5.9.07

mas, vovó...

Uma senhora nos aborda no meio da rua se dizendo caixa do banco da Vovó. Conta que está com um problema de dinheiro, pergunta se a Vovó não pode dar uma ajuda, promete devolver tudo direto em conta. Vovó não nasceu ontem. Tira a espertalhona de letra. Trabalha no banco, é? E em qual caixa? No onze? Ah, sim. E o que houve com seu dinheiro? O marido bebeu? Coitada, marido que bebe é um castigo. Não, não chore, senhora. Senhora? Ângela, ah, sim, prazer, Sra Ângela. Bom, de quanto a senhora precisa? (Vovó começa a me deixar nervosa) Quinhentos? Ah, que pena, só tenho trezentos. Já ajuda? Então está ótimo. Só um minutinho, sra Ângela, o fecho desta bolsa é muito difícil. Me ajude aqui, minha filha. É hora de interferir: mas, Vovó... ( Vovó me interrompe com um cutucão) Vamos, menina, a Sra Ângela está esperando. Mas, Vovó... ( Vovó me interrompe...) Pronto, sra Ângela, aqui está. Mas, Vovó... ( Vovó me ...) Pague quando puder, não se preocupe. Passe lá em casa depois para um chazinho. Vcs têm meu endereço no banco, não? Então até breve, sra Ângela. Mas, Vovó... (...) Vovó! Como é que a senhora entrega seu dinheiro pra uma desconhecida? Desconhecida, não, eu e a sra Ângela somos amigas. Amigas de onde, Vovó? Do banco, ora. Mas, Vovó, o banco não tem caixa onze! Não tem? Ué, então em que caixa a Sra Ângela trabalha? Não trabalha, Vovó, a sra Ângela é uma golpista. Vovó nem se importa: bom, tomara que ela passe pro chazinho mesmo assim.

25.8.07

nem tanto

A madame esquece os chocolates no táxi. Foram comprados na esquina, não na Suíça ou na Bélgica, mas a madame não se conforma com a perda. Entra em casa afobada, corre pro interfone atrás do motorista. Tarde demais, mas a madame não se rende. Determinada, liga pra cooperativa, relata o ocorrido, se descabela. Só sossega quando a telefonista promete que o motorista vai voltar mais tarde pra entregar o tesouro. Obrigação dele, ela diz. Quem mandou não verificar se a cliente tinha esquecido alguma coisa? Passada uma hora, a madame, sem dar ouvidos à turma do deixa disso, telefona de novo. A telefonista atende e ela explica que é Glória, a dos chocolates, que está querendo saber quando é que o motorista vem. No fim do expediente? É que meus filhinhos estão aqui chorando, se recusam a dormir sem os chocolates que a mamãe ficou de trazer. Dá pra me dar o celular dele? Obrigada, assim eu mesma acerto tudo. Não vai ficar com meus chocolates, resmunga, enquanto telefona. Alô, seu Antônio, é Glória, a dos chocolates. É que meus netinhos estão aqui chorando... Netinhos! Filhinhos pra desconhecida, netinhos pro conhecido. É, parecia que os chocolates tinham acabado de vez com o juízo da madame, mas nem tanto, nem tanto.

7.8.07

timidez

Maria chega radiante, exibindo as rosas que ganhou de Pablo com um cartãozinho anônimo. Não foi ele, retruco. Como é que vc sabe? Tenho certeza. Pois eu é que tenho certeza de que foi ele. Tem como, se o cartão não está assinado? Porque o Pablo, ora, só o Pablo pra me mandar rosas. E sem nem assinar, tão romântico! Pois eu aposto que não foi ele, tanta gente pra te mandar flores. Quem, por exemplo? Ué, por exemplo, só por exemplo, eu. Vc, e a troco de quê? Pronto, agora romantismo é exclusividade do Pablo, é isso? Claro que não, mas daí a dizer que foi vc já é exagero. Eu sei, eu avisei que era só um exemplo, até porque se eu fosse mandar flores pra uma mulher compraria logo dúzias e dúzias e não um buquezinho mixuruca feito esse. Muquirana como vc é, duvido. Pois eu é que duvido que tenha sido o Pablo. Pode duvidar o quanto quiser, foi ele. Pablo aparece. Maria, encorajada pelas rosas, pula em seu pescoço. Me afasto pra não ver a cena, amassando no fundo do bolso a nota da floricultura.

28.7.07

ser balzaquiana

Ser balzaquiana não é não arranjar mais um namorado após o outro. Ser balzaquiana não é não ser páreo pra um bando de menininhas que só ganham de vc no quesito juventude e olhe lá. Ser balzaquiana não é ser chamada de tia pelas tais menininhas - e os respectivos meninões. Ser balzaquiana não é ter que ouvir toda hora a mãe contar que a filha da Fulana também casou, só falta mesmo vc. Ser balzaquiana não é engolir o olhar de pena das pessoas quando descobrem que vc ainda é solteira, ou melhor, que vc é solteira, que solteira balzaquiana não desencalha mais, não. Ser balzaquiana não é saber que ninguém acredita que vc é, caramba, uma solteira feliz. Ser balzaquiana não é, consequentemente, ter toda hora alguém com um amigo “perfeito pra vc” pra te apresentar. Ser balzaquiana não é sentir o mundo todo numa só vibração: “case, case, case”. Ser balzaquiana não é a avó, desesperada, te empurrar pro padeiro, caixeiro, cachaceiro, o que vier. Ser balzaquiana é ouvir a mesma avó perguntar por que vc não namora o Fulano, sendo o Fulano o priminho que vc ajudou a criar. Ser balzaquiana, queridos, é o fundo do poço.

12.7.07

a pessoa certa

Fugindo da agitação, a avó se instalou numa mesinha escondida. De lá, não via a pista de dança, mas conseguia acompanhar bem o movimento no salão. Quase não viu os noivos, por isso estava ansiosa para assistir ao vídeo da festa. Toda a família se reuniu para o evento e a avó não disfarçou o orgulho ao rever o neto, lindo, esperando a noiva no altar. Saboreou novamente a saída da igreja, os cumprimentos, o discurso do noivo, esquecendo-se dos pais, ela vibrou, para declarar que não seria ninguém sem a avó querida. Tinha feito mesmo um bom trabalho. Ali estava o neto, advogado em plena ascensão, casado com uma moça fina, de boa família, linda. O vídeo começou a mostrar o que a avó, do seu canto, não tinha visto. Os noivos abrindo a pista de dança, os aplausos dos amigos, uma beleza. O encanto não durou muito. Rapidinho, a noiva se revelou. Dançava sensualmente, rebolava, lançava olhares fatais pro noivo, que, sem alternativa, sorria e balançava os dedinhos, como se estivesse aprovando o espetáculo. Disfarçava, mas por dentro estava morto, a avó sabia. Aquilo não era moça pra ele. Despudorada, a noiva parecia esquecer que estavam no meio da festa e não na intimidade da lua-de-mel. Apertava o noivo, se oferecia toda, uma vulgaridade. A avó admirou a classe do neto, tentando manter a pose diante do furacão. Ah, se tivesse visto na hora, teria interrompido o vexame, esclarecendo logo aos convidados que o neto tinha cometido um erro. Erro quanto à pessoa! Era isso, a avó pensou. Advogada renomada, conhecia de cor o Código Civil : " Art. 1556. O casamento pode ser anulado por vício da vontade se houve por parte de um dos nubentes, ao consentir, erro essencial quanto à pessoa do outro. Art. 1557. Considera-se erro essencial quanto à pessoa do outro cônjuge: I – o que diz respeito à sua identidade, sua honra e boa fama, sendo esse erro tal que o seu conhecimento ulterior torne insuportável a vida em comum ao cônjuge enganado." Começou a tramar a anulação do casamento, que era evidente que o neto não poderia viver com uma noiva como aquela. Passou a observar o vídeo com ainda mais interesse, registrando os momentos que ajudariam a demonstrar o terrível erro. A noiva se exibia, dava tudo. A avó, com o plano em mente, adorava. Muito bom, chegou a exclamar em voz alta, enquanto a noiva descia até o chão. Era o suficiente, a avó pensou, juiz nenhum deixaria de reconhecer que aquela era a pessoa errada. O câmera filmava os convidados, alguns visivelmente chocados. Lá estava a Raimunda, tão chique, com aquela idade toda, a Isabela, bastante elegante, quem diria, a mãe do noivo, linda de morrer. Nisso aparece o casal novamente. A noiva, já de chinelos e ainda se acabando e o noivo... O noivo com um olhar feroz, a gravata na cabeça, pingando de suor enquanto ensaiava uns passinhos. Nada grave, a avó se tranquilizou, efeito passageiro do mau exemplo da noiva. Com o tempo, porém, o escândalo do noivo foi deixando o da noiva muito pra trás, que noiva se exibir é uma coisa, noivo é outra. O noivo se contorcia inteiro, rebolava levantando as perninhas, arrancava risos da platéia. Para horror da avó, não se limitava a dançar com seu par, como a noiva fazia. Ia puxando as convidadas e rodopiando com uma após a outra. Depois voltava pra noiva, agarrava, dava uns beijos abusados que nem na novela das oito tinha igual. Ah, se tivesse visto na hora, a avó teria interrompido o vexame, dando umas boas palmadas no neto bem no meio do salão. Terminada a sessão, a avó abriu os braços pra noiva e disse: vc é perfeita pra ele, querida! Seja bem-vinda à família!

24.6.07

a número um

A neta explica pro produtor, marido da amiga, que a avó tem oitenta e um anos, que é louca pelo Rei, que daria tudo pra conhecê-lo e sabe-se lá quanto tempo mais ela vai viver, poxa, quebra esse galho. Com isso, consegue a pulseirinha pra entrar no camarote depois do show. A avó mal se aguenta de emoção. Manda lavar o blazer azul, que ela que não é boba de visitar o Rei com outra cor, mal dorme na véspera, fica pronta às três da tarde e às seis já quer sair, mesmo morando ali na esquina. Chegam com duas horas de antecedência, mas a avó não tira os olhos do palco, como se o Rei fosse aparecer a qualquer minuto. No que as mesas vão sendo ocupadas, a neta espalha pra todos que a avó é a fã número um do Rei e que hoje, graças a ela, vai encontrá-lo. A avó, meio encabulada, diz que não queria dar trabalho, mas que a neta é mesmo muito especial, qual outra enfrentaria aquele programa só por causa dela? A neta, modesta, diz que não se importa, que o que interessa é a felicidade da avó. O show começa e a avó parece que entra em transe. Pra despertá-la, a neta de vez em quando grita uns eu te amo, Rei. A avó não deixa de acompanhar, aos gritos de eu também! Quando o Rei ataca de Jesus Cristo, a neta avisa que é hora de partir pro camarim. A avó ainda resiste um pouco, porque sair de show do Rei sem pegar uma rosa no final é o mesmo que não ir, mas acaba concordando. Vai ganhar rosas no camarim, a neta lembra, e ainda fotos, beijos, tudo que uma fã de oitenta e um anos merece. De fato, o Rei recebe a avó com todo o carinho, conversa, beija, abraça. A neta, comovida, acompanha a cena. Quando a avó, dando-se por satisfeita, resolve ir embora, a neta pula no pescoço do Rei. E agradece a gentileza, e diz que não esperava que ele fosse perder tanto tempo com uma senhora, que só um rei como ele mesmo. E enquanto vai falando, vai se enroscando no Rei. Sorri pra ele, conta que a avó anda viciada em Emoções, mas já teve fase de ouvir Cavalgada sem parar. Muito boa música, Cavalgada, suspira. Começa a cantarolar baixinho: Vou me agarrar aos seus cabelos, pra não cair do seu galope... E alisa a cabeleira de chapinha do Rei, que sorri meio de lado e repete seu brigado, brigado, sem ousar se mexer. Quando, mais empolgada, resolve mordiscar a orelha real, ameaçando cavalgar por toda a noite, o Rei faz um discreto sinal pra um segurança e acaba com a festa. A neta sai arrastada, mas da porta ainda grita: Não adianta nem tentar me esquecer, Rei, um grande amor não vai morrer assim. E vão-se embora, ela e a fã número dois.

14.6.07

a verdadeira prova

Catarina resistia, mas Vítor queria porque queria uma prova de amor. Mal ela entrava no fusquinha azul bebê, Vítor começava a lengalenga. Vc me ama? Claro que sim, amor. Então prova. Mas, Vítor, vc tem dúvida? Vítor ignorava a pergunta: se vc me ama, prova. Aí era um tal de beijo pra cá, abraço pra lá, Catarina pedindo menos, Vítor pedindo mais... As juras de amor de Catarina não serviam de nada, Vítor não abria mão da tal prova. Toda noite era igual. O fusca azul bebê estacionava, Catarina entrava e Vítor exigia a prova. A moça não cedia, o rapaz não desistia e no encontro seguinte a agonia recomeçava. E assim termina a história, sem que se saiba se Catarina se rendeu ou não. Agora, que ela amava Vítor, lá isso amava. Amava tanto que nunca explicou que aquela que ele queria era uma prova menor. A maior ela dava todos os dias: desfilar, diante da vizinhança inteira, num fusquinha azul bebê.

6.6.07

o último romântico

O Pablo é mesmo um romântico. Liga o som e encosta o celular pra namorada ouvir. Tem coisa mais romântica do que botar música melosa pra tocar por telefone? O Pablo é mesmo muito romântico, mas já está exagerando. Pô, Pablo, vc tá aí há uns cinco minutos, a menina vai cansar. Vai nada, deixa ela. E continua lá, todo bobo. Uns dez minutos depois, finalmente fala: alô, Taís, só mais um pouquinho, já vou falar com vc, tá? Taís? Sua namorada não se chama Joana? Chama, mas não tô falando com ela, não. Essa é a Taís, atendente da Claro. Mal contendo a alegria, Pablo cola novamente o celular no rádio e comenta: pena que tá tocando essa musiquinha, tinha que ser um pancadão. Tinha.

26.5.07

palmas pra ela

O carro de som estaciona no meio da rua. Os manifestantes, líderes disso e daquilo, vão se revezando ao microfone. Esbravejam, esbravejam, enlouquecem a indefesa vizinhança. No que a confusão parece diminuir, chegam mais quatro ônibus, um deles trazendo o ídolo máximo da multidão, sindicalista velho de guerra. Mal começa seu discurso, morre de tiro certeiro. No jornal da noite, as teorias conspiratórias se multiplicam. Analistas, artistas, astrólogos, vêm todos opinar. Acusam situação, oposição, forças ocultas, ninguém escapa. Pois erraram feio. Descobriu-se depois que a assassina era uma mulher qualquer, que de política queria distância. Vinha suportando bem quatro horas de manifestação, mas se descontrolou quando ouviu o quadragésimo nono companheiros e companheiras! Decidida a viver seu dia de fúria, buscou a espingardinha do marido e disparou. Nada mais natural. Essas passeatas enlouquecem mesmo a pessoa, deixam no chinelo as mais mirabolantes torturas chinesas. As palavras de ordem, as buzinas, as musiquinhas transtornam qualquer um. Ou vc adere e sai pra rua e pra luta, ou perde o juízo e atira. Calma, ninguém aqui defende a violência, que fique claro. Repitamos juntos: violência, não, violência, não, violência, não! Dito isso, vamos ser francos, palmas pra ela.

17.5.07

cena de cinema

A paixão começou quando o patrão, por engano, acertou na coxa dela o beliscão que era pro filho. O patrão era um grisalho charmoso, mas antes do belisco a babá nem tinha reparado. Dali pra frente, caiu de amores. Passou a sonhar com o galã todos os dias, cada vez inventando um final ainda mais feliz. Ela vinha sempre de Sharon Stone. Já ele, impossível decidir, ora era George Clooney, ora Richard Gere. A babá não era páreo pra patroa, sabia. Nunca tentou transformar os filminhos em vida real. Se contentava só de ver o patrão à noite, quando ele entrava no quarto pra beijar o filho. Queria porque queria um beijo daqueles, na testa mesmo, nada cinematográfico, mas, não sendo páreo pra patroa, nem pedia. O auge da glória era quando o patrão falava com ela. Não passava de um meu filho já dormiu?, mas, pra ela, a música subia, a câmera dava um close nos dois e o resto do mundo sumia. Até ligava pras amigas pra contar. Hoje ele falou comigo. Te pediu em casamento? Não, perguntou do filho. Já é alguma coisa, vc tem que se declarar. Que nada, respondia, não sou páreo pra patroa. A babá acabou se cansando da situação. Ela era a mocinha, afinal de contas, e a mocinha pode até ficar sozinha, mas tem direito à última cena. Sabendo que não era páreo, optou por um final triunfante. Deixou pra trás patrão, patroa, menino e um bilhete que dizia: João Cláudio, eu te amo, The End. E foi-se embora sem olhar pra trás, arrancando lágrimas da platéia.

9.5.07

blind date

As amigas combinam uma tarde de compras no shopping novo. Do táxi, Joana telefona pra avisar que já saiu. Descobre que Beatriz está numa rua próxima e decide ir até lá. No local, há um carro azul parado na esquina. O de Beatriz é vermelho. Joana telefona para conferir. É você nesse carro? Sou, troquei mês passado. E vc, cadê? Tô aqui no táxi. Vem logo, tenho um monte de fofocas pra te contar. Também, tô louca pra te ver. O taxista perde a linha, gargalha. Que foi, moço? Desculpe, senhora, mas eu nunca vi nada assim. Assim como? Assim, um encontro assim. Assim como, meu senhor? Assim, dona, duas desconhecidas, é a primeira vez no meu táxi. Joana acha graça e nem esclarece. Paga, agradece e vai embora. Perde a chance única de dizer: peraí, moço, que se eu não gostar eu volto.

5.5.07

o que realmente me espanta

Um dia uma mulher morreu lavando o cabelo no salão. Não que aquilo pra ela fosse novidade, nunca lavava em casa. Três vezes por semana, passava no salão. Ela e o cabeleireiro eram íntimos. Trocavam confidências, ficavam horas naquela função. Enquanto a conversa estivesse animada, o cabeleireiro ia lavando e relavando a cabeleira. Às vezes, chegava a passar umas cinco ou seis mãos de xampu, fora o condicionador. A mulher saía com torcicolo, mas nunca interrompia. A verdade é que era doida por ele. Quando não tinha o que contar, inventava. Falava sem parar pra ele não parar de lavar. No dia da morte, criou um enredo tão intrincado que, percebeu, precisaria de umas três lavagens pra desenrolar. Tentou interromper o relato, mas o cabeleireiro não quis saber de cenas dos próximos capítulos. Lavou os cabelos mecha por mecha, descoloriu, hidratou, fez de tudo, só pra não perder o final. A mulher, de tão apaixonada, foi em frente. E haja paixão, viu, pra suportar uma hora e meia numa daquelas cadeiras de salão. É uma forma sofisticada de tortura. O corpo vai escorregando devagar enquanto a cabeça fica presa no escorredouro. Com o tempo, parece que as duas partes vão se despregar. Dói que é uma beleza, mas a mulher não se rendeu. Antes do fim da história, porém, não resistiu e morreu. Pelo que deu no jornal, a pressão estourou uma veia no cérebro, qualquer coisa assim. O cabeleireiro se desesperou. Não tanto pela cliente, mas pela história sem fim. Quem já descobriu no final da leitura que faltava a última página do livro há de lhe dar razão. Uma história inacabada é um castigo quase tão grande quanto uma lavagem no salão. O cabeleireiro ainda tentou reanimar a mulher, mas não teve jeito. Ela morreu mesmo, lavando o cabelo no salão. Parece incrível, reconheço. Soa mais como invenção de cronista maluca, mas aconteceu de verdade. Pra ser sincera, o que realmente me espanta é que não morra uma por dia.

2.5.07

quase nada

O menino pergunta à mãe quem é a criança suja e maltrapilha dormindo na rua. É um pobrezinho, a mãe explica. E o menino, que nunca tinha visto um daqueles: mas pobrezinho não tem casa, mãe? Pelo visto, não tem. Pobrezinho não tem carro? Não, com certeza não tem. Mãe, pobrezinho tem computador, prancha, videogame? Não, pobrezinho não tem nada. Nem celular e ipod? Não, meu filho, nada mesmo. O menino não desiste: mãe, pobrezinho tem peru?

26.4.07

mais uma de altar

A tia-avó fez saber, aos presentes e ausentes, que a renda do vestido era francesa, importada para a ocasião, e que a bolsinha era Chanel - vintage, fazia questão de dizer, que a última moda era esse negócio de vintage. A tia-avó não abriu o cortejo, como pretendia, mas veio em boa posição. Desfilava como se estivesse numa passarela, controlando o marido, fazendo questão de se distanciar dos padrinhos da frente. Não estava ali para ser encoberta, queria brilhar. Bem no meio da igreja, tropeçou. Não chegou a cair no chão, foi pior. Ficou suspensa pela mão do marido, balançando-se de um lado pro outro. Ah, pra que falar na renda do vestido e na grife da bolsa? Se tivesse avisado que ia cair daquele jeito, a tia-avó teria sido desde o início a estrela da noite. Se bobear, até no lugar da noiva teria entrado. Aliás, pra que noiva diante de uma cena daquelas? A tia-avó desmontou toda. O vestido rasgou, o cabelo soltou, a bolsinha caiu, a igreja inteira riu. Riu pra dentro, engolindo, mas riu. Depois de um tempo balançando, a tia-avó conseguiu se equilibrar. Levantou e fez que não foi nada, feito criança que apanha e diz que não doeu. Jogou o topete pra cima, largou a bolsinha pra trás e seguiu em frente, tentando manter a classe que restava. No fim da cerimônia, veio ela falar com a Vovó: Nair, vc viu o tombo que eu levei? E Vovó, que estava sentada no meio da igreja e quase foi atingida pela cunhada em queda: tombo, que tombo? Ué, Nair, o que eu levei na igreja, vc não viu? Não, não vi, vc caiu? Caí, uai, bem na sua frente. Negar um tombo daqueles chega a ser uma ofensa à sanidade mental da vítima, mas Vovó negou. Fiquei até ofendida pela tia-avó, mas ela adorou: ah, se a Nair, que é tão atenta, não reparou no tombo, que, pensando bem, foi mais um tropeço, uma topadinha, ninguém deve ter reparado também. Assim, a tia-avó convenceu-se de que não houve nada e apagou o episódio da memória. Infelizmente, só da dela.

22.4.07

móimóimói

A mãe troca a fralda da filha mais nova, o bebê lindo, gordo, louro de cachinhos, olhos azuis enormes e boca pequenininha. A outra filha, normal como toda morena e dois anos mais velha, distrai a irmãzinha. Canta uma éspecie de mantra, mómóimói, e, hipnotizado, o bebê nem se mexe. Vou adotar esse móimóimói, pensa a mãe, acostumada a penar pra trocar as fraldas da irriquieta caçula. Acabada a função, a mãe se senta pra olhar as filhas brincando juntas. A cena é de tocar qualquer coração materno: a mais velha tenta enfiar na minúscula boca da mais nova uma pecinha de lego, a mais nova, quase sufocada, tem os olhinhos azuis arregalados e cravados no teto, a mais velha repete baixinho: morre, morre, morre. Pra desgosto das crianças, a chata da mãe interrompe a brincadeira.

17.4.07

quase perfeito

A igreja, pequenininha, estava linda, lotada de flores e pessoas queridas. A noiva estava mais linda ainda e toda à vontade no altar, aproveitando seu momento. No rosto do noivo só se via felicidade e não os cinco pontos que ele conseguiu levar na boca na véspera do grande dia. A mãe da noiva, tirando a filha, era a mulher mais bonita da noite e o pai estava emocionado na medida certa e emocionante até não poder mais. O casamento foi todo um encanto, com direito até a gracinha do pajem. A festa, depois, foi de arrebentar e escancarou a alegria dos noivos e dos convidados. Pra não dizer que foi perfeito, teve, sim, um defeitinho. Faltou a noiva caprichar um pouco mais na hora de jogar o buquê. Mas foi só isso.

10.4.07

pra jc e toda a nação

A avó veio sozinha pro Rio aos dezesseis anos. Estranhou no começo, mas não demorou a assimilar as novidades. Em pouco tempo, perdeu o medo do bonde e o arzinho caipira, dominou a cidade e suas principais atrações. Não havia nada que dissesse respeito ao Rio que ela não conhecesse. Mistério mesmo, só o flaflu. Quebrava a cabeça tentando entender o que a palavrinha queria dizer, mas não conseguia. Ficava esperando a oportunidade de perguntar às amigas sem parecer ridícula, mas nenhuma tocava no assunto. Acabou concluindo que aquilo era conversa de homem, secreta. Chegava a corar quando ouvia os rapazes falando em flaflu. Aos domingos, com o burburinho no auge, nem saía de casa. Moça sozinha, melhor não brincar com flaflu. A avó passou a vida atormentada pela dúvida até descobrir, já velhinha, o que era um flaflu. Quem explicou foi a neta, que já nasceu sabendo o que era Fla x Flu, Fla x Vasco, Fla x Bota, a freguesia inteira. E que sabe, ah, como sabe, que os quinhentos e sessenta e oito do galinho valem muito mais do que mil.

30.3.07

que país é esse?

O programa do dia seguinte é uma caminhada pelos arredores da cidadezinha. À noite, ligam a tv pra conferir a previsão do tempo. A mocinha começa com a capital: a meteorologia previu para hoje sol pela manhã, possibilidade de chuva no início da tarde, calor à noite. Não choveu e a noite está fresca, acrescenta. Continua relatando em detalhes a previsão do dia pro país inteiro e o efetivo comportamento do tempo. No fim, quando já subiam os créditos, acrescenta: amanhã deve fazer sol.

28.3.07

mosquitos da barra

Estavam naquela fase de deixar no outro milhares de marcas. Da tradicional no pescoço às mais discretas, na barriga ou na sola do pé. O cenário era quase sempre a Barra, não se sabe bem por quê. Um dia, o rapaz se empolgou além da conta e fez nas pernas da moça uma série de marcas, enormes e inconfundíveis. Pra disfarçar, ela entrou em casa reclamando de mosquitos. Que a Barra estava insuportável, que era mosquito pra todo lado, que olha só como ela estava. E o pai, de olhos nos roxos: é, minha filha, esses mosquitos da Barra são famosos. Não tem namorada que escape.

26.3.07

e vai entender a vovó

Se Vovó fosse católica, teria que deixar de ser. Ou não poderia passar a vida culpando a Santa Igreja pelos males do mundo. Ou não poderia fazer pouco do Papa. Ou teria que engolir todas as críticas. Se Vovó fosse católica, sua vida não teria graça. Como não é, Vovó se diverte. Implica com a Igreja o dia inteiro, aproveita qualquer deixa pra encaixar o assunto. Começa já no café. Passa do pão ao iogurte falando mal do Papa. Entra pela gelatina falando mal do Papa. Chega ao mamão falando mal do Papa. Nessa etapa, acrescenta: olha, quem come mamão todos os dias é o Papa. O Papa sabe das coisas. Se ele come, é porque é bom.