2.12.06

d'accord?

A mãe fala francês, arranha no inglês e no resto chuta que é um horror, mas se sente a poliglota. Viaja três vezes por ano. Não pelo prazer de viajar, mas para conversar com todo e qualquer estrangeiro que cruze seu caminho. Puxa conversa com taxistas, recepcionistas, garçons, vendedores, quem aparecer. É um custo sair do hotel. A mãe passaria o dia inteiro na recepção, só conversando. Quando sai, pega um táxi e é outra guerra. A corrida de cinco minutos acaba durando uma hora. A mãe faz o taxista passar várias vezes pelo local de destino, só pra não interromper a falação. Quem já a viu se esforçando em italiano, espanhol e até japonês, que julga dominar, sabe o que representa dar voltas e voltas trancada num carro enquanto ela fala. Vez por outra, até os taxistas se cansam e abrem mão de cobrar a longa corrida, desde que ela desça imediatamente. A mãe adora taxistas, mas é especialista mesmo em recepcionistas. Faz sempre amizade, chega até a trocar cartõezinhos no Natal com muitos deles. Se encantou por um jovenzinho em Paris - tão simpático, minha filha, vcs precisam conversar. A filha conversava. Dava bom dia, boa noite, pedia a chave, agradecia, enfim, conversava. Subia pro quarto e a mãe continuava no bate-papo. Quando chegava, a filha quase sempre já estava dormindo. Uma noite, a mãe entrou aflita. Minha filha, o Pierre vai embora amanhã. Foi despedido? Não, troca de plantão. Vc me acordou pra dizer que o cara vai folgar? Não, te acordei pra vc se despedir. A filha tentou voltar a dormir, mas a mãe não desistiu. Liga lá pra baixo, minha filha, diz que vai sentir a falta dele. Sabendo que a mãe seria capaz de passar a noite insistindo, a filha ligou. Nem ouviu direito a resposta do rapaz, começou a cochilar antes do fim da ligação. Só pescou um demain, d'accord? Ça va, demain, d'accord. A mãe deu um pulo. Demain d'accord o quê? Sei lá, mãe, tava dormindo. Minha filha, ele marcou um encontro com vc? Bom, se tiver marcado, amanhã a gente desmarca. E se ele quiser te sequestrar? Mãe, é um recepcionista, não é um psicopata. E se for? A gente troca de hotel. E se ele te seguir? Por via das dúvidas, passaram o resto da viagem trancadas no hotel. Foi duro pra filha perder quatro dias em Paris, mas valeu a pena. Fingindo-se de apavorada, fez a mãe jurar que nunca mais conversaria com estranhos, especialmente com perigosos recepcionistas. Isso vale muito mais do que quatro dias, vale uma vida inteira sem pisar em Paris.

11 comentários:

Anônimo disse...

D'accordíssimo!

Anônimo disse...

Nossa! Que mãe é essa! Vade retro.

Anônimo disse...

Com as croniquetas dá para ver como Mariana é viajada. É um tal de Paris, Índia, Roma... que maravilha!!!

Mariana disse...

E vcs acreditam, isso é que é o melhor.

Anônimo disse...

Saborosa crônica. É um prazer visitar o seu blog, menina.

Anônimo disse...

hahahahaha!
Mãe psico!

Anônimo disse...

dah pra entender pq q a mae eh assim.. eh soh olhar pra voh..

Mariana disse...

ler a avó, né? até me assustei agora. será que vc é alguém conhecido, s?

Anônimo disse...

conhecido da vovoh viajadora.. agora da mae tb. aos poucos vou conhecendo a familia toda.

Anônimo disse...

" I "

Mari, agora que tirei uns dias para esquecer um pouco o mugido do bois na fazenda, deixei MS, enfrentei o caos da aviação e vim passar o Natal no Rio. Já havia decidido deixar de ler suas croniquetas, mas não resisti à minha teimosia: elas são realmente uma gostosura de se ler. Parafraseando José de Alencar, "são mais doces que o favo do mel"
Esse "S", aí ao lado, tem mais sorte que eu: já conhece a mãe e a vó, e eu, por enquanto, só sei que vc mora em Botafogo, perto da Sears, se chama Mariana, é escritora e poetisa (?), fala fluentemente o francês, conhece meio mundo... só pode ser rica!... D!accord?
Sua vó, de tanto viajar a Paris, talvez nem ligue mais para as recomendações - verdadeiro testamento - pregado num quadro atrás da porta de entrada. Quando estive lá pela primeira vez e li aquele catatau todo, gelei e pensei: que vim fazer nesta terra?
(Deve ser horrível viver num país assim) Depois, com o tempo fui me acostumando, afinal, conheço Botafogo e o Rio. Preciso dizer algo mais?

Mariana disse...

Seria bom, I.
bj