24.6.07

a número um

A neta explica pro produtor, marido da amiga, que a avó tem oitenta e um anos, que é louca pelo Rei, que daria tudo pra conhecê-lo e sabe-se lá quanto tempo mais ela vai viver, poxa, quebra esse galho. Com isso, consegue a pulseirinha pra entrar no camarote depois do show. A avó mal se aguenta de emoção. Manda lavar o blazer azul, que ela que não é boba de visitar o Rei com outra cor, mal dorme na véspera, fica pronta às três da tarde e às seis já quer sair, mesmo morando ali na esquina. Chegam com duas horas de antecedência, mas a avó não tira os olhos do palco, como se o Rei fosse aparecer a qualquer minuto. No que as mesas vão sendo ocupadas, a neta espalha pra todos que a avó é a fã número um do Rei e que hoje, graças a ela, vai encontrá-lo. A avó, meio encabulada, diz que não queria dar trabalho, mas que a neta é mesmo muito especial, qual outra enfrentaria aquele programa só por causa dela? A neta, modesta, diz que não se importa, que o que interessa é a felicidade da avó. O show começa e a avó parece que entra em transe. Pra despertá-la, a neta de vez em quando grita uns eu te amo, Rei. A avó não deixa de acompanhar, aos gritos de eu também! Quando o Rei ataca de Jesus Cristo, a neta avisa que é hora de partir pro camarim. A avó ainda resiste um pouco, porque sair de show do Rei sem pegar uma rosa no final é o mesmo que não ir, mas acaba concordando. Vai ganhar rosas no camarim, a neta lembra, e ainda fotos, beijos, tudo que uma fã de oitenta e um anos merece. De fato, o Rei recebe a avó com todo o carinho, conversa, beija, abraça. A neta, comovida, acompanha a cena. Quando a avó, dando-se por satisfeita, resolve ir embora, a neta pula no pescoço do Rei. E agradece a gentileza, e diz que não esperava que ele fosse perder tanto tempo com uma senhora, que só um rei como ele mesmo. E enquanto vai falando, vai se enroscando no Rei. Sorri pra ele, conta que a avó anda viciada em Emoções, mas já teve fase de ouvir Cavalgada sem parar. Muito boa música, Cavalgada, suspira. Começa a cantarolar baixinho: Vou me agarrar aos seus cabelos, pra não cair do seu galope... E alisa a cabeleira de chapinha do Rei, que sorri meio de lado e repete seu brigado, brigado, sem ousar se mexer. Quando, mais empolgada, resolve mordiscar a orelha real, ameaçando cavalgar por toda a noite, o Rei faz um discreto sinal pra um segurança e acaba com a festa. A neta sai arrastada, mas da porta ainda grita: Não adianta nem tentar me esquecer, Rei, um grande amor não vai morrer assim. E vão-se embora, ela e a fã número dois.

14.6.07

a verdadeira prova

Catarina resistia, mas Vítor queria porque queria uma prova de amor. Mal ela entrava no fusquinha azul bebê, Vítor começava a lengalenga. Vc me ama? Claro que sim, amor. Então prova. Mas, Vítor, vc tem dúvida? Vítor ignorava a pergunta: se vc me ama, prova. Aí era um tal de beijo pra cá, abraço pra lá, Catarina pedindo menos, Vítor pedindo mais... As juras de amor de Catarina não serviam de nada, Vítor não abria mão da tal prova. Toda noite era igual. O fusca azul bebê estacionava, Catarina entrava e Vítor exigia a prova. A moça não cedia, o rapaz não desistia e no encontro seguinte a agonia recomeçava. E assim termina a história, sem que se saiba se Catarina se rendeu ou não. Agora, que ela amava Vítor, lá isso amava. Amava tanto que nunca explicou que aquela que ele queria era uma prova menor. A maior ela dava todos os dias: desfilar, diante da vizinhança inteira, num fusquinha azul bebê.

6.6.07

o último romântico

O Pablo é mesmo um romântico. Liga o som e encosta o celular pra namorada ouvir. Tem coisa mais romântica do que botar música melosa pra tocar por telefone? O Pablo é mesmo muito romântico, mas já está exagerando. Pô, Pablo, vc tá aí há uns cinco minutos, a menina vai cansar. Vai nada, deixa ela. E continua lá, todo bobo. Uns dez minutos depois, finalmente fala: alô, Taís, só mais um pouquinho, já vou falar com vc, tá? Taís? Sua namorada não se chama Joana? Chama, mas não tô falando com ela, não. Essa é a Taís, atendente da Claro. Mal contendo a alegria, Pablo cola novamente o celular no rádio e comenta: pena que tá tocando essa musiquinha, tinha que ser um pancadão. Tinha.

26.5.07

palmas pra ela

O carro de som estaciona no meio da rua. Os manifestantes, líderes disso e daquilo, vão se revezando ao microfone. Esbravejam, esbravejam, enlouquecem a indefesa vizinhança. No que a confusão parece diminuir, chegam mais quatro ônibus, um deles trazendo o ídolo máximo da multidão, sindicalista velho de guerra. Mal começa seu discurso, morre de tiro certeiro. No jornal da noite, as teorias conspiratórias se multiplicam. Analistas, artistas, astrólogos, vêm todos opinar. Acusam situação, oposição, forças ocultas, ninguém escapa. Pois erraram feio. Descobriu-se depois que a assassina era uma mulher qualquer, que de política queria distância. Vinha suportando bem quatro horas de manifestação, mas se descontrolou quando ouviu o quadragésimo nono companheiros e companheiras! Decidida a viver seu dia de fúria, buscou a espingardinha do marido e disparou. Nada mais natural. Essas passeatas enlouquecem mesmo a pessoa, deixam no chinelo as mais mirabolantes torturas chinesas. As palavras de ordem, as buzinas, as musiquinhas transtornam qualquer um. Ou vc adere e sai pra rua e pra luta, ou perde o juízo e atira. Calma, ninguém aqui defende a violência, que fique claro. Repitamos juntos: violência, não, violência, não, violência, não! Dito isso, vamos ser francos, palmas pra ela.

17.5.07

cena de cinema

A paixão começou quando o patrão, por engano, acertou na coxa dela o beliscão que era pro filho. O patrão era um grisalho charmoso, mas antes do belisco a babá nem tinha reparado. Dali pra frente, caiu de amores. Passou a sonhar com o galã todos os dias, cada vez inventando um final ainda mais feliz. Ela vinha sempre de Sharon Stone. Já ele, impossível decidir, ora era George Clooney, ora Richard Gere. A babá não era páreo pra patroa, sabia. Nunca tentou transformar os filminhos em vida real. Se contentava só de ver o patrão à noite, quando ele entrava no quarto pra beijar o filho. Queria porque queria um beijo daqueles, na testa mesmo, nada cinematográfico, mas, não sendo páreo pra patroa, nem pedia. O auge da glória era quando o patrão falava com ela. Não passava de um meu filho já dormiu?, mas, pra ela, a música subia, a câmera dava um close nos dois e o resto do mundo sumia. Até ligava pras amigas pra contar. Hoje ele falou comigo. Te pediu em casamento? Não, perguntou do filho. Já é alguma coisa, vc tem que se declarar. Que nada, respondia, não sou páreo pra patroa. A babá acabou se cansando da situação. Ela era a mocinha, afinal de contas, e a mocinha pode até ficar sozinha, mas tem direito à última cena. Sabendo que não era páreo, optou por um final triunfante. Deixou pra trás patrão, patroa, menino e um bilhete que dizia: João Cláudio, eu te amo, The End. E foi-se embora sem olhar pra trás, arrancando lágrimas da platéia.

9.5.07

blind date

As amigas combinam uma tarde de compras no shopping novo. Do táxi, Joana telefona pra avisar que já saiu. Descobre que Beatriz está numa rua próxima e decide ir até lá. No local, há um carro azul parado na esquina. O de Beatriz é vermelho. Joana telefona para conferir. É você nesse carro? Sou, troquei mês passado. E vc, cadê? Tô aqui no táxi. Vem logo, tenho um monte de fofocas pra te contar. Também, tô louca pra te ver. O taxista perde a linha, gargalha. Que foi, moço? Desculpe, senhora, mas eu nunca vi nada assim. Assim como? Assim, um encontro assim. Assim como, meu senhor? Assim, dona, duas desconhecidas, é a primeira vez no meu táxi. Joana acha graça e nem esclarece. Paga, agradece e vai embora. Perde a chance única de dizer: peraí, moço, que se eu não gostar eu volto.

5.5.07

o que realmente me espanta

Um dia uma mulher morreu lavando o cabelo no salão. Não que aquilo pra ela fosse novidade, nunca lavava em casa. Três vezes por semana, passava no salão. Ela e o cabeleireiro eram íntimos. Trocavam confidências, ficavam horas naquela função. Enquanto a conversa estivesse animada, o cabeleireiro ia lavando e relavando a cabeleira. Às vezes, chegava a passar umas cinco ou seis mãos de xampu, fora o condicionador. A mulher saía com torcicolo, mas nunca interrompia. A verdade é que era doida por ele. Quando não tinha o que contar, inventava. Falava sem parar pra ele não parar de lavar. No dia da morte, criou um enredo tão intrincado que, percebeu, precisaria de umas três lavagens pra desenrolar. Tentou interromper o relato, mas o cabeleireiro não quis saber de cenas dos próximos capítulos. Lavou os cabelos mecha por mecha, descoloriu, hidratou, fez de tudo, só pra não perder o final. A mulher, de tão apaixonada, foi em frente. E haja paixão, viu, pra suportar uma hora e meia numa daquelas cadeiras de salão. É uma forma sofisticada de tortura. O corpo vai escorregando devagar enquanto a cabeça fica presa no escorredouro. Com o tempo, parece que as duas partes vão se despregar. Dói que é uma beleza, mas a mulher não se rendeu. Antes do fim da história, porém, não resistiu e morreu. Pelo que deu no jornal, a pressão estourou uma veia no cérebro, qualquer coisa assim. O cabeleireiro se desesperou. Não tanto pela cliente, mas pela história sem fim. Quem já descobriu no final da leitura que faltava a última página do livro há de lhe dar razão. Uma história inacabada é um castigo quase tão grande quanto uma lavagem no salão. O cabeleireiro ainda tentou reanimar a mulher, mas não teve jeito. Ela morreu mesmo, lavando o cabelo no salão. Parece incrível, reconheço. Soa mais como invenção de cronista maluca, mas aconteceu de verdade. Pra ser sincera, o que realmente me espanta é que não morra uma por dia.

2.5.07

quase nada

O menino pergunta à mãe quem é a criança suja e maltrapilha dormindo na rua. É um pobrezinho, a mãe explica. E o menino, que nunca tinha visto um daqueles: mas pobrezinho não tem casa, mãe? Pelo visto, não tem. Pobrezinho não tem carro? Não, com certeza não tem. Mãe, pobrezinho tem computador, prancha, videogame? Não, pobrezinho não tem nada. Nem celular e ipod? Não, meu filho, nada mesmo. O menino não desiste: mãe, pobrezinho tem peru?

26.4.07

mais uma de altar

A tia-avó fez saber, aos presentes e ausentes, que a renda do vestido era francesa, importada para a ocasião, e que a bolsinha era Chanel - vintage, fazia questão de dizer, que a última moda era esse negócio de vintage. A tia-avó não abriu o cortejo, como pretendia, mas veio em boa posição. Desfilava como se estivesse numa passarela, controlando o marido, fazendo questão de se distanciar dos padrinhos da frente. Não estava ali para ser encoberta, queria brilhar. Bem no meio da igreja, tropeçou. Não chegou a cair no chão, foi pior. Ficou suspensa pela mão do marido, balançando-se de um lado pro outro. Ah, pra que falar na renda do vestido e na grife da bolsa? Se tivesse avisado que ia cair daquele jeito, a tia-avó teria sido desde o início a estrela da noite. Se bobear, até no lugar da noiva teria entrado. Aliás, pra que noiva diante de uma cena daquelas? A tia-avó desmontou toda. O vestido rasgou, o cabelo soltou, a bolsinha caiu, a igreja inteira riu. Riu pra dentro, engolindo, mas riu. Depois de um tempo balançando, a tia-avó conseguiu se equilibrar. Levantou e fez que não foi nada, feito criança que apanha e diz que não doeu. Jogou o topete pra cima, largou a bolsinha pra trás e seguiu em frente, tentando manter a classe que restava. No fim da cerimônia, veio ela falar com a Vovó: Nair, vc viu o tombo que eu levei? E Vovó, que estava sentada no meio da igreja e quase foi atingida pela cunhada em queda: tombo, que tombo? Ué, Nair, o que eu levei na igreja, vc não viu? Não, não vi, vc caiu? Caí, uai, bem na sua frente. Negar um tombo daqueles chega a ser uma ofensa à sanidade mental da vítima, mas Vovó negou. Fiquei até ofendida pela tia-avó, mas ela adorou: ah, se a Nair, que é tão atenta, não reparou no tombo, que, pensando bem, foi mais um tropeço, uma topadinha, ninguém deve ter reparado também. Assim, a tia-avó convenceu-se de que não houve nada e apagou o episódio da memória. Infelizmente, só da dela.

22.4.07

móimóimói

A mãe troca a fralda da filha mais nova, o bebê lindo, gordo, louro de cachinhos, olhos azuis enormes e boca pequenininha. A outra filha, normal como toda morena e dois anos mais velha, distrai a irmãzinha. Canta uma éspecie de mantra, mómóimói, e, hipnotizado, o bebê nem se mexe. Vou adotar esse móimóimói, pensa a mãe, acostumada a penar pra trocar as fraldas da irriquieta caçula. Acabada a função, a mãe se senta pra olhar as filhas brincando juntas. A cena é de tocar qualquer coração materno: a mais velha tenta enfiar na minúscula boca da mais nova uma pecinha de lego, a mais nova, quase sufocada, tem os olhinhos azuis arregalados e cravados no teto, a mais velha repete baixinho: morre, morre, morre. Pra desgosto das crianças, a chata da mãe interrompe a brincadeira.

17.4.07

quase perfeito

A igreja, pequenininha, estava linda, lotada de flores e pessoas queridas. A noiva estava mais linda ainda e toda à vontade no altar, aproveitando seu momento. No rosto do noivo só se via felicidade e não os cinco pontos que ele conseguiu levar na boca na véspera do grande dia. A mãe da noiva, tirando a filha, era a mulher mais bonita da noite e o pai estava emocionado na medida certa e emocionante até não poder mais. O casamento foi todo um encanto, com direito até a gracinha do pajem. A festa, depois, foi de arrebentar e escancarou a alegria dos noivos e dos convidados. Pra não dizer que foi perfeito, teve, sim, um defeitinho. Faltou a noiva caprichar um pouco mais na hora de jogar o buquê. Mas foi só isso.

10.4.07

pra jc e toda a nação

A avó veio sozinha pro Rio aos dezesseis anos. Estranhou no começo, mas não demorou a assimilar as novidades. Em pouco tempo, perdeu o medo do bonde e o arzinho caipira, dominou a cidade e suas principais atrações. Não havia nada que dissesse respeito ao Rio que ela não conhecesse. Mistério mesmo, só o flaflu. Quebrava a cabeça tentando entender o que a palavrinha queria dizer, mas não conseguia. Ficava esperando a oportunidade de perguntar às amigas sem parecer ridícula, mas nenhuma tocava no assunto. Acabou concluindo que aquilo era conversa de homem, secreta. Chegava a corar quando ouvia os rapazes falando em flaflu. Aos domingos, com o burburinho no auge, nem saía de casa. Moça sozinha, melhor não brincar com flaflu. A avó passou a vida atormentada pela dúvida até descobrir, já velhinha, o que era um flaflu. Quem explicou foi a neta, que já nasceu sabendo o que era Fla x Flu, Fla x Vasco, Fla x Bota, a freguesia inteira. E que sabe, ah, como sabe, que os quinhentos e sessenta e oito do galinho valem muito mais do que mil.

30.3.07

que país é esse?

O programa do dia seguinte é uma caminhada pelos arredores da cidadezinha. À noite, ligam a tv pra conferir a previsão do tempo. A mocinha começa com a capital: a meteorologia previu para hoje sol pela manhã, possibilidade de chuva no início da tarde, calor à noite. Não choveu e a noite está fresca, acrescenta. Continua relatando em detalhes a previsão do dia pro país inteiro e o efetivo comportamento do tempo. No fim, quando já subiam os créditos, acrescenta: amanhã deve fazer sol.

28.3.07

mosquitos da barra

Estavam naquela fase de deixar no outro milhares de marcas. Da tradicional no pescoço às mais discretas, na barriga ou na sola do pé. O cenário era quase sempre a Barra, não se sabe bem por quê. Um dia, o rapaz se empolgou além da conta e fez nas pernas da moça uma série de marcas, enormes e inconfundíveis. Pra disfarçar, ela entrou em casa reclamando de mosquitos. Que a Barra estava insuportável, que era mosquito pra todo lado, que olha só como ela estava. E o pai, de olhos nos roxos: é, minha filha, esses mosquitos da Barra são famosos. Não tem namorada que escape.

26.3.07

e vai entender a vovó

Se Vovó fosse católica, teria que deixar de ser. Ou não poderia passar a vida culpando a Santa Igreja pelos males do mundo. Ou não poderia fazer pouco do Papa. Ou teria que engolir todas as críticas. Se Vovó fosse católica, sua vida não teria graça. Como não é, Vovó se diverte. Implica com a Igreja o dia inteiro, aproveita qualquer deixa pra encaixar o assunto. Começa já no café. Passa do pão ao iogurte falando mal do Papa. Entra pela gelatina falando mal do Papa. Chega ao mamão falando mal do Papa. Nessa etapa, acrescenta: olha, quem come mamão todos os dias é o Papa. O Papa sabe das coisas. Se ele come, é porque é bom.

23.3.07

o vírus

A mãe vivia de regime. Descobria os mais mirabolantes: da cerveja, da gordura, do chocolate... Curiosamente, não emagrecia nada. Às vezes, fazia uns de saladas e grelhados, mas nem esses adiantavam. A mãe não entendia por quê. Se todo mundo faz dieta e emagrece, por que logo ela, que só dava umas escapadinhas, não perdia nem um quilo? Um dia, descobriu a razão. Saiu eufórica pela casa, sacudindo o jornal. Tá aqui, ó! A culpa é dele. De quem, mãe? Do vírus! O vírus da engorda, o vírus que vem na poluição. Já reparou como nos centros urbanos as pessoas são mesmo mais gordas? E eu aqui me torturando sem saber que carregava um vírus invencível! Pronto, agora acabou regime. Sou uma pessoa doente, tenho que me cuidar. Pega ali o pudim pra mamãe. Mas, mãe, por que que esse vírus foi atacar logo vc? Porque nós vivemos na rua mais poluída da cidade! Toda hora dá no jornal. Vc precisa se informar, meu filho. Mas por que só vc na rua inteira? Porque nosso prédio fica bem ao lado do depósito de lixo, e nós moramos logo no primeiro andar. Tá vendo? Faz sentido. Ai, por que não descobriram isso antes? Mas, mãe, e por que que aqui em casa esse vírus só atacou vc? Isso, meu filho, a ciência ainda não sabe explicar.

21.3.07

meu primo me contou

Meu primo Pedro me contou que uma amiguinha leu na escola uma crônica escrita pela amiga da mãe. Chamava-se Mariana, a amiga. O texto falava de uma moça presa no banheiro de um shopping. Coincidência, também já escrevi sobre isso. E não é que a heroína da Mariana amiga da mãe da amiga do meu primo se chamava Aninha, nome que volta e meia aparece nas minhas crônicas? E não é que a Aninha dela teve uma dor de barriga tão terrível quanto a minha? E o final, que engraçado, também era igualzinho. Eu e meu primo recitamos juntos as últimas palavras. Comecei a achar que podia ser eu a tal Mariana, que o texto lido pela filha da amiga era meu. Estava tentando lembrar se tenho alguma amiga mãe de uma Fernanda quando meu primo me destruiu. Falou o título: Uma Verdade Inconveniente. Poxa, o meu é Plano Perfeito. É, acho que essa Mariana não sou eu, não.

19.3.07

seu sutiano

A neta bate na porta do banheiro. Vó, seu sutiano. A avó, comovida com a declaração inesperada, responde: também te amo, minha netinha. Não, Vó, seu sutiano. Eu sei, meu amor, Vovó também. Abre, Vó, seu su-ti-a-no! Querida, Vovó te ama muito, mas agora está no banho. Vencida, a neta pendura o sutiã na maçaneta e volta pra tevê. Da janela, a avó grita: Inês, esse sutiã vem ou não?

15.3.07

às gargalhadas

Os primos mais velhos é que eram os tais. Guga bem que se esforçava para acompanhá-los, mas ficava sempre pra trás. Era o caçula, a criança. Amigo dentro de casa, desconhecido do lado de fora. Um dia, Guga finalmente fez sua primeira viagem com os primos. Foi uma semana de farra, em que Guga, fascinado, acompanhava e imitava cada passo dos mais velhos. Mal conseguia disfarçar a inexperiência, especialmente com as meninas, mas se esforçava. Acabava sempre sozinho, mas, na última noite, surpreendeu. Não só foi o único a conquistar uma das moças, como conseguiu logo a mais bonita e mais loura de todas. Espantados, os primos até cederam o quarto pra Guga namorar melhor. Ele foi, assustado, mas eufórico. Na manhã seguinte, foi difícil satisfazer a curiosidade dos primos. Deu tudo certo, disse. Pelo menos, não aconteceu nenhuma tragédia. Acontecer, aconteceu, mas Guga só descobriu mais tarde, quando deu pela falta da carteira, com todo o seu dinheiro dentro. Ter perdido a carteira, os dólares e o santinho que guardava desde pequeno não foi tão ruim. Duro foi aguentar a gozação dos mais velhos. Duro foi ouvir, e acreditar, que se a moça não fosse uma ladrazinha, se não estivesse interessada só no roubo, nunca teria sequer sorrido pra ele. Duro foi pensar que ela estava agora às gargalhadas, torrando o dinheiro todo. Foi duro, mas Guga sobreviveu. Depois de uns dois dias, já nem se lembrava de mais nada. Ah, antes que eu me esqueça, a carteira ficou jogada atrás da tevê. Quem descobriu foi a arrumadeira, ao preparar o quarto para o próximo hóspede. Torrou o dinheiro todo, às gargalhadas.

12.3.07

passatempo

Depois de ano e meio de preparativos, havia chegado o grande dia. A noiva entrou radiante na igreja lotada, se deliciando com cada detalhe. Enquanto ouvia as palavras do padre, pensava na inveja que as convidadas solteiras estariam sentindo. Admirava a decoração, perfeita, com cascatas e cascatas de flores caríssimas. Saboreava o impacto causado pela daminha, realmente a mais linda que já tinha visto. Lembrava o orgulho do noivo ao vê-la desfilar, parecendo uma princesa no vestido todo bordado. Mal podia esperar pela segunda etapa, a festa. Foi antecipando os cumprimentos, a valsa, o jantar, a alegria da amiga encalhada que, com sua ajuda, ficaria com o buquê. Já estava pela lua-de-mel quando o padre afinal fez a pergunta e ela respondeu que sim, que queria, sim, se casar com o noivo. Viraram-se para trocar alianças e ela achou lindo quando o padre pediu que, antes, exibissem as mãos, o símbolo da união, para os convidados. Frente a frente, esticaram os braços, mantendo as mãos suspensas, encostadas uma na outra. Subiu a música e ela ficou ali pensando que aquele era o momento mais bonito da sua vida, que não poderia ser superado nem pelo nascimento dos filhos, cujas carinhas já começava também a imaginar. O noivo, brincalhão, ameaçava abaixar o braço e ela fazia que não com a cabeça, rindo. E agradecia a sorte de ter um noivo tão bem-humorado. Depois de alguns minutos, percebeu que o braço do noivo tremia sem parar e ameaçava despencar de verdade. Daí pra frente, só pôde pensar nisso. Sabia que a música ainda estava longe do fim quando o noivo, suado e um tanto pálido, avisou que suas forças tinham se esgotado. Apavorou-se, pois a igreja inteira morreria de rir se interrompessem a cena antes da hora. O noivo argumentou que o braço estava duro, cheio de cãimbras, mas ela implorou que ele agüentasse só mais um pouco. Apaixonado, o noivo atendeu. Quando a noiva já comemorava o fim da sinfonia, o noivo não resistiu e caiu. Caiu pra trás durinho, mantendo esticados o braço e a mão, como prometido. A confusão aí se instalou. Foi um tal de socorrer o noivo, de abanar a noiva, que já ia desmaiando também, de conter o chilique do cerimonialista, que o casamento acabou ficando por aquilo mesmo. O padre sorriu, satisfeito. Antes de dormir, riscou na lateral da cama mais um tracinho, o vigésimo segundo, pelo vigésimo segundo casamento interrompido no último instante. Arruinar casamentos, seu passatempo preferido.