diz. Vovó nunca se rende.

24.10.09

da imensa ternura que eu sinto por ele

O B era quem guiava a charrete. O B ia cantando, e as músicas que ele cantava até hoje eu sei de cor. O B ainda tem a mesma cara, mesmo com as rugas e a barba meio branca. Não é com frequência que a gente se vê, mas quando acontece é sempre igual. O B traz a charrete e a gente sai sacolejando pelos caminhos mais esburacados, por ladeiras tão íngremes que olhando lá de cima parece até que vai todo mundo capotar. E eu sinto o fascínio de sempre, e penso como é que pode, que só o B mesmo, que ele é o tal. E engulo o medo e finjo que tá tudo bem, que não tem susto nenhum. Mas o B vai guiando seguro, e vai falando, contando da vida, feito amigo assim de todo dia. E eu não vou dizer que é como se fosse, que aí também já é dar muita bola pro B. Mas eu digo, e eu sempre sinto, que o que me faz falta mesmo daquele lugar, além da charrete, e da festa junina, e do lustre do quarto da vovó, e de tirar lama da sola da galocha com palitinho, e de brincar de caçada à noite, e de acampar no jardim, e de nadar na lagoa, e de dormir todo mundo junto no quarto grande, o que me faz falta mesmo daquele lugar é o B. E, entre as alegrias de voltar lá, além de saber que a viagem enorme tá terminando, e de virar na placa, e de passar pelo bambuzal, e de entrar em casa e ver tudo do mesmo jeito, entre essas alegrias todas, está saber que logo, logo o B vai aparecer. E ele vem sempre sorrindo - não tem barba, nem ruga, nem coisa nenhuma que mude o sorriso do B - e me cumprimenta e vai buscar a charrete. O B, que bom, é sempre igual. Pena só que ele não canta mais.

16.11.08

poxa, woody

De todos os rapazes do baile, o que mais encanta a moça já não é mais rapaz. É um senhor velhinho, que pelos óculos enormes, o formato do rosto, a altura e um jeito meio desengonçado de andar, ganhou logo de um dos amigos dela o apelido de Woody Allen. Woody foi o primeiro, no primeiro dia, a tirar a moça pra dançar. Zanzou de um lado pro outro, aproximou-se da mesa, abriu um sorrisinho tímido, esticou a mão em convite e puxou a moça pra pista. No fim da dança, levou-a de volta pra mesa, à moda antiga. Disse um muito obrigado tão sentido, franzindo um pouco os olhinhos por trás dos óculos, que conquistou a moça de vez. Toda semana, ela já chega no baile procurando por Woody. Observa como ele abre a pista, sempre com parceiras diferentes. Sempre uma parceira por dança, sempre levadas de volta a suas mesas, sempre os olhinhos franzidos. Como dança bem o Woody! Como é elegante, até quando alguma moça, que não entende nada da etiqueta do salão, recusa a dança. Nessas horas, a moça se aproxima como quem não quer nada, fica bem à vista e faz cara de surpresa quando ele a tira pra dançar. Outras vezes, flerta com ele. Sabe que Woody não vem assim de primeira. Passa pra lá, lança um olhar, passa pra cá, ameaça um sorriso. Até que se aproxima, fingindo insegurança, como se não soubesse que a moça vai aceitar. Dançam dois sambas por baile, Woody sempre mais assanhado no segundo do que no primeiro, colando bem o corpo no corpo da moça, batendo de leve no próprio rosto com a mão dela. A moça ri. A moça deixa. A moça gosta de pensar que é só com ela, que é graças a ela que Woody, já tão velhinho, volta a ser um rapaz. A moça também dança com rapazes de verdade, claro, e volta e meia é ela quem cola o corpo no deles, mas com nenhum a moça é tão gentil, e nenhum tem por ela a gratidão que Woody tem. São cúmplices. E quando a moça teve que passar seis meses longe do país, pensou em Woody todo sábado à noite. Quando voltou, correu pro salão. Woody não estava. Era cedo ainda, Woody podia chegar, mas o fato de não estar lá pra abrir o baile deixou a moça apavorada. Woody já não era garoto e aquilo não podia ser bom sinal. A moça ficou sentada, esperando por ele, até Woody aparecer. A alegria foi tamanha que a moça chegou a se levantar pra abraçá-lo, mas lembrou que não, que o jogo não era aquele, que o certo era esperar Woody vir. E Woody logo começou a lançar seus olhares e sorrisos. A moça correspondia sem excessos, que cavalheiro não gosta de dama atirada, mas mal podia esperar a hora da dança. Woody andava de um lado pro outro, fazia charme, torturava a moça. Afinal, parou na frente dela, arregalou os olhos, como se tivesse acabado de vê-la, e veio ao seu encontro, sorridente, já com a mão estendida. Aí, se virou e seguiu pro outro lado. O que aconteceu, a moça não sabe e nem vai saber, que se tem uma coisa que dama não faz é correr atrás de cavalheiro. O que se sabe é que a moça jurou que nunca mais dança com ele, nem se estiver abandonado no meio do salão. Pode ser que sim, pode ser que não. Pode ser que da próxima vez Woody aperte tanto os olhinhos pra convidar a moça que ela esqueça a mágoa e os dois voltem a dançar. A moça, feliz, pensando que dançar assim, Woody só dança com ela. Woody, feliz também, dando pancadinhas no próprio rosto com a mão da moça e pensando em nada, que hora de samba não é hora de se pensar. Pode ser, pode até ser. Mas o fato é que ontem, Woody, vc quebrou nosso trato.

27.10.08

deus é brasileiro

A ex-governadora e prefeita eleita de Campos, Rosinha Garotinho, declarou: "Fui a primeira governadora, sou a primeira prefeita e, quem sabe, serei a primeira mulher presidente do Brasil." Impossível, cara senhora. Deus é brasileiro, não nos faltará.

21.9.08

contos canadenses - pollo sin papas

Pollo sin papas, por favor. Sorry? Pollo! Sin papas, santo Dios! Sorry? Resolvo inteferir. McDonald`s canadense, cliente espanhola e atendente coreano, não tem como dar certo. McChicken, please. Fries? No, thank you. Gracias, my hija, gracias. Cafe tambien. Claro, coffee, please! Sugar? Azúcar, señora? No, leche, solo leche! Milk, please. Ah, mas como es hermosa! Gracias, muchas gracias! Que es eso, jo que agradieço! A operação se repete com as oito senhoras. Não mencionei? São oito. Todas maquiadíssimas, alinhadas, me olhando como se eu fosse um anjo caído do céu, o que, pensando bem, é exatamente o que eu sou. Já elas o que são e o que estão fazendo sozinhas num McDonald`s a essa hora da noite, sem falar uma palavra de inglês, só Dios sabe. Muitos "hermosas" depois, pego meu lanche e vou saindo quando começa uma confusão. Olho pra trás a tempo de ver uma das senhoras se debruçar sobre o balcão, agarrar o coreano pelo colarinho e gritar, furiosa: pollo, pollo! Mas é uma incompetência mesmo! Faço o pedido em inglês de primeira categoria e nem assim o coreano acerta! O problema não é meu, mas não resisto e volto em defesa das senhoras. Vale a pena. As oitos não contêm a alegria ao me ver. Ah, hermosa, graças a dios! A mais exaltada larga o coreano e vem buscar meu socorro: Jo quiero pollo, pollo! Claro, señora, pollo, claro. Como é que eu peço um McChicken e esse sujeito me traz um... McChicken! Mas então maluca é a mulher! Pede frango, o coitado traz frango e ela quer mais o quê? O raio me atinge certeiro: McNuggets! Nem coreano, nem espanhola, a culpada foi a hermosa brasileira mesmo. Que, não satisfeita, deixou o circo armado e foi comer seu sanduíche bem longhe dali.

contos canadenses - noite de sábado na tv

Aos que sofrem no Brasil, tenho a dizer que noite de sábado na tv canadense é um tédio só. Certas coisas são iguais no mundo inteiro, leitores, não adianta.

31.8.08

contos canadenses - só no cinema

Stanley Park, o maior de Vancouver. Onipresente, quase um Cristo Redentor. Tive uma idéia, a irmã diz, vamos comer num restaurante aqui perto. Onde? Aqui no parque mesmo, é logo ali. Não, não é logo ali. É lá, do outro lado do parque. Mas isso a outra irmã e a amiga só descobriram duas horas depois, quando finalmente chegaram ao tal restaurante, que por sinal estava fechado. O mapinha era claro: you are here, o ponto de partida está lá, do outro lado do parque. Uma linha reta perfeita, cruzando o parque de alto a baixo. Estamos falando de alguns quilômetros, senhoras e senhores, não é drama, não. Não quilômetros desejados ou planejados. Quilômetros que só se revelaram quilômetros quando já estávamos lá pelo meio da trilha, no meio do nada, sem saber se era melhor seguir ou voltar. Seguimos, porque afinal era "logo ali". Bom, restaurante fechado, vamos tomar um táxi, que ninguém é louco de voltar andando pelo meio da mata àquela hora, quase noite. Na falta de táxi, ok, um ônibus. Na falta de ônibus, brinca a amiga, carona. Rimos e tomamos a estrada, que carona é coisa de filme, pelo amor de Deus. De filme e de maluco. E tome estrada, e tome estrada... e cai a noite. Chapeuzinho Vermelho vai na frente, rindo, despreocupada, sem medo de lobo mau, urso ou caçador. A irmã prudente e a amiga vão atrás, imaginando que em menos de uma hora o breu vai ser total e elas não vão estar nem na metade do caminho. Poderiam ter cortado uma hora voltando pela trilha, mas entrar no coração da mata àquela altura, nem pensar. A estrada, a rigor, não era muito diferente da trilha: sem luz, mato fechado pros dois lados, ninguém por perto. Mas pelo menos era estrada. No caso de um ataque de urso, havia alguma chance de que um carro parasse pra ajudar. Ah, melhor nem pensar agora que na semana passada duas pessoas foram atacadas por ursos na mesma área. Uma morreu e a outra, num estado que nem te conto, ainda pena no hospital. Não, melhor matar o tempo calculando quantas horas ainda faltam para o destino final. Ou pra qualquer destino, desde que fora do matagal. Duas ou três horas, é a conclusão a que chega Chapeuzinho. Transcrevo a equação: meio parque é igual a dez horas divididas por dois, cinco, o lado de cá é menor, então quatro, menos uma e pouco que já andamos, duas ou três. Em duas ou três horas, não vai ser noite, vai ser madrugada. Há momentos na vida em que uma mulher adulta tem que encarar os fatos e fazer o que é preciso. Ao sentir nas costas o farol de um carro, me viro, estico o dedão e... peço carona. Sim, eu fiz, eu pedi carona. Sim, eu nem olhei pra cara do motorista. Meu amigo, se fosse o bandido brasileiro, naquele momento, podia me levar. O carro desacelera, claro, encosta, ufa, e... segue em frente. Agora vamos entender a situação: à esquerda no rink, um garotão, à direita, três mocinhas, ouso dizer, elegantes. O garotão pára, olha e vai embora... Azar de principiante, ora. Não é por isso que eu vou desistir. Palavra de veterana: pedir a primeira carona é difícil, a segunda é difícil. Na décima, vc já nem sente. É só aparecer um carro e o dedão já vai se esticando sozinho, todo assanhado, sem nem esperar comando. Décima? Vigésima, trigésima! Ninguém parou, ninguém. Ninguém encostou o carro pra dizer e aí, tão perdidas, precisam de ajuda? Nada. Não há por que manter a pose quando já se está mesmo no fundo do poço. Por isso, confesso. Tive, sim, a ilusão de que fosse ser fácil. Pensei, sim, que os carros fossem fazer fila. Tive medo até de causar um acidente, caso dois carros resolvessem parar ao mesmo tempo, brigando pela chance de me oferecer uma carona. Só nos cinemas, leitores, só no cinema. Na vida real, das duas,uma: ou tem alguma coisa errada comigo ou com esses canadenses. Fica a dúvida.

10.7.08

a minha vòzinha

A minha vòzinha escreve vòzinha com crase pra ninguém achar que ela é uma voz pequena. A minha vòzinha é pequena. A minha vòzinha pinta o cabelo cada hora de uma cor. A minha vòzinha vivia na minha casa quando eu era pequena. A minha vòzinha não vive mais. A minha vòzinha morava longe. A minha vòzinha agora mora perto. A minha vòzinha quer que eu vá pra casa dela. A minha vòzinha não sabe que a minha casa é a casa dela. A minha vòzinha só fala de política. A minha vòzinha não me deixa dormir na sala. A minha vòzinha tem email. A minha vòzinha fica até tarde me esperando no msn. A minha vòzinha me fez gostar de pintura, leitura e mitologia grega. A minha vòzinha foi à Índia comigo. A minha vòzinha não gostou de Pompéia. A minha vòzinha come mais devagar do que eu. A minha vòzinha só usa homeopatia. A minha vòzinha está coberta de razão. A minha vòzinha me ensinou tudo, tudo. A minha vòzinha me levava à aula de patinação. A minha vòzinha me acha linda. A minha vòzinha não sabe de nada. A minha vòzinha é teimosa. A minha vòzinha gosta de me cheirar. A minha vòzinha só fala de política. A minha vòzinha acredita em ET. Acredita, não, sabe. A minha vòzinha sabe de ET e reencarnação. A minha vòzinha não ouve música. A minha vòzinha me chama de radiosa. A minha vòzinha acha que eu implico com ela. A minha vòzinha é que implica comigo. A minha vòzinha só fala de política. Tudo que eu sou vem da minha vòzinha. A minha vòzinha só fala de política. A minha vòzinha é meu coração. A minha vòzinha tem quatro netos. Serei eu a preferida?

1.6.08

contos canadenese - a boite

Era uma vez uma lenda de que brasileiros sao descarados, ousados e beijam na boca de quem nao conhecem. A ultima parte 'e verdade, vamos reconhecer, mas quanto a descaramento e ousadia, senhoras e senhoras, esquecam o Brasil. O que se ve nas boites canadenses encabula qualquer brasileiro. Canadenes dancam coladinhos, mas coladinhos, coladinhos mesmo, um de frente pras costas do outro. E mais. Canadenses dancam coladinhos nas costas de quem nao conhecem. Funciona assim: o menino chega perto da menina, nem diz o nome, da uma dancadinha colada de frente e ja parte pras costas, e 'e normal. E 'e a boite inteira nisso. E vc fica la olhando e pensando quem foi que inventou que brasileira 'e mulher facil. E nao to falando de baile funk, nao, que a brasileirinha nao 'e disso. 'E boite s'eria, daquelas que nao aceitam homem de tenis, bone ou regata. 'E coisa fina mesmo. E 'e tudo num clima respeitoso. O canadense vem todo educado te convidar pra dancar, so nao tira o chapeu porque a boite nao permite o uso. 'E verdade que se vc disser nao, ja era, que aqui ninguem tem tempo a perder com conversa. Nao quer dancar, ok, nao quero nem saber seu nome. Jogo rapidissimo. Agora, o interessante da coisa 'e que canadenses sao tambem muito recatados. Beijo na boca, nem pensar. O negocio deles 'e so dancar. Tambem, ne? A brasileirinha, que nao esta acostumada com essas intimidades, preferiu se esconder no cantinho da boite. Tava la sentada, observando a cena, no que veio o mexicano. Mexicanos nao sao canadenes. Sintam a diferenca. Oi, vc fala espanhol? O mexicano queria conversar, viram so? A brasileirinha nao queria. Nao, nao falo. Vc fala ingles? Bom, alguma coisa a brasileirinha tem que falar, ne? What`s your name? My name is Mariana. Ta vendo? 'E um nome espanhol! Ai, que vontade de matar esse mexicano! A brasileirinha nao respondeu. O mexicano nao falou mais nada. Tic tac, tic tac, a brasileirinha olhando firme pra frente, o mexicano sabe-se la, ate que ele manda um nice to meet you, Mariana, levanta e vai embora. Ah, sem duvida, deve ter sido muito legal conhecer a brasileirinha. Seguem-se algumas abordagens canadeneses, quer dancar, nao, nao quero, ok, tchau, ate que vem o turco, arabe, o que sera? O o-que-sera senta-se ao lado da brasileirinha. Ele vai me chamar pra dancar, ele vai me chamar pra dancar... Silencio, tensao, o tempo passa e nada acontece. Aqui cabe a pergunta, e vale pra brasileiros tambem: se todo mundo sabe o que o menino vai fazer, por que ele nao faz logo, santo Deus? Passados eternos cinco minutos, o o-que-sera lanca a pergunta, acompanhada de um murro na perna da brasileirinha. O tipo da coisa feita pra dar certo, um pow na sua perna e um convite pra dancar... A brasileirinha nao mencionou que luta taekwondo, ne? Pois luta. E nunca na vida teve que segurar tanto o impulso de devolver a gentileza. Mas so sorriu e agradeceu, pensando nao, infeliz nao quero dancar com vc de jeito nenhum. Veio mais um canadenese e a brasileirinha, com medo de levar outra pancada, e a'i sim perder a cabeca, achou melhor aceitar. Levantou e partiu pra pista com o canadense, que comecou a fazer passinhos! Sim, passinhos! Daqueles anos setenta, com rodopios, braco de um cruzado com o braco do outro, coisas que a brasileirinha nao via desde os tempos de John Travolta. A brasileirinha ja mencionou que 'e uma pessima dancarina? Pois e. Nao podia dar certo, claro, e a brasileirinha foi largada sozinha no meio da pista! Sintam a humilhacao. O canadense faz papel de palhacao e a brasileirinha 'e que 'e abandonada na pista! Depois dessa, a brasileirinha resolveu desistir. Nao da, nao, ladies and gentlemen. Boite de novo, so no Brasil.